Escreveu. Sobre o piso de concreto e azulejo do vestiário do SoFi Stadium, em Los Angeles, a delegação iraniana deixou algo que nenhum placar registra: uma carta manuscrita endereçada à cidade, aos torcedores e, nas entrelinhas, ao mundo inteiro. O gesto aconteceu na noite do domingo, 22 de junho, após o empate por 0 a 0 com a Bélgica pela segunda rodada do Grupo G da Copa do Mundo de 2026 — e transformou um resultado modesto em um documento histórico.
A mensagem, divulgada pela Federação de Futebol do Irã (FFIRI), começava evocando milênios de civilização: "Da antiga Pérsia de milhares de anos atrás ao Irã civilizado de hoje, o espírito do Irã permanece vivo e inabalável." O texto seguia com precisão quase poética:
"Viemos a Los Angeles com orgulho, competimos com honra e partimos com dignidade. Obrigado, Los Angeles, pela sua hospitalidade. E obrigado a cada iraniano que entregou seu coração, sua voz e sua alma pelo Irã ao longo destes 180 minutos. Que a paz, o respeito e a amizade prevaleçam entre todas as nações."
Ao fim da carta, duas hashtags: #minab e #168. A numeração não é arbitrária — refere-se às 168 vítimas, a maioria crianças, do bombardeio contra uma escola na cidade de Minab, no sul do Irã, no início de 2026, durante o recente conflito no Oriente Médio envolvendo Estados Unidos e Israel. Desde a chegada ao México, os atletas já carregavam um broche com o número no paletó.
A diplomacia forçada de quem dorme em Tijuana e joga em Los Angeles
Há um paradoxo geográfico que define esta campanha iraniana: a seleção disputa uma Copa sediada parcialmente nos Estados Unidos sem poder dormir em solo americano. As autoridades norte-americanas estabeleceram que a delegação só pode entrar no país nas 24 horas anteriores a cada partida e deve deixar o território no mesmo dia. Por isso, desde 7 de junho, o Irã se concentra em Tijuana, no México — cidade-fronteira que se tornou, involuntariamente, a base de operações de uma das histórias mais singulares deste Mundial.
A situação não surgiu do nada. Após o sorteio dos grupos, a Federação Iraniana havia planejado se instalar em Tucson, no Arizona. A deterioração das relações diplomáticas entre Teerã e Washington, agravada pelo conflito de 2026, inviabilizou o plano. O técnico Amir Ghalenoei não poupou palavras ao descrever o cenário: classificou o Irã como "a seleção mais prejudicada de toda a Copa do Mundo", citando complicações na obtenção de vistos tanto para os Estados Unidos quanto para o México, além da falta de tempo de preparação antes do torneio.
A FFIRI chegou a anunciar que apresentaria queixa formal à Fifa pelo tratamento "desigual". A resposta veio de Andrew Giuliani, diretor da força-tarefa da Casa Branca para o Mundial, que se disse aberto a renegociar os termos de entrada do Irã para o último jogo da fase de grupos, contra o Egito, em Seattle, no dia 27 de junho.
Jahanbakhsh e o afeto que nenhum regulamento proibiu
Se a relação com os Estados Unidos é tensa, a com o México virou afeto declarado. O atacante e um dos capitães da seleção, Alireza Jahanbakhsh, falou na zona mista após o jogo com uma espontaneidade que contrastava com o ambiente político ao redor:
"Nós amamos o povo mexicano, acho que todos na delegação têm o mesmo sentimento. É inacreditável o quão bem-vindos fomos lá, a hospitalidade é incrível e acho que há um sentimento profundo entre os jogadores e o povo mexicano. Eu gostaria de dizer 'muchas gracias'. Desde que estamos lá, em Tijuana, nós seguimos ouvindo: 'Irã, hermano, já é mexicano'. Isso mostra o suficiente."
A recepção no aeroporto de Tijuana, em 7 de junho, com torcedores mexicanos aguardando a delegação, virou símbolo de uma hospitalidade que nenhum protocolo diplomático havia previsto. Há algo nessa cena que lembra o filme Casablanca — pessoas separadas por fronteiras políticas que encontram, num espaço improvável, uma humanidade compartilhada que os governos não conseguem legislar.

O vestiário como tribuna e o futebol como linguagem universal
A história das Copas do Mundo registra gestos políticos dentro e fora de campo. Em 1978, a Argentina de Videla usou o título como propaganda de regime. Em 2022, no Catar, jogadores iranianos recusaram-se a cantar o hino nacional nos primeiros jogos, em solidariedade aos protestos que sacudiam o país após a morte de Mahsa Amini. Em 2026, o mesmo Irã adota uma linguagem diferente: não o silêncio como protesto, mas a palavra escrita como ponte.
A carta do SoFi Stadium não ignora a dor — as hashtags #168 e #minab estão ali para que ninguém esqueça as crianças de Minab. Mas o texto escolhe o vocabulário da dignidade e da hospitalidade, não o da acusação. É uma distinção que, conforme registrado por SportNavo ao longo desta Copa, separa as delegações que usam o futebol como megafone das que o usam como espelho.
Nos dois primeiros jogos disputados em Los Angeles — empate por 2 a 2 com a Nova Zelândia e 0 a 0 com a Bélgica —, o Irã acumulou dois pontos e ocupa a segunda posição do Grupo G. Uma vitória sobre o Egito no Lumen Field, em Seattle, na madrugada de 27 de junho (0h, horário de Brasília), garantirá a classificação inédita para o mata-mata da Copa do Mundo — feito que, em toda a história da seleção iraniana no torneio, ainda não foi alcançado. Para chegar lá, a delegação voltará a cruzar a fronteira em Tijuana, dormirá mais uma noite em território mexicano e entrará nos Estados Unidos pelas próximas 24 horas permitidas. O mesmo ritual. A mesma restrição. E, talvez, mais uma carta para deixar para trás.








