Confesso: em março deste ano, escrevi que a Espanha chegaria à Copa do Mundo de 2026 com o elenco mais completo e saudável dos últimos ciclos. Hoje, com dez jogadores fora do amistoso contra o Iraque — incluindo Lamine Yamal como dúvida para a estreia — vejo o quanto aquela afirmação foi precipitada. O futebol tem essa crueldade: a véspera de uma Copa é sempre mais complicada do que o planejamento sugere.

A Copa do Mundo começa para a Espanha no dia 15 de junho, em Atlanta, contra Cabo Verde. Antes disso, Luis de la Fuente tem dois amistosos: nesta quinta-feira, diante do Iraque, em La Coruña, às 16h (horário de Brasília); e na segunda-feira, dia 8 de junho, contra o Peru, em Puebla, no México. São os últimos ensaios antes do Grupo H — que também inclui Arábia Saudita e Uruguai — e o técnico chega ao primeiro deles com um elenco visivelmente incompleto.

Os 10 nomes que De la Fuente não tem disponíveis contra o Iraque

A lista de ausências reúne perfis e motivos distintos. Três jogadores estão no departamento médico: Lamine Yamal, Nico Williams e Víctor Muñoz. Yamal — atacante do Barcelona e principal referência técnica da seleção — sofreu uma lesão muscular na coxa esquerda em 22 de abril, durante partida contra o Celta de Vigo, e ficou afastado dos gramados por cerca de um mês. Desde então, passou por repouso absoluto, trabalhos na academia e, progressivamente, atividades no campo.

Outros quatro foram preservados por decisão técnica do treinador: Marc Cucurella, Rodri, Pedri e Mikel Oyarzabal. Nenhum deles apresenta lesão declarada — De la Fuente simplesmente optou por não arriscar a integridade física desses atletas a menos de duas semanas do início do torneio. A escolha é defensável: Rodri, por exemplo, retornou de uma ruptura de ligamento cruzado anterior sofrida em setembro de 2024 e segue em processo de readaptação à carga competitiva máxima.

Já David Raya, Fabián Ruiz e Martín Zubimendi — os três oriundos do Real Madrid e do Arsenal — integraram a delegação espanhola apenas na quarta-feira, horas depois de disputarem a final da Champions League. De la Fuente os poupou do amistoso desta quinta por razões óbvias: desgaste físico e mental acumulado em uma decisão europeia. Os três estarão disponíveis para o confronto contra o Peru e, naturalmente, para a estreia no Mundial.

O que De la Fuente diz — e o que os números revelam

Em entrevista coletiva realizada na quarta-feira, o treinador espanhol adotou um tom deliberadamente cauteloso ao falar sobre Yamal:

"Os lesionados estão evoluindo conforme o previsto. Estamos alinhados com todos os clubes, dando sequência ao planejamento que já estava definido. A resposta dos jogadores é cada vez melhor. Vamos ver dia a dia a evolução para decidir definitivamente para o primeiro jogo."

Mas foi além — e a declaração seguinte é a que realmente importa para quem analisa o cenário com frieza:

"Nem Lamine, nem Nico (Williams), nem Víctor (Muñoz) jogarão amanhã. Estamos confiantes de que Lamine estará pronto até o dia 15, mas não sei ao certo. Se as coisas continuarem assim, ele poderá estar pronto até lá, mas isso não garante que ele jogará. Avaliaremos a situação conforme ela se desenrolar."

Traduzindo: De la Fuente não descarta Yamal, mas também não o coloca como certo. Para um técnico que, em geral, evita incertezas públicas, essa admissão — "não sei ao certo" — tem peso. A Espanha convocou 26 jogadores para o amistoso, dos quais nove — Leo Román, Jon Martín, Marc Bernal, Javi Guerra, Javi Rodríguez, Sergio Gómez, Jesús Rodríguez, Gonzalo García e Turirentes — não integram a lista definitiva para o Mundial, funcionando como reservas de emergência em caso de novas lesões.

Como a Espanha funciona sem Yamal e o que isso significa para Cabo Verde

A ausência de Yamal — artilheiro e assistente mais decisivo da La Roja no ciclo pós-Euro 2024 — força De la Fuente a redistribuir responsabilidades no setor ofensivo. Sem o camisa 19 do Barcelona e sem Nico Williams na ponta esquerda, o técnico tende a escalar Dani Olmo centralizado, com Ferran Torres e Bryan Gil ou Yeremy Pino nas extremidades. Pedri, poupado desta partida, deve retornar contra o Peru e ser titular na estreia.

O amistoso contra o Iraque — seleção que não disputou uma Copa do Mundo desde 1986 — serve menos como teste tático do que como acerto de ritmo para os jogadores que precisam de minutos. Nomes como Mikel Merino, Dani Carvajal e Álvaro Morata — este último capitão e referência na área — devem compor o time titular desta quinta-feira em La Coruña.

Historicamente, a Espanha tem demonstrado capacidade de se reorganizar sem peças individuais: foi campeã da Euro 2024 mesmo sem Dani Olmo como titular absoluto nas fases iniciais, e construiu seu ciclo vitorioso entre 2008 e 2012 — três títulos consecutivos — com rotatividade inteligente. De la Fuente conhece esse repertório. O problema, agora, é que Yamal não é apenas mais uma opção — é o jogador em torno do qual o sistema ofensivo espanhol foi construído neste ciclo.

A Espanha parte para os Estados Unidos na sexta-feira, um dia após o amistoso contra o Iraque. O segundo teste preparatório acontece em 8 de junho, contra o Peru, em Puebla. Se Yamal não estiver em condições plenas até lá, De la Fuente terá apenas sete dias — entre 8 e 15 de junho — para decidir se o garoto de 17 anos começa ou não a Copa do Mundo como titular. A decisão, neste momento, ainda pertence ao departamento médico.

Yamal joga ou não joga contra Cabo Verde — essa é a única pergunta que importa agora para a Espanha.