Confesso: eu errei sobre a Tartan Army em 2024. Quando a Escócia se classificou para esta Copa, escrevi aqui mesmo, numa coluna de pré-torneio, que os escoceses viriam ao Mundial como coadjuvantes discretos — uma seleção pequena, com torcida limitada, sem o peso histórico para inflamar uma cidade americana. Errei feio. O que aconteceu em Miami nas últimas 48 horas antes de Brasil x Escócia foi uma das mobilizações de torcida mais impressionantes que acompanhei desde os alemães em Seul, em 2002, ou os holandeses em Marselha, em 1998.
A chegada que ninguém esperava e Miami não vai esquecer
Cerca de 10 mil torcedores escoceses desembarcaram na Flórida para o jogo desta quarta-feira (24), pelo Grupo C da Copa do Mundo, no Hard Rock Stadium. A dimensão do número só faz sentido quando se lembra que a Escócia tem 5,4 milhões de habitantes — proporcionalmente, seria como o Brasil mandar 450 mil pessoas para um único jogo fora de casa. A equipe de reportagem do Jogada10 contabilizou 30 torcedores uniformizados apenas num único voo de Nova York a Fort Lauderdale na terça-feira. Trinta. Num voo doméstico. Isso é Tartan Army.
A cena mais emblemática aconteceu em Miami Beach, onde aproximadamente 150 escoceses alugaram um barco para festejar no mar — não a classificação, ainda incerta, mas a possibilidade da classificação. A Escócia está fora das Copas há 28 anos. A última participação foi em 1998, na França, quando caíram na fase de grupos. Nesta edição, com três pontos após vencer o Haiti e perder para Marrocos, os escoceses precisam apenas de um empate contra o Brasil para avançar pela primeira vez na história para a segunda fase de um Mundial. Um empate. Contra o Brasil. Num estádio em Miami. Com gaita de fole tocando no píer.
A Tartan Army não é turismo — é uma tradição de resistência cultural
Quem conhece o futebol britânico sabe que a Tartan Army — nome oficial da torcida organizada escocesa — tem uma reputação construída ao longo de décadas. Não pela violência, que é praticamente inexistente, mas pelo volume, pela criatividade e pela capacidade de transformar qualquer cidade em território próprio. Em Boston, semana passada, os britânicos esgotaram o estoque de cerveja dos pubs locais. Em Miami, chegaram com a mesma energia e foram ao beisebol, ao mar e às ruas do Art Deco District com kilts — as saias masculinas de lã pesada, tradicionais da cultura escocesa — e gaitas de fole.
Há um paralelo histórico que me vem à memória sempre que vejo a Tartan Army em ação: os torcedores da Irlanda na Eurocopa de 1988, em Stuttgart. Aquela geração de irlandeses transformou a Alemanha Ocidental numa extensão de Dublin, cantando, bebendo e abraçando alemães nas ruas. A imprensa europeia ficou tão encantada com o comportamento que o fenômeno virou tema de tese em universidades de sociologia do esporte. A Tartan Army tem o mesmo DNA — e em Miami, com sol, mar e a maior Copa da história, o efeito foi amplificado.
"Crescemos vendo os jogos do Brasil. Claro que, depois da Escócia, nunca vamos torcer para a Inglaterra. Queremos que os sul-americanos ganhem sempre. Em 2002, Ronaldo era igual a um super-herói. Renasceu das cinzas. A partida contra o Brasil será duríssima para a Escócia. Mas é uma grande vitória para o país estar nesta condição. Queremos, então, beber e aproveitar este momento. Só isso", disse Stewart, torcedor escocês identificado nas ruas de Miami.
Stewart merece menção especial: ele estava vestido com a camisa do Brasil e o topete estilo Cascão, em homenagem ao visual de Ronaldo Fenômeno na final de 2002 contra a Alemanha. Outro torcedor usava a camisa da Seleção de 1998 com o nome de Taffarel nas costas. Dois escoceses, em Miami, vestindo uniformes do Brasil de décadas passadas. Isso diz algo sobre como o futebol brasileiro ainda funciona como referência afetiva para o Reino Unido — mesmo para os que nunca torcem pela Inglaterra.
- 10 mil escoceses estimados em Miami pela organização local
- 150 torcedores alugaram barco em Miami Beach para festejar antes do jogo
- 28 anos sem Copa — a última participação escocesa foi em 1998, na França
- Um empate contra o Brasil garante a classificação inédita para a segunda fase
A síntese que o futebol raramente oferece com tanta clareza
A interpretação dominante sobre este jogo é simples: Brasil favorito, Escócia esperando para contra-atacar, torcida escocesa como elemento folclórico simpático mas irrelevante para o resultado. Essa leitura tem fundamento técnico — a Seleção Brasileira, mesmo com suas inconsistências nesta Copa, possui qualidade individual muito superior. Mas ela ignora algo que aprendi cobrindo oito anos de futebol europeu entre Barcelona e Milão: torcida não decide jogo, mas contexto emocional pode decidir jogadores.
A contra-leitura, defendida por parte da imprensa britânica, é que a Escócia entra no Hard Rock Stadium com zero pressão — já superou expectativas só de estar aqui — enquanto o Brasil carrega o peso de uma campanha ainda irregular e a cobrança de uma torcida que não aceita empates. Esse desequilíbrio psicológico já produziu surpresas históricas: a Dinamarca de 1992, que chegou à Eurocopa de última hora e venceu tudo; o Grécia de 2004, que ninguém apostava nada. Equipes sem nada a perder são as mais perigosas do futebol.
A síntese honesta é esta: a Escócia provavelmente não vence o Brasil, mas a Tartan Army já transformou esta Copa em algo maior do que um resultado. Dez mil pessoas cruzando o Atlântico, alugando barcos em Miami Beach e cantando "No Scotland, no party" em loop nas ruas de uma cidade americana — isso é um ato político e cultural tão poderoso quanto qualquer gol. O jogo começa às 22h (horário de Brasília), com o Hard Rock Stadium lotado e pelo menos 10 mil kilts nas arquibancadas. O Brasil precisa de uma vitória para garantir a liderança do Grupo C; a Escócia precisa de um ponto para escrever o capítulo mais improvável de sua história no futebol.
O que aconteceu em Miami nos últimos dois dias é como uma receita que ninguém seguiu à risca mas que saiu perfeita: ingredientes improváveis, temperatura errada, tempo de forno ignorado — e ainda assim o resultado encheu a cozinha de um aroma que ninguém vai esquecer tão cedo.








