17 de maio de 2026. O Barcelona vencia o Celta Vigo quando Lamine Yamal saiu de campo segurando a coxa esquerda. Naquele momento, a notícia parecia localizada, um susto de fim de temporada. Dez dias depois, a dimensão do problema ficou clara: lesão no tendão, tratamento conservador, e o maior talento da Espanha transformado em interrogação às vésperas da Copa do Mundo.
Luis de la Fuente foi direto na coletiva desta quarta-feira (4):
"Nem Lamine, nem Nico, nem Víctor jogarão amanhã. Estamos confiantes de que Lamine estará pronto até o dia 15, mas não sei ao certo."A frase resume o estado de espírito da seleção espanhola — confiança controlada, incerteza real. O amistoso contra o Iraque desta quinta-feira será o último ensaio antes da estreia contra Cabo Verde, em Atlanta, e Yamal não pisará no gramado.

O vestiário espanhol enfrenta o pior acúmulo de lesões desde a Copa de 2002
A lista de baixas é extensa e vai além de Yamal. Fermín López fraturou o quinto metatarso do pé direito no dia 17 de maio, durante a vitória do Barcelona por 3 a 1 sobre o Real Betis — está fora do torneio. Dani Vivian e Ander Barrenetxea também tiveram lesões confirmadas e não viajam para os Estados Unidos. Nico Williams, parceiro de Yamal na ala esquerda durante a conquista da Eurocopa 2024, segue em observação. Rodri e Ferran Torres completam o quadro preocupante. A La Liga encerrou a temporada 2025/2026 com cerca de 50 jogadores afastados por contusões — e a Fúria pagou um preço desproporcional.
Para encontrar um paralelo histórico de magnitude semelhante, é preciso voltar à Copa do Mundo de 2002, no Japão e na Coreia do Sul. Naquele torneio, a Espanha perdeu Raúl González para problemas físicos no decorrer da competição e viu sua campanha desmoronar nas quartas de final contra a Coreia do Sul, em circunstâncias polêmicas. A diferença estrutural é relevante: a seleção de 2002 dependia de um único jogador de exceção; a de 2026 foi construída sobre um coletivo — mas Yamal e Williams não são peças intercambiáveis, são o sistema.
O esquema de De la Fuente sem as duas joias da ala esquerda
A Espanha de Luis de la Fuente joga num 4-3-3 que na prática se transforma num 4-2-3-1 com bola. Yamal opera pela direita, Williams pela esquerda, e os dois criam superioridades numéricas nas faixas com uma combinação de velocidade e drible que lembrou, durante a Eurocopa 2024, a dupla Figo-Luís Enrique do Barcelona dos anos 90 — dois jogadores capazes de resolver sozinhos em espaços reduzidos. Sem os dois simultaneamente, De la Fuente perde o que os analistas europeus chamam de asymmetric pressure: a capacidade de atacar com perigo pelos dois lados ao mesmo tempo.
As alternativas existem, mas nenhuma replica a intensidade do duo titular. Dani Olmo, que atua pelo RB Leipzig e foi peça importante na Euro, pode assumir a função de Yamal pela direita com perfil mais de meia do que de ponta. Bryan Gil, do Tottenham, é outra opção com característica mais vertical. Pela esquerda, a ausência de Williams abre espaço para Yeremy Pino ou para o próprio Olmo reposicionado. O problema não é a qualidade individual dos substitutos — é a perda de automatismos construídos ao longo de dois anos de trabalho conjunto.
Historicamente, as grandes seleções europeias que chegaram a Copas do Mundo com peças ausentes precisaram de tempo para se reajustar. A Alemanha de 1990, que venceu o torneio, perdeu Rudi Völler nas primeiras rodadas e encontrou em Jürgen Klinsmann o substituto natural. A França de 1998 jogou a maior parte do torneio sem Zinedine Zidane — suspenso após expulsão na fase de grupos — e sobreviveu até a final justamente pela profundidade do elenco. A Espanha de 2026 tem essa profundidade no meio-campo; nas pontas, a margem é menor.
Cabo Verde não é adversário para subestimar e o contexto tático importa
A estreia em Atlanta no dia 15 de junho é contra Cabo Verde — seleção que se classificou pela primeira vez para uma Copa do Mundo e que joga num bloco baixo compacto, explorando transições rápidas pelo contra-ataque. O modelo de jogo cabo-verdiano, treinado pelo português Bubista, exige exatamente o que a Espanha faz melhor: paciência posicional, circulação de bola e infiltrações nas costas da linha defensiva. Sem Yamal para acelerar as transições pela direita, a Fúria pode ter mais dificuldade para abrir espaços contra uma defesa organizada.
A Chave H coloca ainda Uruguai e Arábia Saudita como adversários subsequentes — o jogo contra os uruguaios, em 26 de junho em Guadalajara, no México, é o que realmente preocupa a comissão técnica espanhola. De la Fuente sabe que pode administrar a ausência de Yamal contra Cabo Verde; contra o Uruguai de Marcelo Bielsa, a história muda de figura. Por isso a estratégia de tratamento conservador faz sentido: preservar Yamal para os jogos decisivos, mesmo que isso signifique abrir mão dele na estreia.
"Se as coisas continuarem assim, ele poderá estar pronto até lá, mas isso não garante que ele jogará. Avaliaremos a situação conforme ela se desenrolar", completou De la Fuente.
A frase do técnico carrega uma pedagogia tática implícita: a Espanha não vai arriscar uma recaída de Yamal por um jogo que, no papel, deveria ser administrável mesmo com um elenco alternativo. Os 18 anos do atacante — que marcou 16 gols em 28 partidas de La Liga nesta temporada e soma seis gols em 25 jogos pela seleção principal — são um argumento para a cautela, não para a pressa. Uma lesão mal gerenciada agora pode custar muito mais do que uma vitória apertada contra Cabo Verde.
A Espanha é o segundo colocado no ranking masculino da Fifa e chega ao torneio como uma das favoritas ao título. A campanha na Eurocopa 2024, conquistada com Yamal aos 16 anos como protagonista, criou expectativas que colocam qualquer tropeço na fase de grupos sob holofotes desproporcionais. O teste real começa em 26 de junho, em Guadalajara. Até lá, De la Fuente tem dez dias para decidir se Yamal joga contra Cabo Verde ou se estreia diretamente contra o Uruguai.









