É um relógio suíço com pavio curto.
A pré-lista de 55 nomes que a CBF entregou à Fifa na segunda-feira, 11 de maio de 2026, funciona exatamente assim: um mecanismo preciso, regulado ao milímetro pelo regulamento da competição, mas que pode explodir na mão de qualquer um dos convocados a qualquer momento. Neymar, incluído na relação por Carlo Ancelotti junto a veteranos como Thiago Silva e Weverton e jovens como Endrick e Rayan, sabe disso melhor do que ninguém. Estar na lista não é garantia de embarcar para os Estados Unidos. A história da Copa do Mundo está repleta de jogadores que também estiveram — e ficaram em casa.
O vestiário que Careca nunca ocupou na Espanha
Em junho de 1982, Careca era o centroavante titular da Seleção de Telê Santana, na época com 21 anos e defendendo o Guarani de Campinas. Sua presença na lista dos 40 jogadores enviada à Fifa — equivalente funcional da atual lista de 55 — era considerada certa para a Copa da Espanha. Uma lesão muscular às vésperas da estreia contra a União Soviética, em 23 de junho daquele ano, o tirou do torneio. Telê convocou Roberto Dinamite exatamente porque o centroavante do Vasco constava na lista preliminar. Sem essa burocracia protetora, o treinador estaria de mãos atadas. Com ela, o Brasil entrou em campo no Sarriá com um plano B viável — embora tenha caído nas quartas de final diante da Itália por 3 a 2, numa das derrotas mais dolorosas da nossa história copeira.
O mecanismo se repetiu, com variações, em 1998 e 2002. Romário foi cortado por Zagallo antes da Copa da França — oficialmente por lesão — e o técnico acionou Emerson, que estava na lista dos 40. Quatro anos depois, na Coreia e no Japão, foi a vez do próprio Emerson se machucar no ombro durante um treino recreativo de goleiro. Felipão chamou Ricardinho, do Corinthians, que constava na lista preliminar. O Brasil foi campeão com Ronaldo artilheiro — 8 gols em 7 jogos — mas dois titulares previstos nunca pisaram num campo oficial durante o torneio.
O campo onde Cerezo jogou enquanto a Seleção esperava
Há um episódio de 1986 que merece registro pelo seu grau de ironia histórica. Cerezo foi cortado da Seleção de Telê Santana no último corte antes da Copa do México, supostamente contundido. No dia 14 de junho daquele ano, entrou em campo pela final da Copa Itália entre Roma e Sampdoria — terminou 2 a 0 para a Roma, com gol do próprio Cerezo. O Brasil estreou no Mundial apenas dois dias depois, em 16 de junho. Naquele ciclo, Telê havia reunido 28 jogadores em fevereiro de 1986 na Toca da Raposa, centro de treinamento do Cruzeiro em Belo Horizonte, onde a Seleção permaneceu até maio sem que os atletas disputassem partidas pelos seus clubes. Dos 28, seis seriam cortados antes da viagem ao México — mas outros saíram por motivos disciplinares, como Éder, que agrediu um jogador do Peru num amistoso e foi desligado do grupo.
"A lista preliminar é uma faca de dois gumes: protege o treinador na emergência, mas coloca o jogador num estado de suspense que poucos conseguem administrar psicologicamente", observou um preparador físico que trabalhou em três Copas do Mundo com seleções sul-americanas.
A mesa onde Ancelotti decide até 18 de maio
No caso de Neymar em 2026, a decisão pertence a Carlo Ancelotti, que anunciará os 26 convocados finais no dia 18 de maio, segunda-feira, às 17h, no Museu do Amanhã, na Zona Portuária do Rio de Janeiro. O técnico italiano foi direto ao ponto em entrevista à agência Reuters: "Quando tem que escolher, tem que considerar muitas coisas. Para mim, é uma decisão não tão simples. Tenho que avaliar bem os prós e os contras." Davide Ancelotti, filho e auxiliar do treinador, confirmou à Gazzetta dello Sport que a inclusão de Neymar na pré-lista reflete melhora física real: "Se ele está nessa lista é porque sua condição física está melhorando."
Os números de Neymar em 2026 pelo Santos — 13 partidas, 6 gols e 3 assistências, com participação em 7 dos últimos 10 jogos do clube — são o argumento mais concreto a seu favor. Antes da convocação final, ele ainda terá dois jogos contra o Coritiba: pela Copa do Brasil na quarta-feira, 13 de maio, e pelo Brasileirão no domingo, 17. Duas vitrines, dois últimos argumentos em campo. A diferença entre Neymar e Careca em 1982 é que o atacante do Santos não depende de uma lesão alheia para entrar na lista — depende de convencer Ancelotti de que 13 partidas e 6 gols valem uma vaga entre os 26. Se ficar de fora, integrará o grupo de reservas que só pode ser acionado em caso de contusão de um colega antes do início do torneio, em 11 de junho.
É um relógio suíço com pavio aceso.









