Confesso: em 2010, quando ouvi pela primeira vez Waka Waka (This Time for Africa) antes da Copa da África do Sul, achei exagerada a euforia em torno de uma música de Copa. Parecia marketing da FIFA embalado com batida africana. Errei feio. Nos 16 anos seguintes, aquela faixa acumulou mais de 3,5 bilhões de reproduções no YouTube — tornando-se, por larga margem, a música oficial de Copa do Mundo mais assistida da história. Hoje, quando Shakira anuncia 'Dai Dai' como tema da Copa de 2026, prefiro não repetir o mesmo equívoco de subestimá-la.

A revelação aconteceu nesta quinta-feira, 7 de maio de 2026, quando a colombiana de 49 anos publicou um vídeo no Instagram filmado nas arquibancadas do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro. No clipe de apresentação, ela aparece rodeada de dançarinos vestidos com as cores de várias seleções participantes do torneio — que será disputado de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, México e Canadá. A faixa, que conta com a participação do cantor nigeriano Burna Boy, terá lançamento oficial em 14 de maio.

Três Copas, três momentos e o peso histórico da trilha de Shakira

Nenhum artista popular chegou a uma quarta Copa carregando o mesmo currículo.

Para entender o que está em jogo agora, é preciso voltar ao arquivo. Em junho de 2006, durante a Copa da Alemanha, Shakira se apresentou nas cerimônias do torneio cantando Hips Don't Lie, música que já era um fenômeno global — havia alcançado o número 1 em 55 países no primeiro semestre daquele ano. Naquela edição, a Itália sagrou-se campeã ao bater a França nos pênaltis em Berlim, no dia 9 de julho, e o Brasil caiu nas quartas diante da própria França, 1 a 0, gol de Zidane convertido em pênalti. A presença de Shakira foi coadjuvante; sua música, entretanto, ficou associada àquela Copa na memória coletiva.

Em 2010, na África do Sul, o papel inverteu-se completamente. A FIFA a escolheu para gravar a música oficial, e Waka Waka — baseada no tradicional tema camaronês Zangalewa — tornou-se símbolo daquele torneio tanto quanto a vuvuzela. A Espanha ergueu a taça em Johanesburgo, batendo a Holanda por 1 a 0 na prorrogação, gol de Andrés Iniesta aos 116 minutos. O Brasil, eliminado pela Holanda nas quartas de final por 2 a 1, com Robinho e Felipe Melo, encerrou uma campanha frustrante. A música, porém, sobreviveu ao torneio e segue sendo referência 16 anos depois.

Em 2014, no Brasil, Shakira retornou ao Maracanã para a cerimônia de encerramento, cantando La La La (Brazil 2014) ao lado do rapper Carlinhos Brown. Aquela edição ficou marcada pelo 7 a 1 sofrido pelo Brasil diante da Alemanha, na semifinal em Belo Horizonte, no dia 8 de julho — a maior goleada da história recente da Seleção em Copas. A Alemanha levantou o troféu contra a Argentina, 1 a 0, gol de Götze na prorrogação. La La La, apesar de competente, jamais atingiu o impacto de Waka Waka.

O que 'Dai Dai' enfrenta nas próximas semanas antes do torneio começar

O lançamento em 14 de maio coloca a faixa sob escrutínio global antes mesmo da bola rolar.

A escolha de Burna Boy como parceiro não é aleatória. O nigeriano, vencedor do Grammy de Melhor Álbum de Música Global em 2021 com Twice as Tall, representa a Africa contemporânea no mainstream internacional — exatamente o tipo de colaboração que a FIFA buscou replicar desde o sucesso afro-centrado de 2010. A combinação Shakira-Burna Boy replica, em estrutura, a lógica de 2010: artista latino de apelo global somado a uma voz africana de peso. O mercado de streaming, porém, mudou radicalmente desde então: em 2010, o YouTube tinha quatro anos de existência; hoje, a batalha se dá entre Spotify, Apple Music, TikTok e YouTube simultaneamente.

No vídeo de apresentação divulgado nesta quinta, um detalhe não passou despercebido pelos especialistas: as bolas oficiais das Copas de 2006 (Teamgeist), 2010 (Jabulani) e 2014 (Brazuca) aparecem em cena, numa referência deliberada ao histórico de Shakira no torneio. A cantora, ao que tudo indica, sabe exatamente o capital simbólico que carrega. A gravação no Maracanã — palco da final de 2014 e de dois mundiais (1950 e 2014) — reforça a conexão com a história do futebol.

Aqui no SportNavo, acompanhamos de perto as campanhas musicais das últimas Copas e um padrão se repete: músicas que incorporam sonoridades locais do país-sede ou da região-sede tendem a ter vida mais longa do que aquelas de apelo puramente global. Waka Waka funcionou porque soou africana de verdade; La La La funcionou menos porque soou genericamente latina. A dúvida sobre Dai Dai — que só será respondida em 14 de maio — é se ela encontra esse equilíbrio.

O que muda no mapa da Copa 2026 se 'Dai Dai' repetir o fenômeno de 2010

Uma música que vira hit global transforma a Copa num evento cultural que ultrapassa o futebol.

A Copa de 2026 é, por definição, a maior da história em número de seleções: 48 equipes, contra as 32 das edições anteriores desde 1998. Serão 104 jogos distribuídos por 16 cidades nos três países-sede. A FIFA estima uma audiência televisiva global superior a 5 bilhões de pessoas ao longo do torneio — número que, se confirmado, superaria os 3,5 bilhões registrados no Catar em 2022. Nesse contexto, uma música oficial com alcance massivo funciona como cola cultural entre torcedores que jamais se cruzariam.

Historicamente, as músicas de Copa que viraram fenômeno compartilham três características: ritmo dançante adaptável a diferentes culturas, letra simples com refrão repetitivo e videoclipe com imagens do torneio propriamente dito. Waka Waka tinha as três. La La La tinha as duas primeiras, mas o videoclipe chegou tarde. A estratégia de lançar Dai Dai em 14 de maio — quase quatro semanas antes da abertura em 11 de junho — sugere que a equipe de marketing aprendeu com 2014 e quer dar tempo à faixa de saturar as plataformas antes do apito inicial.

"A cantora de 49 anos postou um vídeo no Instagram nesta quinta-feira, no estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, para apresentar a faixa, que conta com a participação do cantor nigeriano Burna Boy", informou a Reuters ao noticiar o anúncio.

Comparar gerações de músicas de Copa é exercício parecido com comparar gerações de seleções: os contextos são distintos, os instrumentos de medição mudam, mas alguns marcos resistem ao tempo. Waka Waka é, até hoje, o padrão. Dai Dai tem a vantagem de contar com a mesma protagonista — e a desvantagem de precisar superar a própria sombra. O lançamento oficial acontece em 14 de maio; a estreia do torneio, em 11 de junho. Vale salvar a data e ouvir com atenção nos primeiros dias, porque as primeiras 72 horas de streaming costumam definir a trajetória de uma música no ciclo de Copa.