Sábado, 20 de julho de 2026. Enquanto o futebol sul-americano processa mais uma rodada da Copa Sudamericana, um nome circula com discreta consistência nos bastidores da competição: Horacio Melgarejo Sager, o argentino que ocupa o banco do Cienciano e que, sem o ruído habitual dos grandes centros midiáticos, constrói algo que merece ser examinado de perto.
Há uma categoria de treinadores que o futebol continental tende a subestimar — aqueles que operam em praças menores, longe da visibilidade que Buenos Aires ou São Paulo oferecem, e que por isso raramente aparecem nas análises de quem acompanha o jogo de um escritório em Bogotá ou do estúdio de um canal por assinatura. Melgarejo Sager pertence a essa categoria. Seria injusto chamar de anonimato — mas é um anonimato em escala continental. E esse anonimato, paradoxalmente, é parte do que o torna interessante.
Como ele lida com a estrela do elenco
No futebol andino, onde os recursos são escassos e o talento individual tende a ser o ativo mais precioso de um clube, a relação entre treinador e estrela é sempre uma negociação tácita. Melgarejo Sager, de acordo com o que se observa na dinâmica do Cienciano na Copa Sudamericana, não opera pela lógica do star system — aquela tradição latino-americana de construir o time ao redor de um jogador e aceitar as inconsistências que isso gera.

O que se percebe no Cienciano é uma organização coletiva que não depende de um único intérprete para funcionar. O pressing alto que a equipe pratica em determinados momentos da partida exige comprometimento defensivo de todos, incluindo os jogadores de maior qualidade técnica. Essa exigência horizontal — pedir ao talento que também trabalhe sem bola — é a marca de um treinador que não negocia os princípios táticos em função do ego individual.
Como ele lida com o jovem em ascensão
No contexto do futebol peruano, onde o Cienciano tem histórico de revelar e perder talentos rapidamente para mercados maiores, a gestão de jovens em ascensão é uma das tarefas mais delicadas de qualquer comissão técnica. Melgarejo Sager parece compreender esse ciclo — e trabalha dentro dele, não contra ele.
A lógica que se observa é a de inserção gradual: o jovem não é lançado ao ambiente da Copa Sudamericana sem uma base de confiança construída previamente. Há uma pedagogia de banco, de minutos controlados, de responsabilidades crescentes. Quem acompanhou de perto como clubes como o Athletic Club de Bilbao ou o Ajax historicamente trataram a formação de jovens reconhece nessa abordagem uma racionalidade similar — não porque Melgarejo Sager seja comparável a essas estruturas em recursos, mas porque a lógica de desenvolvimento progressivo transcende orçamento.
Como ele lida com o veterano em queda
Esta é, talvez, a dimensão mais reveladora de qualquer treinador: o que ele faz com quem já passou do pico. No futebol sul-americano, veteranos em queda frequentemente se tornam problemas de vestiário quando não são bem geridos — jogadores com contratos longos, com histórico no clube, com influência sobre o grupo, mas com rendimento decrescente.
No Cienciano sob Melgarejo Sager, a percepção é de que o veterano ocupa um papel funcional e não sentimental. Não há espaço para titularidade por lealdade histórica — mas tampouco há descarte abrupto. O treinador argentino parece utilizar a experiência do jogador mais velho como recurso de vestiário e de momentos específicos de jogo, sem transformá-la em âncora tática. É uma gestão fria no sentido técnico, mas não no sentido humano — e essa distinção, que os ingleses chamariam de man-management, define muito sobre quem Melgarejo Sager é como profissional.
O ambiente que ele cria no vestiário
Treinadores argentinos carregam uma reputação dual no continente: ou são excessivamente autoritários, herdeiros de uma tradição de vestiário hierárquico que remonta às décadas de 1970 e 1980, ou operam no extremo oposto, com liberdade tática que às vezes beira a desordem. Melgarejo Sager, pelo que se depreende da campanha do Cienciano na Copa Sudamericana de 2026, não se encaixa em nenhum dos dois estereótipos.
O ambiente que ele constrói parece ter como base a clareza de papéis — cada jogador sabe o que se espera dele dentro e fora de campo. Essa previsibilidade, que em Barcelona aprendi a reconhecer como um dos pilares do trabalho de Pep Guardiola nos anos do tiki-taka no Camp Nou, cria coesão sem exigir carisma. O treinador não precisa ser amado para ser seguido — precisa ser compreendido. E Melgarejo Sager, ao que tudo indica, comunica sua ideia de jogo com suficiente clareza para que o grupo opere com consistência mesmo sob a pressão de um torneio continental.
Publicada em matéria do SportNavo, esta análise não pretende elevar Horacio Melgarejo Sager a uma categoria que os dados ainda não autorizam. O que os dados autorizam — e o que a campanha do Cienciano na Copa Sudamericana de 2026 ilustra — é que há aqui um treinador com convicções definidas, com método reconhecível e com a capacidade de fazer um clube de menor expressão continental competir em um torneio que não perdoa improvisação. Para as próximas semanas, o que se espera de Melgarejo Sager é exatamente o que ele tem entregado: organização, identidade tática e a gestão silenciosa de um elenco que opera acima das expectativas que o nome Cienciano carrega fora do Peru.












