Três coisas: retorno, estrela e cinco anos de hiato. Tudo se explica daí — e a reação de Ilia Topuria ao main event do UFC 329 só faz sentido quando você entende o que cada uma dessas variáveis representa dentro do negócio que a organização de Dana White construiu ao longo de duas décadas.
A sentença de Topuria e o que ela carrega
Quando um campeão em atividade chama uma luta de lixo, o protocolo do marketing esportivo manda ignorar ou minimizar. Só que Ilia Topuria não é um campeão qualquer, e a frase que ele soltou para a ESPN Deportes não foi dita por acidente.
"É uma luta horrível. Mas ei, é bom para o esporte. Você tem que admitir que Conor é uma das maiores estrelas do UFC. É como se tivesse prós e contras; ele está em declínio, e o único que vai se beneficiar é ele, não o UFC."Topuria tem 27 anos, cartel de 16 vitórias e 0 derrotas, e desde que nocauteou Alexander Volkanovski em fevereiro de 2024 para conquistar o cinturão dos penas, migrou para os leves e já detém o título da divisão. Ele fala de dentro do topo — não de fora.

A crítica, portanto, não é a de um azarão tentando aparecer. É a de um atleta que entende que o UFC 329, marcado para 11 de julho na T-Mobile Arena em Las Vegas, vai gerar receita histórica nas bilheterias e no pay-per-view sem que o ranking de nenhuma divisão seja minimamente afetado pelo resultado.

McGregor e Holloway — o que mudou em 13 anos e o que Topuria viu
A primeira vez que Conor McGregor e Max Holloway se encontraram foi em agosto de 2013, no TD Garden, em Boston — segunda luta de McGregor no UFC. O irlandês venceu por decisão unânime. Holloway tinha 21 anos, era um prospecto bruto de Waianae, e ainda levaria três anos para se tornar campeão interino dos penas. McGregor, por sua vez, ainda não havia conquistado nenhum cinturão.
Desde então, os dois construíram trajetórias que os colocam entre os maiores da história da organização. Holloway é dono de 26 vitórias no cartel, ex-campeão dos penas por três anos consecutivos e detentor do nocaute do ano de 2023 sobre Justin Gaethje. McGregor foi campeão simultâneo em duas divisões — penas e leves — e permanece o lutador que mais gerou receita na história do UFC. O problema é que o irlandês não compete desde julho de 2021, quando quebrou a perna no primeiro round contra Dustin Poirier no UFC 264. São quase cinco anos de ausência.
Topuria enxerga essa equação com frieza e, curiosamente, ainda aposta no irlandês.
"Eles já lutaram uma vez, e ele o venceu. Conor deveria vencê-lo, se você me perguntar quem eu quero que ganhe, quem seria melhor para mim. Se ele vencer e depois vencer outra luta, podemos ter essa luta."Reparemos no detalhe: Topuria não está torcendo por McGregor porque o respeita como atleta. Está torcendo porque uma vitória do irlandês abre caminho para um confronto lucrativo — e, provavelmente, para o maior pay-per-view da carreira do georgiano.
O que o UFC 329 revela sobre a lógica do negócio
A luta entre McGregor e Holloway não tem implicação direta no ranking dos leves nem dos penas. McGregor está tecnicamente fora do top 15 de qualquer divisão após cinco anos sem competir. Holloway, por sua vez, perdeu o cinturão dos penas para Topuria em fevereiro de 2024 e desde então não voltou a lutar pelo título. A luta é, na definição do próprio campeão dos leves, um evento de entretenimento embrulhado em papel de presente esportivo.
Isso não é necessariamente uma crítica ao UFC — é uma descrição do modelo. A organização aprendeu há muito tempo que McGregor move agulha mesmo parado. O UFC 229, em outubro de 2018, quando o irlandês enfrentou Khabib Nurmagomedov, vendeu 2,4 milhões de pay-per-views, recorde que durou anos. Nenhum card sem McGregor chegou perto desse número na mesma época. Trazê-lo de volta, mesmo contra um adversário sem implicação de título, é uma decisão de receita — não de mérito esportivo.
Topuria, que enfrenta Justin Gaethje no próximo mês no UFC White House em uma luta de unificação dos leves, sabe que está do lado certo da equação esportiva. Mas também sabe que o lado certo da equação esportiva nem sempre é o lado que vende mais ingressos. A ironia é que, ao chamar o UFC 329 de "luta horrível", ele garantiu para si mesmo mais atenção do que qualquer elogio protocolar teria gerado — e, se McGregor vencer em julho, a luta entre os dois pode se tornar exatamente o tipo de evento que o próprio Topuria disse que não o impressiona. Três coisas: retorno, estrela e cinco anos de hiato. Tudo ainda se explica daí — só que agora você sabe o preço de cada uma.












