Quinta-feira, 12 de junho de 2026. A Copa do Mundo abre oficialmente suas portas no Estádio Banorte, na Cidade do México, com o jogo entre o México e a África do Sul — e a cadeira reservada para Claudia Sheinbaum permanece vazia. No lugar da presidente mexicana, senta-se Yolett Cervantes Cuaquehua, jovem indígena que venceu um concurso nacional promovido pelo próprio governo para ocupar o ingresso cedido pela chefe de Estado. É uma imagem que resume, com precisão quase poética, o espírito contraditório desta Copa.
A ausência tripla é inédita na história recente do torneio. Desde que o futebol consolidou sua função de palco de poder — e o que para o argentino é festa de rua com mate, para o europeu é protocolo de Estado com gravata — nenhuma edição da Copa havia reunido, ao mesmo tempo, três nações anfitriãs e três líderes que, por razões distintas, preferiram estar em outro lugar.
O ingresso que Sheinbaum transformou em gesto político
A presidente mexicana foi a mais explícita em suas razões. Em declaração a jornalistas em maio, Sheinbaum afirmou categoricamente:
"Não vou a jogo nenhum — nem na abertura, nem em qualquer outra partida."Seu plano original era assistir ao primeiro jogo ao lado de apoiadores no Zócalo, a praça central da Cidade do México, transformando a estreia em evento popular. Apenas na semana do jogo ela admitiu que poderia rever os planos caso houvesse protestos na região.
A decisão de ceder o ingresso a Yolett Cervantes carrega um duplo sentido. Sheinbaum enquadrou o gesto como solidariedade com cidadãos de baixa renda excluídos pelos preços proibitivos dos ingressos — uma crítica velada à FIFA e ao modelo comercial do torneio. Ao mesmo tempo, o ato empodera simbolicamente uma mulher indígena num espaço historicamente masculino e elitizado. É política pública transformada em crônica esportiva.
Carney no G7 e Trump sem agenda confirmada
O caso do primeiro-ministro canadense Mark Carney é mais prosaico, mas igualmente revelador. O Canadá estreia na Copa em 13 de junho, e Carney estará na Europa para a cúpula do G7 — compromisso diplomático que, na hierarquia dos protocolos de Estado, supera qualquer presença em arquibancada. A colisão de datas não é acidente: o G7 de 2026 foi confirmado antes que o calendário da Copa ganhasse forma definitiva, e ninguém nos gabinetes de Ottawa se preocupou em blindar a agenda do premier para o maior evento esportivo do planeta.
Trump é o caso mais opaco dos três. A estreia dos Estados Unidos está marcada para 12 de junho, no MetLife Stadium, em Nova Jersey — a poucos quilômetros da Trump Tower em Manhattan. Mesmo assim, fontes próximas à Casa Branca confirmaram que o presidente não tem planos, neste momento, de comparecer ao jogo. Não há conflito de agenda declarado, nem gesto simbólico planejado. Simplesmente, nada.
O silêncio de Trump sobre a Copa é, por si só, um dado político.
O que a cadeira vazia diz sobre o poder do futebol em 2026
A história das Copas é pontuada por líderes que usaram o torneio como extensão de sua imagem. Vladimir Putin presidiu a abertura da Copa de 2018 em Moscou ao lado de Gianni Infantino. Dilma Rousseff suportou uma vaia ensurdecedora no Itaquerão em 2014 — e mesmo assim estava lá, porque não estar seria politicamente mais custoso. O emir do Catar, Tamim bin Hamad Al Thani, abriu a Copa de 2022 em Lusail como anfitrião orgulhoso de um projeto de décadas. Presença, nesses casos, era declaração de poder.
Em matéria do SportNavo publicada antes da abertura, a ausência tripla foi descrita como um fenômeno sem precedentes diretos na era moderna do torneio. Mas o que ela revela, mais do que descaso, é uma transformação na relação entre futebol e política. A Copa do Mundo de 2026 chegou marcada por tensões geopolíticas, críticas aos custos de ingressos e um processo de organização que expôs fraturas entre os três países-sede. Nesse contexto, associar-se ao torneio pode ser um risco calculado — e os três líderes, cada um à sua maneira, preferiram manter distância.
Sheinbaum transforma a ausência em narrativa de inclusão. Carney a justifica com diplomacia multilateral. Trump simplesmente não responde. Três ausências, três leituras políticas, um único efeito concreto: pela primeira vez desde que a Copa ganhou sua dimensão atual de espetáculo global, as arquibancadas dos jogos inaugurais dos países-sede não terão seus chefes de Estado. O México joga novamente em 17 de junho, contra a Polônia, no SoFi Stadium, em Los Angeles — e a questão sobre a presença de Sheinbaum nessa partida já circula nos bastidores do governo mexicano.








