— Cara, o Uruguai tá eliminado.
— Ainda não. Mas se perder pra Espanha na sexta, acabou.
— Sem o Arrascaeta? Boa sorte.

Essa conversa aconteceu em bares de Montevidéu, de Porto Alegre e provavelmente em qualquer canto do mundo onde um torcedor celeste tenha assistido ao empate por 2 a 2 contra Cabo Verde, no domingo, 21 de junho. O resultado — contra uma seleção que estreava numa Copa do Mundo — foi o segundo empate seguido do Copa do Mundo 2026 para o Uruguai, que já havia ficado no 1 a 1 diante da Arábia Saudita na rodada inaugural. Dois pontos em dois jogos, nenhuma vitória, e o adversário da última rodada é a Espanha — atual campeã europeia, favorita ao título do Grupo H.

O que os números revelam sobre a crise no Grupo H

A aritmética da situação uruguaia é cruel, mas não fecha todas as portas. Com dois pontos, a Celeste ocupa a segunda posição do Grupo H — acima da Espanha, que tem quatro, apenas porque o sistema de classificação da Copa do Mundo de 2026 é diferente do de edições anteriores. O torneio, com 48 seleções, classifica também alguns terceiros colocados, o que cria cenários matemáticos complexos. Para não depender de nenhuma combinação de resultados, o Uruguai precisa vencer. Um empate deixaria a equipe de Marcelo Bielsa refém do resultado entre Cabo Verde e Arábia Saudita no jogo paralelo. Uma derrota, na prática, significa eliminação — embora exista, em tese, a possibilidade remota de classificação como um dos oito melhores terceiros colocados. Remota ao ponto de ser irrelevante como plano.

A história recente pesa. No Catar, em 2022, o Uruguai saiu na fase de grupos com quatro pontos — venceu Gana, empatou com a Coreia do Sul e perdeu para Portugal. A vitória sobre os ganenses não foi suficiente. Agora, com dois pontos após duas rodadas, a margem de erro é ainda menor, e o adversário, incomparavelmente maior.

Bielsa descarta Arrascaeta e revela o tamanho do problema

Em entrevista coletiva após o empate com Cabo Verde, Marcelo Bielsa foi direto ao ser questionado sobre a possibilidade de contar com Flamengo's camisa 10 contra os espanhóis.

"Não, eles não têm chance de jogar contra a Espanha. Nem De Arrascaeta, nem Ronald Araújo."

A frase do técnico argentino eliminou qualquer esperança de que o meia pudesse aparecer como carta na manga. Giorgian de Arrascaeta chegou à Copa do Mundo carregando dois históricos médicos. Primeiro, uma fratura na clavícula sofrida ainda pelo Flamengo, que o colocou em dúvida até para a convocação. Quando finalmente se curou do ombro e voltou a treinar em campo com o grupo uruguaio, surgiu um segundo problema: uma lesão muscular na panturrilha direita, atribuída por jornalistas que cobrem a delegação a um erro de gestão de carga pela comissão técnica de Bielsa. O resultado foi que Arrascaeta não foi relacionado nem contra a Arábia Saudita nem contra Cabo Verde — e não estará disponível na sexta-feira, 26 de junho, quando a bola rola às 21h (horário de Brasília), no Estádio Akron, no México. Segundo Bielsa, o camisa 10 só voltará a ser opção caso o Uruguai avance ao mata-mata.

Araújo, zagueiro do Barcelona, também está fora por lesão muscular. A ausência dos dois jogadores mais influentes do elenco — um no meio de campo criativo, outro na retaguarda — expõe a fragilidade de um time que já demonstrou dificuldades para construir jogadas e fechar o placar nos 180 minutos anteriores.

O que Bielsa pode colocar em campo contra a Espanha

Pensar no Uruguai sem Arrascaeta é um exercício parecido com imaginar um quarteto de jazz sem o pianista — os outros três músicos são bons, mas a harmonia que sustentava o conjunto simplesmente deixa de existir. O meia do Flamengo não era apenas o criador mais prolífico do time: era o elo entre a marcação intensa que Bielsa exige e a qualidade técnica necessária para transformar recuperação de bola em chance de gol.

Sem ele, as opções passam por Rodrigo Bentancur, que oferece volume e disciplina, mas não o mesmo poder de desequilíbrio individual, e por Nicolás de la Cruz, que tem características mais parecidas com as de Arrascaeta, mas ainda não demonstrou consistência no nível de uma Copa do Mundo. Darwin Núñez, que balançou as redes nos dois primeiros jogos, precisará de serviço — e a questão é quem vai entregá-lo com a qualidade necessária.

A Espanha, por sua vez, chega ao confronto como favorita clara. Com Pedri, Yamal e Morata como referências, a seleção espanhola tem posse de bola como religião e pressão alta como sacramento. Contra um Uruguai sem seus dois líderes, o modelo bielsiano de pressão intensa pode até funcionar nos primeiros 30 minutos — mas sustentá-lo por 90 contra uma equipe tecnicamente superior exige uma coesão que os resultados dos dois primeiros jogos não confirmaram.

Em matéria do SportNavo publicada antes da Copa, a dificuldade de Bielsa em preparar o Uruguai sem amistosos relevantes já era apontada como fator de risco. Agora, esse risco tem nome, data e adversário.

O que os números revelam sobre a crise no Grupo H Uruguai precisa vencer a Espan
O que os números revelam sobre a crise no Grupo H Uruguai precisa vencer a Espan

Uruguai e Espanha se enfrentam na sexta-feira, 26 de junho, às 21h (horário de Brasília), no Estádio Akron, em Guadalajara. Uma derrota elimina a Celeste. Uma vitória a classifica. Não há meio-termo que satisfaça.

Uruguai x Espanha, sexta, 21h. Sem Arrascaeta. Sem Araújo. Sem margem.