Se o juiz da final da Copa do Mundo apitar um pênalti duvidoso nos acréscimos desta terça-feira, 16 de junho, no MetLife Stadium, Pape Thiaw vai saber exatamente o que sente. Ele já viveu esse roteiro — e o desfecho não foi justo. A seleção do Senegal chega ao duelo contra a França às 16h (horário de Brasília) carregando uma ferida que janeiro de 2025 abriu e nenhum resultado apagou: a perda do título da Copa Africana de Nações no tapetão, após uma sequência de decisões que o próprio técnico recusa-se a chamar de arbitragem.

A polêmica tem data, hora e nome. Na final disputada em Rabat, Marrocos, o árbitro assinalou pênalti sobre Brahim Díaz após uma cavadinha que os replays mostraram claramente mal executada pelo próprio atacante marroquino — uma simulação que a câmera registrou com impiedosa nitidez. A cobrança forçou a prorrogação. No intervalo, Thiaw tomou uma decisão extrema: ordenou que os jogadores saíssem de campo em protesto. Foi Sadio Mané, o capitão e maior símbolo do futebol senegalês, quem contornou a crise interna e convenceu o grupo a voltar. Pape Gueye marcou na prorrogação e Senegal venceu em campo. A Confederação Africana de Futebol, no entanto, retirou o título, aplicou punição financeira à federação senegalesa e proclamou Marrocos campeão.

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O técnico que não esquece e o vestiário que não perdoa

Na véspera da estreia contra a França, Thiaw sentou diante da imprensa na sala de coletivas organizada pela Fifa no MetLife Stadium e tentou equilibrar contenção com verdade. A tentativa durou pouco.

"É verdade que não gostaria de voltar a esse tema porque para mim somos campeões africanos. Depois dessa final, não pude participar da conferência de imprensa e vocês sabem de tudo o que aconteceu. Agora, é estar bem preparado para fazer uma boa partida e um ótimo início de Copa do Mundo", disse o treinador.

A frase tem uma arquitetura reveladora: começa com a tentativa de fechar o assunto, atravessa uma declaração de identidade coletiva — "somos campeões africanos" — e termina com o olhar virado para frente. Thiaw não esqueceu. Escolheu canalizar. Há uma diferença entre os dois verbos que qualquer psicólogo esportivo reconheceria, e que qualquer adversário deveria temer. O técnico também pediu que a imprensa não acreditasse em relatos de redes sociais sobre supostos problemas com a entrada da delegação nos Estados Unidos, afirmando que o grupo foi "bem recebido em solo americano" e que tudo seguiu protocolo normal.

O que se viu no treino desta segunda-feira, 15, no MetLife Stadium, segundo observadores credenciados, foi um grupo fechado, de movimentação intensa e comunicação cifrada em campo — uma corrente elétrica que corre sob a superfície, silenciosa como aquifer antes da chuva. Thiaw não precisou de discurso motivacional. A memória de Rabat já faz esse trabalho.

França como adversário simbólico além das chuteiras

Há uma camada que vai além da tática quando Senegal enfrenta a França. Os dois países compartilham uma história colonial que se estende do século XVII até 1960, ano da independência senegalesa. Boa parte do elenco senegalês atual é formada por jogadores nascidos ou criados em território francês: o próprio Mané nasceu em Sédhiou, mas construiu carreira pela Europa; Pape Gueye, herói da prorrogação em Rabat, joga pelo Villarreal após passagem pelo Marselha. A seleção da França, por sua vez, tem em seu elenco jogadores de ascendência africana que, em outras circunstâncias históricas, poderiam ter envergado a camisa senegalesa.

Esse encontro no Grupo I — que ainda conta com Iraque e Noruega — não é apenas o jogo de abertura de uma chave. É um confronto que carrega peso simbólico acumulado por décadas, e que a polêmica da Copa Africana tornou ainda mais denso. Quando Thiaw diz "somos campeões africanos", ele fala para o vestiário, para a federação e, de certa forma, para a história. A França, que chega como uma das favoritas ao título, terá diante de si não apenas onze jogadores motivados, mas uma seleção que sente que tem uma dívida a cobrar do continente africano — mesmo que o credor imediato desta terça seja outro.

O que Senegal pode fazer com essa raiva no MetLife

A história da Copa do Mundo tem exemplos de seleções que transformaram indignação em desempenho. A Argélia de 2014 chegou ao torneio com problemas internos sérios e eliminou a Coreia do Sul antes de ser eliminada pela Alemanha na prorrogação. O Senegal de 2002 — geração de El-Hadji Diouf e Salif Diao — chegou ao torneio sem favoritismo e eliminou a França campeã na fase de grupos, terminando as quartas de final. Esse precedente não é irrelevante: foi a última vez que as duas seleções se enfrentaram em Copa do Mundo, e o placar foi 1 a 0 para os senegaleses.

A seleção atual tem peças de qualidade europeia consolidada. Mané, aos 33 anos, ainda é o condutor emocional do grupo — foi ele quem evitou o colapso em Rabat, foi ele quem garantiu que o time voltasse ao campo quando o técnico havia perdido o controle da situação. Ao lado de Gueye, que marcou o gol do título que lhes foi tirado, e de Ismaïla Sarr, atacante do Crystal Palace com velocidade que poucos laterais europeus conseguem acompanhar, o Senegal tem condições reais de surpreender no MetLife Stadium.

"Fomos bem recebidos em solo americano e tudo que foi feito fez parte do protocolo. Acredito que não devemos dar muita atenção a tudo que sai nas redes sociais", completou Thiaw, sinalizando um grupo que quer eliminar ruídos externos antes da estreia.

Como apurado em matéria do SportNavo, o grupo senegalês realizou atividade tática fechada na manhã desta segunda antes da coletiva, reforçando a impressão de que Thiaw quer manter o máximo de informação longe dos adversários. A França de Didier Deschamps, por sua vez, chega como favorita ao grupo — mas favorita com memória. Em 2002, também era favorita. O apito inicial desta terça, às 16h no MetLife Stadium, vai revelar qual das duas histórias pesa mais no primeiro duelo do Grupo I da Copa do Mundo. Em 17 de junho, quando os outros grupos já tiverem rodado e a tabela começar a tomar forma, saberemos se a bronca senegalesa virou resultado ou ficou apenas no vestiário.