Quem tem o direito histórico de herdar a camisa 10 da Seleção Brasileira depois de Pelé? A pergunta não é nova, mas voltou com força total nesta semana quando Roberto Rivellino, 77 anos, um dos poucos homens que efetivamente vestiu aquele número em Copas do Mundo após o Rei, declarou à ESPN que preferia aposentar o manto a entregá-lo a qualquer jogador da geração atual. A declaração chegou em momento cirúrgico: a três dias da convocação de Carlo Ancelotti, prevista para segunda-feira (18), na qual o nome de Vinicius Júnior circula como candidato à 10 caso Neymar não seja chamado.

Rivellino não escolheu palavras suaves. Em entrevista direta, o ex-meia de Corinthians e Fluminense — campeão do mundo em 1970 com a seleção que muitos historiadores consideram a melhor da história — foi categórico:

"Se eu fosse o presidente da CBF, eu colocaria a 10 no Cristo Redentor para ninguém mais usar. Para mim, o maior rei, nunca vai ter outro jogador, é o Pelé. Vai me desculpar. A 10 era a 10, a referência."
A frase condensa décadas de reverência a um símbolo que transcende o tecido do uniforme.

“EM QUALQUER SELEÇÃO, ELE ESTARIA CONVOCADO!” 🇧🇷 #shorts

O peso de um número que Pelé transformou em monumento

Os dados históricos justificam a deferência de Rivellino. Pelé usou a camisa 10 nas três conquistas mundiais do Brasil — Suécia 1958, Chile 1962 e México 1970 — marcando 12 gols em 14 partidas disputadas nessas três edições, com aproveitamento de 85,7% nos jogos em que atuou. Nenhum outro jogador brasileiro chegou perto dessa combinação de títulos e rendimento com o mesmo número nas costas. Rivellino herdou a camisa nas Copas de 1974 (Alemanha Ocidental) e 1978 (Argentina), participando de 13 partidas e contribuindo com 3 gols e uma série de assistências decisivas — ele próprio reconhece a magnitude do legado que carregou.

A sequência de portadores da 10 após Rivellino é igualmente ilustrativa: Zico usou o número na Copa de 1982, na Espanha, numa seleção que muitos consideram a mais talentosa a não vencer um Mundial; Raí estreou com a 10 em 1994, nos Estados Unidos, mas cedeu a titularidade a Mazinho após a primeira fase; Rivaldo foi artilheiro da Copa de 1998 com 5 gols e campeão em 2002 com outros 8 tentos; Ronaldinho Gaúcho carregou a camisa entre 2002 e 2006; e Neymar — atualmente no Santos — assumiu o número a partir de 2013 e o mantém como marca registrada na Seleção. São seis décadas de uma linhagem que Rivellino considera insubstituível.

O argumento de Rivellino contra Vini Jr e a lógica da identidade numérica

A crítica de Rivellino a Vinicius Júnior vai além do simbolismo. O ex-meia levantou um ponto concreto sobre a trajetória do atacante do Real Madrid: Vini chegou ao clube espanhol usando a camisa 28, migrou para a 7 — número histórico associado a Cristiano Ronaldo e Raúl — depois de se firmar como titular com a 22. Para Rivellino, essa mobilidade numérica revela uma inquietação identitária que contrasta com a estabilidade que a 10 da Seleção exige.

"Não estou dizendo que o Vini não merece, Neymar não merece, mas eu acho que o Vini não devia continuar usando, pois nunca usou no Real Madrid; usa a 7, que também é errado, porque ele buscou a 7 depois que começou a marcar uma época com a 22. Aí ele foi campeão e quis a 7. Ele está disputando com Figo, Ronaldo, então fica com a 22, cada um com a sua. Agora ele quer a 10, para quê?"

A questão tem fundamento estatístico quando se examina o rendimento de Vini na Seleção. Em 2024, o atacante marcou 7 gols em 14 partidas pela equipe nacional — números sólidos, mas ainda distantes da consistência que Neymar apresentou entre 2013 e 2022, período em que o camisa 10 marcou 79 gols em 124 jogos, tornando-se o maior artilheiro da história da Seleção. A avaliação do SportNavo aponta que o debate sobre a camisa encobre, na verdade, uma questão mais profunda: o Brasil ainda não tem um camisa 10 de Copa do Mundo no sentido clássico do termo.

Rivellino foi preciso ao delimitar sua própria experiência com o número. Segundo ele, a preocupação nunca foi o algarismo nas costas, mas o desempenho que o justificava:

"Eu tive a honra e o privilégio, desde que o Pelé deixou a seleção, de participar de duas Copas usando a camisa 10. Mas a preocupação não era com a 10, era com o que eu fazia em campo. Não posso ficar preocupado com meu número. Apesar de que, para mim, era uma honra."
Essa distinção — entre honrar o número pelo jogo, não pelo desejo de tê-lo — é o núcleo do argumento do ex-meia gaúcho.

O que a convocação de Ancelotti pode resolver ou complicar

A lista de Ancelotti — divulgada na segunda-feira (18) — pode encerrar temporariamente o debate ou acendê-lo ainda mais. Se Neymar for convocado, a 10 volta ao seu dono natural e a polêmica perde o combustível imediato. O atacante do Santos soma 79 gols pela Seleção em 124 partidas e é o único jogador brasileiro ativo com histórico suficiente para sustentar o número em um Mundial sem que a comparação com Pelé soe absurda.

Se Neymar ficar de fora — seja por decisão técnica de Ancelotti ou por condição física —, a CBF precisará decidir se distribui a 10 a Vinicius Júnior, se a deixa vaga ou se adota uma solução inédita. Nos últimos três ciclos mundiais, o Brasil nunca entrou em Copa sem um titular claro para a camisa: em 2006, Ronaldinho Gaúcho; em 2010, Kaká; em 2014, Neymar; em 2018, Neymar; em 2022, Neymar. A ausência do número na lista de convocados seria, por si só, um gesto simbólico de proporções históricas — algo que Rivellino, ao propor aposentar a camisa, talvez tenha intuído como única saída honrosa.

Se Ancelotti confirmar Vinicius Júnior como portador da 10 na Copa do Mundo de 2026, o atacante terá 11 jogos — o máximo possível em um Mundial — para provar que Rivellino estava errado. A pergunta que fica: você acha que Vini Jr conseguiria, em campo, fazer o número 10 esquecer a polêmica e falar por si mesmo?