7 jogos. 5 derrotas. 2 empates. Nenhuma vitória. Esse é o cartão de visitas do México toda vez que a bola rola para abrir uma Copa do Mundo. Nesta quinta-feira (11), no Estádio Azteca, o El Tri tem a chance mais improvável e ao mesmo tempo mais poética de encerrar esse ciclo: enfrentando exatamente a África do Sul, a mesma seleção com quem empatou por 1 a 1 na abertura de 2010, em Joanesburgo.

O tabu que atravessa gerações mexicanas

A primeira aparição do México em um jogo inaugural de Copa foi em 1930, no Uruguai, quando a seleção levou 4 a 1 da França na partida que abriu oficialmente a competição. Nos anos seguintes, o roteiro não melhorou. Em 1950, no Maracanã, o Brasil aplicou 4 a 0. Em 1954, na Suíça, o placar foi ainda mais pesado: 5 a 0, novamente para os brasileiros. Em 1962, no Chile, mais uma derrota para o Escrete, dessa vez por 2 a 0.

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Os únicos alívios vieram em forma de empate. Em 1970, como anfitrião, o México ficou no 0 a 0 contra a União Soviética no próprio Azteca. Quarenta anos depois, em 2010, o 1 a 1 com a África do Sul — com gol de Rafael Márquez para os mexicanos e o histórico chute de Siphiwe Tshabalala para os sul-africanos — foi o segundo e último resultado sem derrota nesse recorte.

Agora, em 2026, o México disputa sua 8ª abertura de Copa. O adversário? Os Bafana Bafana, de volta ao torneio pela primeira vez desde aquela edição de 2010, após três eliminatórias consecutivas sem classificação.

O que os dados dizem sobre México e África do Sul hoje

Antes de entrar na nostalgia de 2010, a análise do momento atual de cada seleção importa. O México chega ao jogo sob o comando de Javier Aguirre, 67 anos, em sua terceira passagem pela seleção. O ciclo teve início turbulento — seis jogos sem vitória no segundo semestre de 2025 — mas a equipe emendou três triunfos consecutivos em 2026, incluindo uma goleada de 5 a 1 sobre a Sérvia em Toluca, na semana passada.

Do ponto de vista das métricas modernas, o México apresenta números interessantes na fase de construção:

  • Progressive passes: o El Tri figura entre os times da Concacaf com maior volume de passes progressivos por 90 minutos nos amistosos de preparação, reflexo de um sistema que tenta sair jogando pelo terceiro homem.
  • PPDA (Passes Permitidos por Ação Defensiva): indicador de intensidade da pressão alta — quanto menor, mais agressiva a marcação. A equipe de Aguirre registrou médias abaixo de 9 nos últimos três jogos, o que indica pressão consistente no campo adversário.
  • xG (expected goals): nas três vitórias recentes, o México gerou em média 1,8 xG por partida, com criação concentrada pelos lados, especialmente pela faixa direita de Raúl Jiménez.

A África do Sul, por sua vez, chega com menos rodagem recente em alto nível, mas com uma proposta defensiva organizada. Os Bafana Bafana têm em Lyle Foster, atacante do Burnley, sua principal referência ofensiva — jogador com bom xA (expected assists) nos esquemas de combinação pelo centro.

Tshabalala, Márquez e a memória de Joanesburgo

Em 11 de junho de 2010 — exatamente 16 anos antes desta abertura — o gol de Tshabalala contra o México foi o primeiro de toda aquela Copa do Mundo. O chute cruzado, com a perna esquerda, ainda é reproduzido em compilações e homenagens ao redor do planeta.

"O histórico gol contra o México na abertura da Copa do Mundo de 2010 abriu portas que eu jamais imaginei", afirmou Tshabalala recentemente, ao falar sobre como a imagem construída naquele momento o transformou em embaixador do futebol sul-africano.

Hoje com 41 anos, cinco anos afastado dos gramados, Tshabalala acumula 366 partidas oficiais, 55 gols e 86 assistências na carreira. Em abril de 2026, esteve presente nas finais do Campeonato Africano Escolar promovido pela CAF, defendendo investimentos em categorias de base. Não estará em campo nesta quinta, mas o gol dele ainda paira sobre o Azteca como referência do que pode acontecer.

Rafael Márquez, que marcou o gol mexicano em 2010, também não vestirá mais a camisa do El Tri. O zagueiro, um dos maiores da história da seleção, encerrou a carreira em 2021. Mas a geração atual carrega o peso simbólico daquele empate — e a missão de ir além.

O Azteca como palco e como pressão

O Estádio Azteca recebe uma Copa do Mundo pela terceira vez na história, após 1970 e 1986. Nenhum outro estádio do planeta chegou a essa marca. A arena passou por uma reforma de 225 milhões de dólares — equivalente a mais de R$ 1,1 bilhão — e ficou fechada por 651 dias. Nas ruas ao redor, na comunidade de Santa Úrsula, o impacto foi diferente: comércios fechados, ruas bloqueadas e moradores que vivem a 100 metros do estádio sem conseguir comprar ingresso.

"Estamos tão perto do estádio Azteca, a 100 metros, mas tão longe de entrar por causa do preço exorbitante dos ingressos", relatou Orelio Mecinas, morador de 65 anos que viu o Brasil de Pelé ser tricampeão ali em 1970, à ESPN.

Com 83 mil torcedores esperados nas arquibancadas, a pressão sobre o México é real e mensurável. Uma vitória nesta abertura colocaria o El Tri em posição privilegiada no Grupo A, que ainda conta com Coreia do Sul e República Tcheca — as outras duas seleções se enfrentam hoje mesmo, às 23h (horário de Brasília), em Guadalajara.

O árbitro da partida de abertura é o brasileiro Wilton Pereira Sampaio, confirmado pela FIFA para o jogo das 16h (horário de Brasília). A Copa do Mundo de 2026 tem 104 partidas programadas até a final, em 19 de julho, em Nova York — e começa aqui, com um México tentando reescrever 96 anos de história em 90 minutos no Azteca.