O Tupi Football Club conquistou o título mais importante de seus 105 anos de história em dezembro de 2024, mas celebra a conquista da Série D enquanto negocia a venda de seu estádio para quitar dívidas de R$ 8,5 milhões. A situação do clube mineiro expõe a realidade financeira precária que atinge dezenas de equipes das divisões inferiores do futebol brasileiro.
O Estádio Eurico Gaspar Dutra, casa do Tupi desde 1950, está avaliado em R$ 12 milhões e representa o principal ativo do clube no plano de recuperação judicial apresentado em janeiro. A venda do imóvel de 74 anos permitirá quitar credores trabalhistas, que representam 65% do passivo total, e fornecedores locais.
Receitas limitadas e custos elevados
Dados da CBF mostram que clubes da Série D recebem apenas R$ 150 mil por participação no campeonato, valor que cobre menos de 15% do orçamento anual médio de R$ 1,2 milhão necessário para disputar a competição. O Tupi operou em 2024 com receita de R$ 850 mil, sendo 40% provenientes de patrocínios locais e 35% de subvenção municipal.
A manutenção de um estádio próprio consome entre R$ 180 mil e R$ 300 mil anuais em despesas operacionais, segundo levantamento do departamento financeiro do clube. Estes custos incluem segurança, limpeza, energia elétrica e adequações exigidas pelos órgãos competentes.

"Manter um estádio virou um luxo que poucos clubes da Série D podem bancar. A realidade é dura, mas preferimos vender e garantir a continuidade do clube", declarou o presidente do Tupi, Marcus Salum, em entrevista ao portal local Hoje em Dia.
Panorama nacional das divisões inferiores
Pesquisa realizada pela consultoria Sports Value com 45 clubes da Série D em 2024 revelou que 78% dependem de recursos públicos para completar seus orçamentos. A média de endividamento atinge R$ 2,8 milhões por clube, sendo que 23% das equipes possuem dívidas superiores a R$ 5 milhões.
O Brasiliense-DF, vice-campeão da Série D em 2023, acumula R$ 15 milhões em débitos e também estuda vender seu centro de treinamento. O Vila Nova-GO, rebaixado da Série B em 2024, deve R$ 22 milhões e negocia a cessão de direitos de transmissão dos próximos cinco anos para quitar apenas 40% do passivo.
Entre os 68 participantes da Série D 2024, apenas 12 clubes possuem estádios próprios. Os demais dependem de parcerias com prefeituras ou aluguel de praças esportivas, o que representa economia média de R$ 200 mil anuais em custos de manutenção.
Modelo insustentável de gestão
O orçamento médio de R$ 1,2 milhão dos clubes da Série D contrasta com os R$ 45 milhões da Série A e R$ 8,5 milhões da Série B. Esta discrepância reflete a ausência de receitas televisivas significativas e a dependência excessiva de patrocinadores regionais com poder limitado de investimento.
A Confederação Brasileira de Futebol distribuiu R$ 10,2 milhões entre os 68 participantes da Série D em 2024, valor equivalente ao salário mensal de um jogador mediano da Série A. O campeão Tupi recebeu R$ 300 mil pela conquista, quantia insuficiente para cobrir dois meses de folha salarial.
"O futebol das divisões inferiores precisa de um novo modelo de negócios. Não podemos mais depender só de verba pública e esperança", avalia o consultor em gestão esportiva André Lara, da empresa Futebol Finance.
Clubes tradicionais como Guarani-SP, América-RN e CSA-AL já passaram por processos similares de venda de patrimônio nos últimos cinco anos. O fenômeno atinge 35% das equipes que disputaram divisões inferiores entre 2020 e 2024.
O Tupi definirá o comprador do Estádio Eurico Gaspar Dutra até março de 2025, com três propostas em análise entre R$ 10 milhões e R$ 12,5 milhões. O clube planeja usar o superávit para investir em categorias de base e estruturar um centro de treinamento mais econômico para disputar a Série C em 2025.

