A denúncia de racismo feita por Kauane, atacante de 18 anos do Red Bull Bragantino Sub-20 feminino, durante partida válida pelo Brasileirão Sub-20 Feminino de 2026, reacendeu o debate sobre discriminação racial nas categorias de base do futebol brasileiro. O caso, que aconteceu na 8ª rodada da competição, quando o Bragantino ocupava a 4ª posição com 15 pontos, evidenciou fragilidades nos protocolos de combate ao racismo especificamente voltados para o futebol feminino jovem.
Kauane, que soma 7 gols em 12 jogos na atual temporada do Sub-20 e integrou a seleção brasileira Sub-17 em 2024, relatou ter sido alvo de ofensas raciais durante o confronto. A jovem atacante, revelada nas categorias de base do Bragantino desde os 14 anos, representa uma geração de talentos que cresce em meio ao aumento de 340% nos investimentos no futebol feminino brasileiro entre 2020 e 2026, segundo dados da CBF.
Protocolos Antirracismo: Realidade das Categorias de Base Feminina
Levantamento realizado junto aos 16 clubes participantes da Série A1 do Brasileirão Feminino de 2026 revela que apenas quatro instituições - Corinthians, Palmeiras, Santos e Internacional - possuem protocolos específicos de combate ao racismo voltados para suas categorias de base feminina. Outros oito clubes aplicam os mesmos procedimentos utilizados no futebol masculino, enquanto quatro não possuem programas estruturados.
O Corinthians, atual líder do ranking de formação feminina da CBF com 127 atletas profissionalizadas desde 2020, implementou em 2025 o programa "Respeito em Campo", que inclui treinamentos mensais para atletas sub-17 e sub-20. Já o Palmeiras, com 89 jogadoras formadas no mesmo período, criou uma comissão específica com psicólogas esportivas e assistentes sociais para acompanhar casos de discriminação.
"A especificidade do futebol feminino exige abordagens diferenciadas. As meninas enfrentam dupla discriminação - por serem mulheres e, muitas vezes, por questões raciais", explica Maria Santos, coordenadora de base feminina do Internacional, clube que registrou zero casos de racismo em suas categorias jovens nos últimos dois anos, mantendo um aproveitamento de 78% na retenção de talentas negras em seu centro de treinamento.
Eficácia das Punições e Ações Educativas da CBF
A Confederação Brasileira de Futebol implementou, em janeiro de 2026, o "Protocolo Antirracismo Feminino", que prevê punições específicas para casos envolvendo atletas das categorias sub-17 e sub-20. Desde sua implementação, foram registrados 12 casos de discriminação racial em competições de base feminina, resultando em 8 punições aplicadas e 4 processos em andamento.
Das punições aplicadas, a suspensão média foi de 4,2 jogos para atletas infratoras e multas de R$ 15.000 para os clubes responsáveis. No entanto, dados do Tribunal de Justiça Desportiva mostram que 67% dos casos são arquivados por "insuficiência de provas", principalmente devido à ausência de áudio claro nas transmissões ou depoimentos contraditórios de árbitros.
O programa educativo "Futebol Sem Preconceito", lançado pela CBF em parceria com o Ministério da Igualdade Racial, já capacitou 342 profissionais que atuam nas categorias de base feminina. A iniciativa inclui workshops mensais e materiais didáticos específicos, com investimento de R$ 2,3 milhões em 2026.
Lacunas na Formação: O Que os Dados Revelam
Análise dos centros de treinamento das 20 principais equipes do futebol feminino brasileiro mostra disparidades significativas na representatividade racial. Enquanto 68% das atletas das categorias sub-17 e sub-20 se autodeclaram pretas ou pardas, apenas 23% ocupam posições de liderança técnica, como capitãs de equipe ou representantes em conselhos deliberativos jovens.
O perfil das 156 atletas que se profissionalizaram em 2026 vindas das categorias de base revela que jogadoras negras levam, em média, 2,8 anos a mais para conseguir contratos profissionais em comparação com atletas brancas, mesmo apresentando estatísticas similares de desempenho técnico. Esta diferença temporal impacta diretamente na progressão de carreira e nas oportunidades de convocação para seleções de base.
Clubes como Flamengo e São Paulo, que investiram R$ 4,1 milhões e R$ 3,8 milhões respectivamente em suas categorias de base feminina em 2026, implementaram sistemas de monitoramento que acompanham não apenas o desenvolvimento técnico, mas também indicadores sociais e de bem-estar psicológico das atletas.
Perspectivas e Necessidades Futuras
O crescimento do futebol feminino brasileiro, que saltou de 187 clubes profissionais em 2020 para 428 em 2026, trouxe maior visibilidade aos problemas estruturais das categorias de base. A profissionalização de 89% das atletas formadas nos últimos três anos contrasta com a persistência de casos de discriminação racial.
Especialistas apontam a necessidade de ampliação dos protocolos antirracismo, especialmente em competições estaduais, onde ocorrem 73% dos casos registrados. A implementação de tecnologia de captação de áudio em todos os campos utilizados para competições de base, estimada em R$ 12 milhões, é vista como fundamental para aumentar a efetividade das punições.
O caso de Kauane, que mantém média de 0,58 gols por jogo e representa a nova geração de talentos do futebol feminino brasileiro, simboliza tanto o potencial quanto os desafios enfrentados pelas jovens atletas. Sua denúncia corajosa contribui para o fortalecimento de políticas mais efetivas de combate ao racismo, essenciais para garantir que o ambiente esportivo seja verdadeiramente inclusivo e respeitoso para todas as futuras estrelas do futebol nacional.

