Três coisas: condição física, versatilidade tática e peso político dentro do grupo. Tudo se explica daí quando se tenta prever quais 29 nomes Carlo Ancelotti vai riscar da pré-lista de 55 jogadores enviada à Fifa antes de anunciar, nesta segunda-feira (18), às 17h, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, os 26 convocados do Brasil para a Copa do Mundo de 2026.
O precedente de 2002 e a lógica cruel dos cortes finais
Quem viveu a convocação de Luiz Felipe Scolari para o Mundial da Coreia e do Japão — o último que o Brasil venceu, há 24 anos — lembra bem do drama de Romário, cortado da lista definitiva por lesão musuclar na véspera. Não foi o único: Vampeta, Edu e Ricardinho também ficaram de fora de uma pré-lista que chegou a 40 nomes. A diferença é que, em 2002, o regulamento da Fifa permitia listas menores e o processo de corte era menos escalonado. Hoje, com 55 candidatos para 26 vagas, Ancelotti precisa eliminar mais de metade do plantel — um exercício de frieza administrativa que poucos treinadores enfrentaram em proporção semelhante na história recente da Seleção.
A matemática é implacável: se distribuirmos as 26 vagas por setor, o Brasil normalmente leva três goleiros, oito defensores, seis meio-campistas e nove atacantes. A pré-lista apresenta seis goleiros, 16 defensores, 11 meias e 18 atacantes — o que significa que, só no setor ofensivo, dez nomes precisam ser descartados. Para ter dimensão da concorrência: esses 18 atacantes pré-listados marcaram, juntos, mais de 180 gols em clubes na temporada 2025/2026, número superior à soma de todos os gols sofridos pelos cinco times menos vazados da Bundesliga no mesmo período.

Os perfis que Ancelotti tende a sacrificar primeiro
Historicamente, os técnicos da Seleção cortam, nesta ordem, o jogador lesionado sem perspectiva de recuperação a tempo, o atleta de função redundante — aquele que ocupa a mesma posição de um titular incontestável sem agregar variação tática — e o nome de rendimento irregular na temporada. Vitor Roque, por exemplo, — submetido a cirurgia recente no tornozelo e com retorno previsto apenas após o torneio — já se enquadra na primeira categoria e deve ser oficialmente cortado. Carlos Miguel, goleiro do Palmeiras que venceu a disputa por titularidade no clube com Weverton ainda em 2025, sequer aparece entre os seis nomes da pré-lista, o que indica que Ancelotti já fez esse recorte antes mesmo da lista oficial.
No setor defensivo, nomes como Alex Sandro, Ibañez e Douglas Santos — todos com passagens irregulares pelos respectivos clubes nesta temporada — figuram entre os candidatos ao corte. A Seleção de 1998, semifinalista na França, tinha uma defesa com quatro titulares de alto nível europeu; a de 2026 ainda busca essa consistência, o que pode levar Ancelotti a priorizar versatilidade sobre especialização pura em pelo menos duas das oito vagas defensivas.
O caso Neymar e a divisão que paralisa o debate
Neymar — maior artilheiro da história da Seleção Brasileira, com 79 gols em 128 jogos — é o nome que transforma qualquer análise técnica em questão de fé. Uma enquete realizada pelo Lance! ao longo de três semanas mostrou resultado revelador: 51% dos participantes são contrários à convocação, contra 49% favoráveis. Nunca, em nenhuma Copa do Mundo desde 1994, um jogador desta estatura chegou à semana de convocação com aprovação popular tão dividida.
"Não temos um jogador como ele. Nos últimos anos é um referencial. Talvez seja o maior artilheiro do futebol brasileiro vestindo a camisa da seleção mais importante do planeta. Torço muito para que isso aconteça. É uma decisão difícil", disse Dorival Júnior, ex-técnico da Seleção e recém-apresentado como treinador do São Paulo, nesta mesma segunda-feira.
O próprio Ancelotti — em praticamente todas as entrevistas que concedeu desde que assumiu a Seleção — repetiu a mesma fórmula: talento de Neymar é inquestionável, mas a convocação depende de 100% de condição física. A frase, dita tantas vezes, virou ela mesma uma variável do problema: o treinador nunca fechou a porta, mas também nunca a abriu de par em par. Pelé, em 1962, foi cortado na estreia do Mundial por lesão muscular e o Brasil ganhou a Copa assim mesmo, com Garrincha assumindo o protagonismo. A história do futebol tem exemplos nos dois sentidos — de ausências que não fizeram falta e de presenças que fizeram toda a diferença.
"É um jogador que pode fazer a diferença em uma ou duas jogadas", completou Dorival, reconhecendo implicitamente que Neymar não chegaria à Copa como protagonista de 90 minutos, mas como recurso decisivo de jogo.
Andreas Pereira e a solidão alviverde na lista
Andreas Pereira carrega, nesta convocação, o peso de ser o único representante do Palmeiras na disputa pelas 26 vagas — um dado que contrasta com o protagonismo histórico do clube nos ciclos anteriores de Seleção. O meio-campista, de 29 anos, tem presença regular no esquema de Ancelotti e ocupa uma função específica de transição que o diferencia dos demais candidatos à posição. Sua concorrência direta inclui Bruno Guimarães, Éderson, Gerson e Andrey Santos — todos com temporadas sólidas em clubes europeus —, o que torna sua vaga disputada, mas não improvável.
O Brasil estreia na Copa do Mundo no dia 13 de junho, contra o Marrocos, no MetLife Stadium, em Nova York/Nova Jersey. Antes disso, a Seleção se apresenta na Granja Comary no dia 27 de maio, disputa amistoso contra o Panamá no Maracanã no dia 31 e enfrenta o Egito em Cleveland no dia 6 de junho — tempo suficiente para Ancelotti ajustar o grupo, mas insuficiente para qualquer jogador reconstruir uma condição física comprometida. Os 29 cortes serão conhecidos ainda hoje.









