8 assistências em 2026. Esse número é o coração de uma história que começa com vaias e termina, ao menos por ora, com o atacante Samuel Lino sendo o jogador mais decisivo do Flamengo na função de criação nesta temporada. Nenhum outro jogador rubro-negro chega perto: Pedro, Bruno Henrique e Carrascal dividem a vice-liderança com apenas 4 passes para gol cada. Lino tem o dobro. E é justamente com esse homem em forma que o Flamengo entra em campo neste domingo, 3 de maio, às 16h, no Maracanã, para enfrentar o Vasco pela 5ª rodada do Brasileirão.

O diagnóstico do momento

Quem acompanhou o Flamengo de 2025 sabe que Samuel Lino não chegou a este ponto por acaso. O atacante foi alvo recorrente das vaias da torcida rubro-negra no ano passado, quando terminou a temporada com apenas 5 assistências — número modesto para um jogador do seu perfil. A virada de chave em 2026 foi tão expressiva que já na primeira metade do campeonato ele superou toda a produção do ano anterior. Nas duas assistências contra o Atlético-MG na goleada por 4 a 0, Lino sintetizou o que mudou: precisão no último passe, posicionamento mais inteligente e, sobretudo, confiança reestabelecida. Ao longo da temporada, distribuiu assistências também contra o Fluminense (duas vezes), o Cruzeiro, o Madureira e o Sampaio Corrêa (duas vezes, no Estadual). Em gols, igualou os 4 de 2025, com tentos marcados contra Remo e Botafogo no Brasileirão, além de Madureira e Sampaio Corrêa no torneio estadual.

Do lado do Vasco, o cenário é de quem carrega um peso histórico difícil de ignorar. A última vitória cruz-maltina sobre o Flamengo no Brasileirão foi em 27 de setembro de 2015, quando Rodrigo e Nenê viraram sobre Emerson Sheik e fecharam 2 a 1. Desde então, são 14 confrontos pela competição nacional: sete vitórias do Flamengo e sete empates. Nenhuma derrota rubro-negra. Conforme levantamento do SportNavo, nenhuma outra sequência de invencibilidade entre rivais diretos no Brasileirão dura tanto tempo sem ao menos uma vitória do lado oposto.

Os fatores que explicam o quadro

A recuperação de Lino não é fenômeno isolado. O próprio atacante atribuiu parte da transformação à chegada do técnico Leonardo Jardim, o português que assumiu o comando rubro-negro em 2026 e alterou o estilo de jogo do elenco.

"Estou feliz. Acho que isso é o mais importante. Me sinto bem confiante, me sinto forte. O treinador também me passa uma confiança gigantesca, uma forma diferente de jogar. E eu acho que nessa forma de jogar estou me sentindo bem", disse Samuel Lino após a goleada sobre o Atlético-MG.

A metodologia de Jardim parece funcionar como o trabalho de um maestro que reduz a partitura ao essencial — sem sobrecarregar os músicos com notas que não precisam estar ali. Lino descreveu exatamente isso ao falar sobre o dia a dia nos treinos.

"As informações que ele passa para a gente são bem simples. Ele não gosta de encher nossa cabeça com informações. A gente tenta trabalhar nas vulnerabilidades dos adversários. A união do grupo, a conexão que a gente tem entre os jogadores e tudo que o Leonardo veio trazendo com a sua experiência vieram ajudando muito mais o nosso pré-jogo para deixar as coisas mais simples e leves", completou o atacante.

A simplicidade como método não é novidade no futebol de alto nível, mas funciona de maneira específica com jogadores que sofreram desgaste psicológico. Lino era um desses casos. Vaiado. Desacreditado por parte da torcida. Decidiu.

O Flamengo chega ao clássico com desfalques pesados: Arrascaeta fraturou a clavícula direita e passou por cirurgia; Lucas Paquetá e Erick Pulgar seguem no departamento médico; Carrascal cumpre suspensão. Quatro peças de criação fora ao mesmo tempo. É nesse vácuo que a produção de Lino ganha dimensão ainda maior — ele deixou de ser coadjuvante e passou a ser o principal articulador ofensivo disponível.

O diagnóstico do momento Samuel Lino virou o garçom que o Flameng
O diagnóstico do momento Samuel Lino virou o garçom que o Flameng

Os cenários possíveis daqui

A análise do SportNavo sobre os confrontos entre os dois clubes no Brasileirão revela um padrão claro nos últimos anos: quando o Flamengo tem ao menos um jogador em forma de criação, a sequência invicta se sustenta. Em 2019, Bruno Henrique, Gabigol e Arrascaeta protagonizaram a vitória por 4 a 1. Em 2023, Erick Pulgar e Gerson fizeram o mesmo placar se repetir. Em 2024, a maior goleada da série — 6 a 1 — teve Everton Cebolinha, Pedro, David Luiz, Arrascaeta, Bruno Henrique e Gabigol na lista de gols. Nos dois confrontos de 2025, ambos empatados (0 a 0 e 1 a 1), o Flamengo estava menos criativo. A correlação não é determinismo, mas é sugestiva.

Com Lino em alta, Bruno Henrique confirmado mesmo após trauma na perna direita e a expectativa pelo retorno de Royal e Léo Pereira — o lateral aguarda máscara protetora para a fratura no nariz, o zagueiro passa por reavaliação de um corte na perna —, Jardim tenta montar o melhor time possível para defender 11 anos de invencibilidade. O Vasco, por sua vez, sabe que derrubar essa sequência no Maracanã exigirá mais do que motivação: precisará de eficiência contra uma equipe que, mesmo incompleta, tem no seu garçom mais produtivo da temporada o argumento mais concreto para seguir invicta.