Confesso: eu errei sobre o futebol egípcio em 2018. Naquela Copa da Rússia, escrevi que a presença de Mohamed Salah seria suficiente para finalmente dar ao Egito sua primeira vitória em um Mundial. Oito anos depois, vejo com clareza por que estava errada — e por que o problema nunca foi falta de talento individual.
Em 15 de junho de 2026, no Lumen Field em Seattle, diante de 66.765 torcedores, o Egito abriu o placar contra a Bélgica aos 19 minutos do primeiro tempo, controlou boa parte da partida e chegou ao intervalo em vantagem. Tudo indicava que o tabu seria quebrado. Mas, aos 22 minutos da segunda etapa, Romelu Lukaku — recém-entrado no banco — participou do lance que terminou em gol contra de Hany, e o placar foi igualado em 1 a 1. O resultado empurrou o Egito para mais uma estatística cruel: três empates e cinco derrotas em quatro participações na Copa do Mundo, sem uma única vitória sequer.
O paradoxo africano que não tem resposta fácil
Nenhuma seleção do continente africano conquistou mais títulos continentais do que o Egito. São sete troféus da Copa Africana de Nações — o mais recente em 2021 —, contra quatro do Camarões e quatro da Nigéria. A hegemonia regional é inquestionável. No entanto, quando o assunto é Copa do Mundo, o país mais vitorioso da África não venceu nem uma única partida nas edições de 1934, 1990, 2018 e agora 2026.
Para entender esse paradoxo, é preciso olhar para o histórico com frieza. Em 1934, na Itália, o Egito perdeu para a Hungria por 4 a 2 na única partida da fase eliminatória daquela Copa. Em 1990, voltou ao Mundial depois de 56 anos de ausência e ficou em terceiro lugar do Grupo F, com dois empates e uma derrota, sem marcar gols. Em 2018, na Rússia, foi eliminado na fase de grupos com três derrotas — para Uruguai, Rússia e Arábia Saudita —, apesar de contar com Salah em forma excelente no Liverpool. A Copa de 2026 marca a quarta presença, e o roteiro se repete: competitividade sem resultado.
A comparação histórica que mais ilumina esse fenômeno remonta aos anos 1990, quando seleções africanas como Camarões e Senegal causaram sensações no Mundial — o Camarões chegou às quartas de final em 1990 e o Senegal às quartas em 2002 —, enquanto o Egito, dominante no continente, ficava de fora ou saía cedo. A diferença estava na capacidade de adaptar o futebol continental a exigências táticas globais. O Egito nunca fez essa transição de forma consistente.
O que aconteceu no Lumen Field revela o problema estrutural
A atuação desta segunda-feira foi, ao mesmo tempo, a mais promissora e a mais dolorosa da história egípcia em Copas. Salah, aniversariante de 34 anos e sem clube desde que deixou o Liverpool, deu a assistência para o gol de Emam Ashour, meia do Al-Ahly, que finalizou da meia-lua sem chance para Thibaut Courtois. Foi apenas a segunda vez na história que o Egito saiu na frente em uma partida de Copa do Mundo.
O técnico Hossam Hassan montou uma equipe bem organizada defensivamente e perigosa nos contra-ataques. Aos 32 minutos, Courtois precisou se esticar para defender chute de Ziko, ponta do Pyramids. Na segunda etapa, Ashour desperdiçou uma chance claríssima após rebote do goleiro belga em cabeçada de Salah — estava sozinho e concluiu para fora. Marmoush também esteve perto de ampliar em duas oportunidades consecutivas. A Bélgica, invicta há 17 jogos antes da partida, não criou oportunidades claras no tempo regulamentar e chegou ao empate exclusivamente pelo gol contra de Hany, após jogada em que Lukaku sequer tocou na bola.
"O Egito esteve mais perto da vitória durante boa parte da partida e saiu de campo com a sensação de que deixou escapar dois pontos", registrou a ESPN em sua cobertura do jogo.
A análise tática confirma o diagnóstico: o problema egípcio não é ausência de qualidade. A seleção foi superior à Bélgica durante ao menos 70 minutos. O problema está na incapacidade de gerir vantagens contra adversários europeus de alto nível, que têm mais profundidade de banco e capacidade de ajuste em tempo real. Quando Lukaku entrou, a partida mudou — não porque o belga foi genial, mas porque o Egito não soube responder à pressão crescente.
O que falta para o Egito finalmente vencer um jogo de Copa
Há três fatores estruturais que explicam a barreira histórica. O primeiro é a dependência excessiva de Salah: em 2018 e agora em 2026, o camisa 10 é o único jogador de nível verdadeiramente mundial no elenco. Quando ele foi a campo machucado contra o Uruguai em 2018, o Egito perdeu por 1 a 0. Quando ele funciona, como nesta segunda-feira, a equipe compete. Mas o futebol de Copa exige coletivos, não indivíduos.
O segundo fator é a liga doméstica. O Campeonato Egípcio, dominado por Al-Ahly e Zamalek, não oferece o nível de competição que prepara jogadores para o ritmo dos Mundiais. Ashour, autor do gol desta segunda-feira, joga pelo Al-Ahly. Ziko, que quase marcou o segundo, é do Pyramids. A maioria dos titulares egípcios atua no próprio país, em um ambiente tático muito diferente do que encontram na Copa.

O terceiro fator é psicológico e institucional. Carregar o peso de 92 anos sem vitória em Mundiais cria uma pressão que se manifesta nos momentos decisivos. Ashour, sozinho na área após o rebote de Courtois, finalizou para fora. Marmoush desperdiçou duas chances. Não são erros de qualidade técnica — são erros de momento, de pressão acumulada.
"Apesar de ser a maior campeã da Copa Africana de Nações, com sete títulos continentais, a seleção comandada por Hossam Hassan agora acumula três empates e cinco derrotas em quatro participações no Mundial", conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura desta Copa.
A boa notícia para o Egito é que o Grupo G ainda oferece uma saída. No dia 21 de junho, a seleção enfrenta a Nova Zelândia — adversário teoricamente mais acessível do que a Bélgica. Uma vitória ali seria historicamente inédita, mas também seria o mínimo necessário para manter viva a classificação. Com um ponto, o Egito está empatado com a Bélgica na liderança provisória do grupo, enquanto Irã e Nova Zelândia completam a rodada inaugural. Confesso: eu errei sobre o futebol egípcio em 2018 — mas hoje vejo que o problema nunca foi Salah. Foi sempre o sistema.








