O Brasil jogou bem e não ganhou. Essa é a contradição que os números da Fifa colocam na mesa depois do empate de 1 a 1 com Marrocos, no último sábado, 13 de junho, no Estádio MetLife, em Nova Jersey. Raphinha percorreu 11,65 quilômetros — a maior distância registrada entre os 16 brasileiros que pisaram no campo — enquanto o time terminava o jogo sem vitória, com Gabriel Magalhães como o jogador de linha que mais tocou na bola. Esse é o paradoxo que a estreia da Seleção deixou gravado nas estatísticas: o atacante que mais correu, mais pressionou e mais cruzou pertence a um time que ainda não sabe como transformar movimento em resultado.
O homem que nunca parou nos 90 minutos
Os 11,65 km de Raphinha só ficaram abaixo dos 11,68 km do volante Ayyoub Bouaddi, de 18 anos, que foi o atleta que mais correu na partida inteira — marroquino ou brasileiro. Além da distância, o camisa 11 do Barcelona acumulou 80 arrancadas, a marca mais alta entre os brasileiros, e realizou 47 ações de pressão ou redução de espaço sobre o ataque adversário. Raphinha foi também o jogador verde-amarelo mais acionado na intermediária de ataque, com 17 recepções entre as linhas, e produziu seis cruzamentos ao longo da noite. O custo desse volume de iniciativas apareceu na conta dos erros forçados: cinco, o maior número entre os seus companheiros.
Há uma leitura generosa para esses dados — a de um atleta que assumiu responsabilidade quando o sistema travou — e uma leitura mais crua: quando um atacante precisa correr tanto para que o time funcione minimamente, algo no meio-campo não está fluindo. Ancelotti, que garantiu publicamente que o empate não abala a confiança do grupo, tem diante de si exatamente essa equação para resolver antes da segunda rodada.
Vini Jr e o paradoxo do melhor em campo
Eleito o melhor jogador da partida, Vinícius Júnior foi o brasileiro que mais pediu a bola: 61 ações de participação, número superado apenas pelo próprio Bouaddi, que registrou 69. O atacante do Real Madrid marcou o gol de empate e liderou o time em presença ofensiva. Mas há um número que contextualiza o prêmio individual dentro do resultado coletivo: o jogador de Marrocos com mais passes distribuídos foi justamente Bouaddi, com 67. No Brasil, o atleta com mais toques na bola — 84, no total — foi o zagueiro Gabriel Magalhães. Em outros termos: o time que mais movimentou a bola pelo chão foi o africano, enquanto a Seleção girava o jogo por dentro da defesa.
"Queria ter feito mais pelo clube", disse Oscar em vídeo publicado nas redes sociais.
Essa estatística do zagueiro como principal tocador não é, por si só, uma condenação. Às vezes reflete a pressão que o adversário impõe, obrigando a saída de bola pelo setor defensivo. Mas quando ela aparece ao lado dos números de Bouaddi — um volante de 18 anos que distribuiu mais passes que qualquer brasileiro de meio-campo —, o retrato ganha um contorno mais preocupante. O Brasil foi pressionado onde não deveria ser, e respondeu com o corpo de Raphinha e o talento individual de Vini.
Douglas Santos e a única certeza tática da noite
Se Raphinha foi o dado mais volumoso e Vini o mais vistoso, Douglas Santos foi, talvez, o mais revelador sobre o que Ancelotti conseguiu construir de concreto na estreia. O lateral-esquerdo do Zenit registrou 22 tentativas de jogadas de penetração pelo flanco, com 18 concluídas com êxito — o maior número entre os brasileiros nessa categoria. O lado esquerdo, onde Douglas atua, foi justamente o corredor mais acionado pela Seleção durante os 90 minutos, conforme registrado pelo SportNavo com base nos dados oficiais da Fifa.
Ismael Saibari, autor do gol marroquino no MetLife, realizou 67 movimentos de caráter defensivo enquanto esteve em campo — número que supera os 47 de Raphinha e evidencia o quanto Marrocos trabalhou coletivamente para fechar os espaços. O gol africano nasceu justamente de uma transição rápida que expôs a linha defensiva brasileira num momento em que o time estava empilhado no campo adversário. Bouaddi, presente em tudo, estava lá também nessa jogada.
O Brasil volta a campo na quinta-feira, 19 de junho, contra a Alemanha, em jogo que pode definir prematuramente a liderança do grupo. Os números da estreia apontam para um time com intensidade individual acima da média, mas com lacunas claras na circulação de bola e na proteção do meio-campo. Em 19 de junho saberemos se Ancelotti encontrou as respostas que os 11,65 km de Raphinha ainda não foram suficientes para dar.








