62 finalizações. É o número que deveria pertencer a uma seleção dominante, quase implacável — e, no entanto, pertence à equipe eliminada mais precocemente entre as que mais chutaram na história recente da Copa do Mundo. A Turquia de Vincenzo Montella encerrou sua participação no torneio de 2026 sem marcar um único gol, numa contradição estatística que não tem paralelo direto nas últimas seis edições da competição. Para efeito de comparação imediata: o Japão marcou seis gols com apenas 19 finalizações na mesma fase — ou seja, os japoneses precisaram de menos de um terço dos chutes turcos para fazer o triplo dos gols.

O precedente que a história já conhece

Antes de dissecar a Turquia de 2026, é obrigatório lembrar de outro caso emblemático de ineficiência ofensiva em Copas do Mundo. Na edição de 1982, na Espanha, a Checoslováquia finalizou 47 vezes nos três jogos da fase de grupos e foi eliminada com aproveitamento ofensivo que escandalizou os analistas da época. Na Copa de 2010, na África do Sul, a Argélia registrou 38 finalizações sem conversão nos dois primeiros jogos antes de ser eliminada. Nenhum desses precedentes, porém, chegou perto de 62 chutes em apenas dois jogos — o que torna o caso turco não apenas uma anomalia estatística, mas um documento histórico sobre o abismo entre volume e eficiência.

A Turquia tem uma relação tortuosa com as Copas do Mundo. Sua melhor campanha foi o terceiro lugar em 2002, no Japão e Coreia do Sul, quando Hakan Şükür marcou o gol mais rápido da história do torneio — aos 11 segundos contra a Coreia do Sul — e Rüştü Reçber foi eleito o melhor goleiro da competição. De lá para cá, a seleção ficou de fora dos torneios de 2006, 2010, 2014, 2018 e 2022. Vinte e quatro anos de ausência antes do retorno em 2026. E o retorno foi isso: 62 chutes, zero gols, eliminação em dois jogos.

O que os números de 2026 revelam sobre o ataque turco

Dos 62 chutes registrados pela seleção turca, apenas 12 foram enquadrados — ou seja, acertaram o alvo. Isso representa um índice de precisão de 19,4%, abaixo da média histórica de seleções eliminadas na fase de grupos, que gira em torno de 27%. Outros 32 chutes partiram de fora da área, o que explica boa parte da ineficácia: chutes de longa distância sem pressão sobre o goleiro raramente resultam em gol no futebol de alto nível.

No primeiro jogo, contra a Austrália, o goleiro Patrick Beach foi o protagonista. A seleção oceânica venceu por 2 a 0 e Beach fez ao menos sete defesas de alto nível, segundo o relatório técnico da FIFA divulgado após a partida. Montella, segundo declarações à imprensa turca após o jogo, reconheceu que sua equipe "criou situações, mas não foi eficiente nos momentos decisivos". A frase soa protocolar, mas esconde um problema estrutural mais profundo.

"Criamos situações, mas não fomos eficientes nos momentos decisivos", disse Vincenzo Montella após a derrota de 2 a 0 para a Austrália.

No segundo jogo, contra o Paraguai, a situação foi ainda mais reveladora. Os turcos jogaram todo o segundo tempo com um jogador a mais — vantagem numérica que historicamente eleva em cerca de 34% as chances de marcar gol, de acordo com dados compilados pelo CIES Football Observatory em edições anteriores de Copas. Mesmo assim, o gol marcado logo no início pelos paraguaios foi suficiente para o 1 a 0 final. A Turquia finalizou, pressionou, manteve a bola — e não converteu.

O problema tático que Montella não resolveu

Analisando as posições dos chutes turcos, emerge um padrão preocupante: a equipe rara vez conseguiu criar finalizações dentro da pequena área ou em situações de um contra um com o goleiro. A maioria dos 12 chutes enquadrados veio de cabeceio em cruzamentos ou de chutes de meia distância sem ângulo favorável. Isso aponta para uma falha na construção das jogadas — a Turquia chegava ao terço final com bola, mas não com espaço.

Montella adotou um esquema de 4-2-3-1 ao longo da competição, com Kerem Aktürkoğlu como referência ofensiva. O problema é que Aktürkoğlu, um jogador de velocidade e drible, foi sistematicamente marcado por linhas defensivas bem posicionadas. Sem um segundo atacante de área que pudesse explorar cruzamentos ou bolas na profundidade, a Turquia transformou posse de bola em circulação estéril. As 32 finalizações de fora da área confirmam que a equipe não encontrou soluções dentro do espaço onde os gols de fato acontecem.

"Precisamos aprender a ser mais diretos, mais objetivos. Tivemos a bola, mas não criamos perigo real", afirmou o capitão turco em entrevista à imprensa após a eliminação.

O que a Turquia leva para a próxima geração

A eliminação em dois jogos, com 62 chutes e zero gols, encerra não apenas a participação turca na Copa de 2026, mas provavelmente o ciclo de Montella à frente da seleção. O técnico italiano assumiu o cargo em 2023 e levou a equipe à classificação após 24 anos de ausência — mérito que não se apaga com o desempenho decepcionante no torneio. A pergunta que a Federação Turca de Futebol precisará responder nos próximos meses é estrutural: como uma seleção com jogadores que atuam em ligas de alto nível — Süper Lig, Premier League, Bundesliga — não consegue converter pressão em gol?

O precedente que a história já conhece 62 chutes e nenhum gol revelam por que a
O precedente que a história já conhece 62 chutes e nenhum gol revelam por que a

A resposta provavelmente passa por um recrutamento tático mais cuidadoso e pela formação de um atacante de área de nível internacional, lacuna que a Turquia carrega desde o fim da era Hakan Şükür. O próprio Şükür marcou 51 gols em 112 jogos pela seleção — média de 0,45 gols por jogo que nenhum atacante turco chegou perto de replicar nos últimos quinze anos. A próxima Copa do Mundo será em 2030, co-sede entre Espanha, Portugal, Marrocos e Argentina. A Turquia terá quatro anos para transformar 62 chutes sem gol numa lição, não num epitáfio — e seu aproveitamento de finalizações nos dois jogos de 2026 ficou em exatos 0%.