A última vez que uma seleção do Oriente Médio chegou a uma Copa do Mundo carregando o peso de um conflito armado ativo foi em 1986, quando o próprio Copa do Mundo no México recebeu o Iraque — país que havia iniciado a guerra contra o Irã seis anos antes. Naquele torneio, a seleção iraquiana perdeu os três jogos na fase de grupos e voltou para casa sem pontuar. Quarenta anos depois, a história se repete com uma ironia perturbadora: os dois países voltam ao México, agora como adversários geopolíticos dentro de um conflito ainda mais amplo, e o futebol tenta, mais uma vez, se fingir de neutro.
Vistos negados e uma base improvisada em Tijuana
O Irã chegou à Copa de 2026 após meses de incerteza que beiraram o cancelamento total da participação. O governo dos Estados Unidos negou vistos a parte da comissão técnica iraniana, incluindo o próprio presidente da Federação Iraniana de Futebol (FFIRI), Mehdi Taj. A solução encontrada foi transferir a base de preparação — antes programada para Tucson, no Arizona — para Tijuana, no México, cidade que fica literalmente do outro lado da fronteira com os EUA. Taj conduziu boa parte das operações administrativas de lá, sem poder pisar em solo americano.
Já a delegação técnica cruzou para os Estados Unidos na véspera do jogo de estreia.
A Federação Iraniana foi ao ataque antes mesmo da bola rolar. Em nota formal endereçada à Fifa, cobrou que a entidade garantisse o respeito aos símbolos nacionais do país durante o torneio.
"A Fifa é responsável, segundo os protocolos. A bandeira oficial de um país deve estar presente no estádio", declarou Taj à agência AFP.O comunicado tinha um alvo claro: os grupos de oposição ao regime dos aiatolás, organizados sobretudo em Los Angeles — cidade que abriga a maior comunidade de exilados iranianos do mundo e palco da estreia iraniana contra a Nova Zelândia, nesta segunda-feira, 15 de junho.
A bandeira do leão e do sol nas arquibancadas de Los Angeles
Centenas de manifestantes se reuniram nos arredores do estádio horas antes do apito inicial. Carregavam a bandeira do leão e do sol, símbolo nacional iraniano até a Revolução Islâmica de 1979 — exatamente o item proibido pela Fifa dentro das arenas da competição, por ser interpretado como manifestação política. Mesmo assim, parte dos torcedores conseguiu entrar com as bandeiras.
O regulamento da Fifa proíbe manifestações políticas, mas a aplicação variável dessa norma ao longo dos anos gera um terreno pantanoso. Na Copa do Catar em 2022, cenas semelhantes ocorreram com torcedores iranianos que vaiaram o hino nacional de seu próprio país durante os jogos — um gesto de protesto contra o regime que reprimia manifestações nas ruas de Teerã. O padrão se repete, agora em solo americano, com uma intensidade ainda maior diante do contexto bélico.
O que para o torcedor argentino seria impensável — entrar num estádio com uma bandeira proibida para protestar contra seu próprio governo — para o iraniano exilado é um ato de resistência quase sagrado. A arquibancada como último espaço de voz.
Graham Arnold e a missão impossível de isolar 46 milhões de pessoas
Se o Irã enfrenta a pressão vinda de fora, o Iraque lida com ela dentro do próprio vestiário. O técnico australiano Graham Arnold, de 62 anos, assumiu uma função que vai muito além da prancheta tática: proteger mentalmente os jogadores das notícias que chegam de Bagdá. A maior parte do elenco viajou de carro até a Jordânia antes de embarcar para o México — uma jornada de três dias que, por si só, já exigiria recuperação física e emocional.
"Uma parte significativa do meu trabalho tem se concentrado no aspecto mental. Os jogadores precisam se concentrar em si mesmos, pensar em suas famílias e em alguns amigos próximos, em vez de pensar no país inteiro. Caso contrário, a pressão se torna insuportável", disse Arnold em coletiva de imprensa.
A estratégia de Arnold lembra, em certa medida, o que Guus Hiddink fez com a Coreia do Sul em 2002 ou o que Sven-Göran Eriksson tentou construir com a Inglaterra — a ideia de criar uma bolha protetora ao redor do grupo, um ambiente onde o mundo exterior perde temporariamente sua força. A diferença é que Hiddink lidava com pressão de expectativa, não de guerra.
"Há tanta coisa acontecendo no Oriente Médio; se eles pensarem muito nisso, vai afetá-los psicologicamente. Eles sabem o que precisam fazer pelo país. Estes últimos 20 dias foram muito difíceis para eles, mas agora estão calmos", completou o treinador.
O efeito cascata que o futebol ainda não sabe calcular
O impacto geopolítico na Copa de 2026 não se limita a questões logísticas ou simbólicas. Existe um efeito cascata que começa na preparação, passa pelo rendimento em campo e pode chegar às decisões da própria Fifa sobre o futuro do torneio em territórios politicamente sensíveis. O ministro do Esporte do Irã, Ahmad Donyamali, sinalizou que o governo iraniano monitorará o comportamento do público e não descartou medidas rígidas caso ocorram atos considerados hostis — o que cria uma tensão adicional sobre os próprios jogadores, que sabem que cada gesto na arquibancada pode ter repercussão política em Teerã.
No campo, o Irã enfrenta ainda a Bélgica — novamente em Los Angeles — e o Egito, em Seattle, pela fase de grupos. O Iraque, por sua vez, integra o Grupo I ao lado de França, Senegal e Noruega, adversários que não chegam carregando o peso de uma guerra, mas que terão diante de si uma equipe que, para chegar até ali, percorreu literalmente centenas de quilômetros de carro através de zonas de conflito. Arnold disse que representar 46 milhões de pessoas é uma experiência única. O que ele não disse, mas fica implícito, é que nunca na história moderna do futebol tantos desses 46 milhões dependeram tanto de uma vitória num campo de grama para enxergar, por 90 minutos, algo diferente da guerra.








