O calor de Miami já bate pesado desde o meio da tarde. No Hard Rock Stadium, as arquibancadas começam a se pintar de amarelo e de azul escuro quando, nos vestiários, dois atletas de mundos opostos fazem os últimos ajustes antes do apito inicial. Vinicius Junior — explosivo, imprevisível, o pesadelo de qualquer lateral do planeta. Andy Robertson — experiente, agressivo, quase 400 jogos pelo Liverpool e um capitão que nunca recua. Nesta quarta-feira (24), às 19h de Brasília, eles se encontram pela última rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026. E o que acontecer nesse duelo individual pode definir não apenas o resultado do jogo, mas o caminho inteiro da Seleção Brasileira no torneio.
O que Robertson pode fazer que nenhum lateral fez antes contra Vinicius
A pergunta que domina as conversas nos bastidores do torneio é direta: Andy Robertson é capaz de apagar Vinicius Junior? O jornalista inglês Hill Lopez-Menchero, do The Athletic — braço esportivo do New York Times — acredita que sim, ou pelo menos que a Escócia tem como frustrar o Brasil.
"A Escócia vai surpreender ao empatar ou até vencer o Brasil. 'Vinicius Junior contra Nathan Patterson?', vocês podem perguntar. Mesmo assim, acredito que os escoceses têm meios para frustrar os 'galácticos' de Carlo Ancelotti", escreveu Lopez-Menchero.
O palpite ousado não é unanimidade, mas tampouco é delírio. Robertson não é apenas um lateral com quilometragem — é um jogador capaz de organizar defensivamente uma linha inteira. Segundo o repórter Alê Oliveira, correspondente do Esporte Record nos Estados Unidos, a Escócia aposta na disciplina tática do camisa 3 do Liverpool como peça central para conter o ataque brasileiro. A equipe do técnico Steve Clarke é organizada, física, e cresce em bolas paradas — exatamente o tipo de jogo que tira Vinicius do ritmo.
O histórico entre os países, porém, pesa contra a Escócia. Em dez partidas, a seleção escocesa jamais venceu o Brasil. São oito vitórias brasileiras e dois empates. Em Copas do Mundo, o placar é ainda mais eloquente: três triunfos do Brasil e apenas uma igualdade. O encontro mais recente aconteceu em 1998, na França — e a Escócia ficou fora do Mundial por 28 anos antes de chegar à Copa de 2026.
O que o Brasil precisa e o que arrisca perder em Miami
Decidiu. A matemática do Grupo C é simples para o lado brasileiro: uma vitória confirma a liderança. Um empate pode bastar, dependendo do que acontecer entre Marrocos e Haiti. Mas até uma derrota por um gol de diferença ainda classifica o Brasil — nesse cenário, a Seleção fecharia a primeira fase com quatro pontos e saldo de gols de +2, avançando como um dos melhores terceiros colocados.
O Brasil chegou a esse ponto com uma campanha irregular. Empate por 1 a 1 com Marrocos na estreia, vitória por 3 a 0 sobre o Haiti na segunda rodada. São quatro pontos que posicionam a equipe de Carlo Ancelotti na liderança do Grupo C, mas sem a autoridade que o elenco permite imaginar. A Escócia aparece na terceira colocação, com três pontos, após vencer o Haiti por 1 a 0 e perder para Marrocos pelo mesmo placar.
Do lado de cá das chuteiras, Alisson Becker — 33 anos, titular absoluto da Seleção e um dos goleiros mais respeitados do mundo — já viveu essa pressão antes. Em entrevista ao programa Globo Esporte, o gaúcho brincou com sua própria trajetória e deixou escapar uma frase que resume o momento:
"É melhor um frango numa janta, no almoço, do que no gramado", disse Alisson, revisitando os primeiros anos de carreira com leveza — mas a mensagem para o grupo é clara.
A concentração no vestiário é o que separa classificações de surpresas. E a Escócia tem nome suficiente para causar uma.
O hino que não é hino e uma seleção que não tem nada a perder
Tem um detalhe que poucos percebem antes de um jogo da Escócia: quando o estádio ecoa o que parece ser o hino nacional escocês, tecnicamente não é. Flowers of Scotland, a música que a torcida canta com fervor desde 1993 e que foi adotada oficialmente pela federação escocesa em 1997, não é o hino oficial do país. Em 2015, o Parlamento Escocês avaliou sua adoção, mas rejeitou a proposta. O hino oficial seguiria sendo God Save The King — o mesmo da Inglaterra, nação com quem a Escócia divide o Reino Unido e com quem tem uma rivalidade histórica de séculos.
A letra de Flowers of Scotland celebra a vitória de Roberto I sobre o exército inglês na Primeira Guerra de Independência. É uma música de resistência. E talvez seja exatamente esse o espírito com que a Escócia entra em campo nesta quarta-feira: uma nação que voltou ao Mundial depois de 28 anos de ausência, com Robertson como capitão e símbolo, e que não tem absolutamente nada a perder diante do Brasil.
Em matéria do SportNavo, o duelo entre Robertson e Vinicius Jr. foi apontado como o confronto mais decisivo da rodada para o futuro da Seleção no torneio. Se o lateral do Liverpool conseguir neutralizar o camisa 7 brasileiro, a Escócia terá condições reais de arrancar pelo menos um empate. Se Vinicius escapar — como faz com frequência perturbadora — o Brasil pode selar a liderança do grupo antes do intervalo. A bola rola às 19h, no Hard Rock Stadium, em Miami. Robertson tem 32 anos e esta pode ser sua única Copa do Mundo.








