A Lucasfilm esperou sete anos para colocar Star Wars de volta nas salas de cinema — e entregou algo que a crítica especializada já está chamando, sem cerimônia, de esquecível. O Mandaloriano e Grogu, dirigido por Jon Favreau, estreia nesta quinta-feira, 21 de maio de 2026, nos cinemas brasileiros, carregando o peso de um hiato longo e a expectativa de um público que, a julgar pela recepção prévia, ainda não decidiu se quer comprar o ingresso.

O contexto é conhecido: o último filme da franquia, A Ascensão Skywalker (2019), encerrou a trilogia Skywalker dividindo fãs com uma profundidade rara de dissonância. Desde então, a Lucasfilm apostou no streaming — e a série The Mandalorian, lançada ainda em novembro de 2019 no Disney+, tornou-se o principal ativo emocional da marca, construindo em Pedro Pascal e no personagem Grogu uma dupla com apelo genuíno. O problema é que esse apelo foi construído inteiramente fora das salas de cinema.

O filme que ocupa o lugar da quarta temporada

A estrutura narrativa de O Mandaloriano e Grogu é o primeiro sinal de alerta. O longa se passa diretamente após os eventos das três temporadas da série e, segundo análises publicadas pela Rolling Stone Brasil, funciona de forma independente para quem nunca assistiu ao streaming — mas isso não resolve o problema estrutural: o filme ocupa exatamente o espaço narrativo onde estaria uma quarta temporada da série. A sensação, descrita por críticos, é de televisão com orçamento ampliado, não de evento cinematográfico.

A trama central envolve Din Djarin e Grogu recebendo uma missão da coronel Ward, vivida por Sigourney Weaver em sua estreia no universo Star Wars, para resgatar Rotta the Hutt — filho de Jabba —, interpretado por Jeremy Allen White. A missão serve de pretexto para uma jornada que persegue remanescentes do Império Galáctico, território narrativo que a franquia já explorou à exaustão nas últimas temporadas da série. Há também a participação de Martin Scorsese no elenco, dado que gerou curiosidade, mas não empolgação proporcional.

"O Mandaloriano e Grogu não tem a" — a frase do crítico da Rolling Stone Brasil ficou suspensa, mas o ponto estava feito antes do ponto final.

O arco emocional já foi jogado — e o placar não favorece o filme

Quem acompanhou as três temporadas da série sabe que a relação entre Din Djarin e Grogu passou por seus momentos de maior intensidade dramática: separação, reencontro, consolidação de um vínculo de pai e filho. Esse arco foi concluído. Transportar esses personagens para o cinema sem um novo conflito emocional de mesma magnitude é como tentar encaixar um levantamento de tempo em uma rotação defensiva que já fechou o bloco — a bola não passa, mas também não há ponto ganho.

A terceira temporada da série, exibida em 2023, já havia apresentado queda de recepção crítica e reação menos calorosa do público. Segundo análise publicada pelo portal Tangerina/UOL, esse desgaste reduz o impacto da transição para o cinema, que normalmente exigiria um ponto alto de momentum narrativo. Chegar às salas após uma temporada de debate interno é o equivalente a entrar em um set decisivo com eficiência de bloqueio abaixo de 30% — os números não sustentam a confiança.

"O Mandaloriano e Grogu soa mais como uma extensão confortável do que como uma reinvenção da franquia", avaliou o portal Tangerina/UOL em análise publicada antes da estreia.

Sete anos de ausência e a Lucasfilm ainda não encontrou o saque viagem

A estratégia da Lucasfilm para este retorno foi clara: posicionar o filme como acessível tanto para fãs antigos quanto para novos espectadores, apostando nos personagens mais populares do período pós-trilogia. O Estadão confirmou que o longa fornece contexto suficiente para funcionar de forma independente. Mas acessibilidade não é o mesmo que relevância — e é exatamente essa distinção que a crítica está cobrando.

O filme que ocupa o lugar da quarta temporada Sete anos de espera e Star Wars vo
O filme que ocupa o lugar da quarta temporada Sete anos de espera e Star Wars vo

Num esporte, a diferença entre um saque flutuante e um saque viagem não está na dificuldade técnica de execução, mas no risco calculado e no impacto sobre o adversário. A Lucasfilm optou pelo flutuante: seguro, previsível, difícil de errar. O problema é que, depois de sete anos de ausência nas salas, o público esperava pelo viagem — aquele que desequilibra a recepção e muda o placar do set antes que o bloqueio adversário se organize.

A equipe de produção conta com Dave Filoni e Kathleen Kennedy como produtores ao lado de Favreau, o que garante coerência com o universo estabelecido. Mas coerência, neste caso, é exatamente o problema: o filme é coerente demais com a série, quando deveria ser uma ruptura. O personagem Garazeb "Zeb" Orrelios, anunciado na Star Wars Celebration Japão 2025, aparece como aceno aos fãs mais fiéis — um recurso de serviço ao fã que raramente converte espectadores novos em público cativo.

O Mandaloriano e Grogu estreia hoje nos cinemas brasileiros. A Lucasfilm terá os números de bilheteria do primeiro fim de semana até domingo, 24 de maio — e eles vão dizer, com precisão de estatística de set, se a estratégia do retorno seguro funcionou ou se o público cobrou o risco que a franquia se recusou a correr.