O que um homem de 77 anos que já gritou 'Whole Lotta Love' para 100 mil pessoas resolve fazer num palco íntimo em 2026? A resposta está no Vivo Rio nesta quinta-feira, 21 de maio, a partir das 21h05, quando Robert Plant sobe ao palco com a Saving Grace e Suzi Dian para a segunda das três datas brasileiras da turnê Rugido de Outono.

Não é uma nostalgia passiva. Desde que o projeto Saving Grace ganhou forma pouco antes da pandemia, Plant construiu um repertório deliberadamente avesso ao espetáculo clássico de arena. O álbum homônimo, lançado em 2025 e gravado em celeiros e espaços abertos, é a espinha dorsal da turnê — mas os últimos shows nos Estados Unidos mostraram que o inglês não abriu mão de surpreender. No dia 4 de maio, na Metropolitan Opera House da Filadélfia, ele tocou "Going to California" pela primeira vez em sete anos, repetindo o feito dois dias depois no Red Bank, em Nova Jersey.

O que o setlist dos shows americanos revela sobre a noite no Rio

Nos registros mais recentes da turnê compilados pelo Setlist.fm, a abertura com "Escalay (Water Wheel)" — composição de Hamza El Din — virou marca registrada. A faixa instrumental de oud e percussão cria uma atmosfera de ritual antes de qualquer palavra ser cantada. Depois vêm "The Very Day I'm Gone" e "The Cuckoo", ambas enraizadas na tradição folk norte-americana, antes de Plant chegar em "Higher Rock" e, logo em seguida, em "Ramble On", do Led Zeppelin II de 1969.

O mapeamento dos setlists recentes também aponta para "The Rain Song" e "Four Sticks" como presenças frequentes — a primeira do Houses of the Holy (1973), a segunda do Led Zeppelin IV (1971). São escolhas que escapam do óbvio: Plant não vai tocar "Stairway to Heaven" nem "Whole Lotta Love". O que ele oferece é o repertório de um músico que escolheu o que quer cantar, não o que o público exige.

Entre as pérolas menos óbvias, "It's a Beautiful Day Today", do Moby Grape, e "Orphan Girl", de Gillian Welch, aparecem consistentemente. A lista inclui ainda covers de Blind Willie Johnson e de duplas cult como o Low — um alcance estético que vai do gospel dos anos 1930 ao indie rock dos anos 1990 sem perder coerência.

A Saving Grace e o que mudou desde o Led Zeppelin dos anos 70

Quando o São Paulo recebia os primeiros grandes shows de rock no Brasil nos anos 1980, Robert Plant ainda estava no auge da fase solo pós-Zeppelin, vendendo arenas com Pictures at Eleven e The Principle of Moments. Quarenta anos depois, o contexto é radicalmente diferente: a Saving Grace é uma banda de câmara, com arranjos que priorizam vozes, violão, bandolim e percussão sutil. Suzi Dian divide os vocais com Plant em harmonias que lembram a tradição do Appalachian folk mais do que qualquer coisa gravada no estúdio da Atlantic Records.

"O projeto Saving Grace nasceu de forma despretensiosa, quando Plant começou a explorar com mais liberdade um repertório íntimo e pouco conhecido, guiado por influências profundas do folk, blues, gospel e country norte-americanos", descreveu a Billboard Brasil ao anunciar a turnê.

Desde 2019 na estrada percorrendo Europa e Estados Unidos, a banda chegou ao primeiro álbum de estúdio apenas em 2025 — seis anos de shows ao vivo antes de um disco. Essa inversão da lógica comercial tradicional diz muito sobre o que Plant quer com esse projeto.

Porto Alegre, Rio e o C6 Fest completam a passagem pelo Brasil

A rota brasileira começou em 19 de maio, em Porto Alegre. Depois do Vivo Rio nesta quinta, Plant segue para São Paulo, onde se apresenta no C6 Fest no Parque do Ibirapuera em 24 de maio — com ingressos esgotados. Para quem ainda não tem ingresso para o Rio, os preços no Vivo Rio variam de R$ 200 (meia-entrada, Plateia Setor 3) a R$ 980 (inteira, Camarote A ou Plateia Premium).

"Músicas de Martha Scanlan, Sarah Siskind e Neil Young aparecem em leituras que preservam o espírito original, mas ganham outra dimensão na interpretação da banda", registrou a Billboard Brasil sobre o repertório da turnê.

O show no Vivo Rio começa às 21h05, com portas abertas às 19h. A duração média dos últimos concertos ficou em torno de uma hora e quarenta minutos — tempo suficiente para Plant atravessar o oceano de influências que moldou sua carreira de mais de cinco décadas, sem precisar gritar uma única nota.