— Você viu o Brasil ontem? — perguntou um sujeito para o amigo, apoiando o copo na mesa de um boteco carioca no domingo de manhã. — Vi. — E aí? — Achei que era jogo de futsal, mas sem os gols.

O empate por 0 a 0 entre Brasil e Marrocos, na estreia da Copa do Mundo 2026, no sábado 13 de junho, deixou um resíduo amargo que não tem muito a ver com o resultado em si — afinal, Marrocos é a sétima colocada no ranking da FIFA, e tratar os Leões de Atlas como obstáculo fácil sempre foi um erro de perspectiva. O que incomoda, o que faz o torcedor se virar na cadeira e procurar as palavras certas, é outra coisa: a sensação de que o Brasil não sabe mais o que fazer com a bola no meio-campo.

O diagnóstico que Tim Vickery repete há 30 anos

O jornalista inglês Tim Vickery, um dos observadores mais cuidadosos do futebol sul-americano em atividade, não esperou nem o apito final para formular o que muita gente sentia sem conseguir nomear. Em análise publicada no canal da Trivela no YouTube, Vickery foi direto:

"O futebol brasileiro acho que vai pagar o preço durante um tempo, por um jogo conceitualmente ruim no meio-campo. Eu estou batendo nessa tecla há quase 30 anos."

A questão que Vickery coloca tem textura histórica. Para ele, a chamada "essência do futebol brasileiro" não mora no drible — narrativa que vende bem, mas explica pouco. Mora na qualidade dos passadores na faixa central, aqueles que durante décadas deram ao Brasil o controle do jogo antes mesmo de a bola chegar ao atacante. Pelé tinha Gérson. Ronaldo tinha Rivaldo e Ronaldinho. O que a Seleção atual tem é uma versão envelhecida de Casemiro operando num vácuo tático onde a triangulação foi substituída pela verticalidade compulsiva.

A ironia que Vickery destacou é quase literária: Marrocos, na estreia, jogou com mais fluidez no meio-campo do que o Brasil. Internacionalmente, durante os dias que antecederam a Copa, circulou o comentário de que os marroquinos lembravam "o Brasil dos velhos tempos, fazendo triangulação". Ou seja, o estilo que o Brasil abandonou foi assimilado por um adversário que o usou contra nós.

Saída de bola falha e a irritação que Ancelotti não escondeu

Carlo Ancelotti chegou ao banco da Seleção com credenciais de sobra — cinco títulos da Champions League, passagens por Real Madrid, Milan, Bayern de Munique e Everton — mas a Copa do Mundo 2026 encontra o técnico italiano ainda montando o quebra-cabeça. No programa Posse de Bola do UOL, exibido após o jogo do sábado, Arnaldo Ribeiro avaliou que Ancelotti tem "nove titulares definidos" mas ainda carrega pelo menos duas dúvidas para o próximo compromisso. A imprecisão não é cosmética: ela reflete um time que, no primeiro tempo contra Marrocos, priorizou aceleração e verticalidade sem ter os meios técnicos para sustentar esse ritmo.

Saída de bola falha, marcação frouxa no setor intermediário e quase nenhuma criação de oportunidades reais de gol foram os pecados capitais identificados pelos analistas. A irritação de Ancelotti no banco, registrada pelas câmeras durante a partida, não era de técnico surpreso — era de alguém que via o plano de jogo se desfazer contra um adversário bem organizado que fechou o meio-campo com disciplina e esperou o Brasil cometer os próprios erros.

"Essa coisa de essência do futebol brasileiro, às vezes eu acho um pouco cansativo. Mas quando as pessoas falam em essência do futebol brasileiro, sempre falam no drible. Eu tenho outra visão. Para mim, a essência do futebol brasileiro foi ter os melhores passadores da bola na faixa central de meio-campo, gerenciando o jogo", definiu Vickery.

A torcida, enquanto isso, encontrou uma resposta mais simples para o problema: colocar Endrick. O atacante de 19 anos, que fez gols importantes quando entrou como reserva pela Seleção, virou símbolo da insatisfação coletiva — o jogador que resolve, que corre, que arrisca, enquanto os titulares circulam a bola sem propósito aparente. No Posse de Bola, Juca Kfouri levantou o nome de Matheus Pereira como alternativa caso Wesley seja cortado por lesão, sugerindo que o elenco ainda tem opções inexploradas no setor criativo.

O que Ancelotti pode ajustar antes do jogo contra o Haiti

O próximo desafio do Brasil na Copa do Mundo 2026 é contra o Haiti, na sexta-feira, e a expectativa automática de goleada precisa ser temperada com realismo. O jornalista que analisa o empate com Marrocos como tragédia provavelmente vai se decepcionar de novo: a história recente da Seleção mostra um time que ainda procura seu ritmo, e times que procuram ritmo não atropelam adversários organizados, mesmo quando esses adversários são teoricamente mais fracos.

O ajuste que Ancelotti precisa fazer não é de nome, é de conceito. A pergunta que fica sem resposta após 13 de junho é a mais básica do futebol: quem, neste elenco, tem a qualidade técnica e a visão de jogo para gerenciar a partida a partir do meio-campo? Casemiro, aos 34 anos, nunca foi esse tipo de jogador — seu valor sempre esteve na contenção, não na distribuição. Se a resposta não existe dentro dos onze que Ancelotti prefere escalar, talvez ela exista no banco. Talvez seja Endrick, que ao menos garante presença na área. Talvez seja uma reorganização posicional que ainda não foi testada em jogo oficial.

O que se pode afirmar com os dados disponíveis é que o Brasil encerrou a primeira rodada da fase de grupos com um ponto, na segunda posição do grupo, e que a Escócia aguarda na terceira rodada como teste decisivo para a classificação. Ancelotti tem menos de uma semana para encontrar, no treino, o que Marrocos não deixou encontrar em campo.

Em algum boteco do Rio, alguém vai ligar a TV na sexta-feira, pedir uma cerveja e esperar que o Brasil resolva em campo o que ainda não resolveu na lousa tática — enquanto a bola rola e o meio-campo, mais uma vez, decide tudo.