Cinquenta e seis anos de Copa do Mundo separam Roberto Rivellino do jovem meia que driblava marcadores no Jalisco — e, mesmo assim, as perguntas que ele faz hoje são as mais simples e as mais urgentes: quem joga? como joga? O paradoxo de 2026 é justamente esse: a Seleção Brasileira entra na reta final da preparação para a Copa do Mundo com um técnico de altíssimo currículo — quatro títulos da Champions League —, mas sem um time titular definido, sem uma identidade coletiva consolidada e sem resposta para as questões que um homem de 73 anos, campeão em 1970, está fazendo em entrevista nacional.

O alerta que vem de quem sabe o que é ser campeão

Rivellino carrega um peso histórico incontestável. Na Copa de 1970, o Brasil de Zagallo encerrou o torneio com seis vitórias em seis jogos, 19 gols marcados e apenas sete sofridos — aproveitamento de 100% e média ofensiva de 3,16 por partida. Aquela equipe tinha identidade antes de embarcar para o México: o 4-2-4 fluido de Pelé, Tostão, Jairzinho e Rivellino era reconhecível desde os primeiros minutos de qualquer jogo. Em entrevista exclusiva à CNN Brasil, o ex-meia foi direto ao ponto ao avaliar o cenário atual:

Verona - Como
"Estamos há 20 e poucos dias para iniciar uma Copa do Mundo. Qual é esse time? Como vai jogar? O que vai acontecer? Isso me preocupa."

A frase ecoa com precisão histórica. Nas quatro conquistas mundiais do Brasil — 1958, 1962, 1970 e 1994 —, o esquema tático e os titulares estavam razoavelmente consolidados ao menos 45 dias antes da estreia. Em 1994, Carlos Alberto Parreira tinha Taffarel, Aldair, Márcio Santos, Mazinho, Mauro Silva, Mazinho, Bebeto e Romário como peças fixas antes mesmo da última rodada de amistosos. A indefinição que Rivellino critica não é novidade histórica, mas raramente chegou tão perto do torneio.

A métrica que Ancelotti ainda não fechou no laboratório tático

A ausência de identidade não é apenas impressão subjetiva — tem respaldo em dados. Nos três amistosos de preparação disputados sob o comando de Carlo Ancelotti, o Brasil registrou um PPDA médio (passes permitidos por ação defensiva, indicador de intensidade da pressão) acima de 11, o que, para leigos, significa que a equipe praticamente não pressiona o adversário na saída de bola — um time com alta intensidade defensiva ficaria abaixo de 8. O último amistoso, a vitória sobre a Croácia, trouxe sinais pontuais de melhora, mas Ancelotti ainda não rodou com a mesma formação inicial em dois jogos consecutivos sequer. Cinco diferentes duplas de volantes foram testadas desde a estreia do treinador italiano no cargo, em março de 2025.

O alerta que vem de quem sabe o que é ser campeão Rivellino alerta para o vazio
O alerta que vem de quem sabe o que é ser campeão Rivellino alerta para o vazio

Ancelotti fará sua primeira convocação oficial visando o Mundial nas próximas semanas, e a lista carrega um peso adicional: definir não apenas nomes, mas a hierarquia de um elenco que mistura veteranos como Neymar — cuja presença na Copa ainda gera interrogações — e jovens como Endrick e Raphinha, que vivem fases distintas de forma e confiança.

Neymar, o último de uma linhagem que Rivellino conhece de dentro

A questão do camisa 10 permeia toda a análise de Rivellino com uma mistura de admiração técnica e ceticismo prático. O ex-meia foi categórico ao situar Neymar dentro da linha histórica de craques brasileiros:

"Claro que existe uma pergunta que todo mundo faz: 'E o Neymar?'. Porque ele realmente é diferenciado. Eu acredito que foi o último jogador diferenciado que apareceu."

O argumento tem sustentação nos números de Copa. Neymar marcou seis gols no Mundial de 2014 — foi artilheiro do Brasil e terminou o torneio antes da semifinal por lesão —, e dois gols em 2022, quando a Seleção caiu para a Croácia nas quartas de final nos pênaltis. Pelé fez 12 gols em quatro Copas; Ronaldo Fenômeno, 15 em quatro edições. Neymar, com oito no total, está matematicamente no caminho para ser o maior artilheiro brasileiro em Mundiais se disputar 2026 em boas condições. O problema, como Rivellino reconheceu, é justamente esse condicional: Neymar não deu sinais públicos claros de foco total no retorno, e a falta de declarações nesse sentido alimenta a incerteza.

Ancelotti tem competência — e Rivellino sabe disso

A crítica de Rivellino não é à pessoa de Ancelotti. O ex-jogador foi claro ao separar a preocupação estrutural da avaliação individual do técnico, encerrando sua análise com uma afirmação que, paradoxalmente, aumenta a pressão sobre o italiano:

A métrica que Ancelotti ainda não fechou no laboratório tático Rivellino alerta
A métrica que Ancelotti ainda não fechou no laboratório tático Rivellino alerta
"Tem uma pessoa competente lá. Muito competente. Se deve convocar o Neymar ou não, quem vai decidir é ele. E a gente tem que respeitar."

Ancelotti assumiu a Seleção em janeiro de 2025 após uma negociação que durou meses e gerou polêmica com o Real Madrid. Desde então, disputou oito partidas à frente da equipe nacional, com cinco vitórias, dois empates e uma derrota — aproveitamento de 70,8%. O número não é ruim, mas Copa do Mundo exige consistência tática, não apenas resultados pontuais em amistosos. A convocação oficial, prevista para os próximos dias, será o primeiro grande teste de comunicação do treinador com o país. O Brasil estreia no Mundial em 15 de junho, contra o México, no SoFi Stadium, em Los Angeles — e Rivellino já deixou claro que o tempo para dúvidas acabou.