26 partidas. Esse é o número que resume o tamanho do problema criado pela Fifa nesta quinta-feira, 4 de junho: segundo relatórios técnicos sobre a Copa do Mundo de 2026, 26 dos 104 jogos do torneio poderão ser disputados em condições de calor extremo, com temperaturas chegando a 32 graus Celsius — e os torcedores que planejavam entrar nos estádios com sua própria garrafa d'água terão de rever os planos. A federação anunciou a proibição de garrafas reutilizáveis em todas as arenas do Mundial, revertendo uma diretriz anterior que autorizava recipientes plásticos transparentes, vazios e com capacidade de até um litro.
A mudança foi comunicada a pouco mais de uma semana do início da competição, que terá jogos distribuídos entre Estados Unidos, Canadá e México. O timing da decisão, por si só, já seria suficiente para gerar polêmica. Mas o contexto climático transforma a medida em algo que vai além da burocracia regulatória: trata-se de uma decisão com impacto direto na saúde de milhões de pessoas.
A virada de 180 graus que pegou todos de surpresa
O Código de Conduta do Estádio divulgado previamente pela Fifa para a Copa do Mundo de 2026 autorizava explicitamente a entrada de garrafas plásticas transparentes, vazias, com até um litro de capacidade. A medida havia sido bem recebida por grupos de torcedores e especialistas em saúde pública, especialmente por reconhecer as condições climáticas das cidades-sede norte-americanas no verão. A proibição anunciada hoje contradiz esse documento de forma direta.
A justificativa oficial da entidade apoia-se em preocupações de segurança. Um porta-voz da federação afirmou que "garrafas de fora já são proibidas em vários desses locais por questões de segurança, e a Fifa está aplicando essa consideração em todos os estádios do torneio." O argumento é que recipientes rígidos podem ser usados como projéteis, representando risco a jogadores e espectadores — raciocínio já adotado por ligas como a NFL e a NBA em seus ginásios e estádios nos Estados Unidos.
"Garrafas de fora já são proibidas em vários desses locais por questões de segurança, e a Fifa está aplicando essa consideração em todos os estádios do torneio." — Porta-voz da Fifa
O problema é que a Copa do Mundo não é um jogo de temporada regular em arena climatizada. Dos 16 estádios que receberão partidas, parte deles está em cidades com histórico de ondas de calor no mês de junho e julho. A diferença entre um torcedor hidratado e um desidratado pode ser tão significativa quanto a distância entre Recife e Porto Alegre — mais de 3.000 quilômetros de variação climática que, no contexto do torneio, se traduz em riscos distintos para cada sede.
O Football Supporters Europe e o alarme de saúde pública
A reação não demorou. O Football Supporters Europe, organização que representa grupos de torcedores em todo o continente europeu, classificou a medida como um "risco real à saúde". A entidade destacou que a proibição é especialmente preocupante diante das altas temperaturas previstas para algumas cidades-sede, onde o calor combinado com a aglomeração de público em estádios pode criar condições propícias para casos de insolação e desidratação severa.
"Risco real à saúde" — Football Supporters Europe, em nota sobre a proibição de garrafas nos estádios da Copa 2026
A preocupação tem embasamento estatístico. Com 26 jogos projetados em condições de calor extremo — quase um quarto do total de 104 partidas do torneio — a questão da hidratação deixa de ser conforto e passa a ser protocolo médico. Grupos de medicina esportiva recomendam ingestão de pelo menos 500 ml de água por hora em ambientes acima de 30°C para adultos em repouso. Para quem está em pé, cantando e comemorando em arquibancadas expostas ao sol, essa necessidade aumenta consideravelmente.
Conforme registrado pelo SportNavo, a decisão da Fifa também levanta questões sobre o impacto financeiro para torcedores que já arcam com custos elevados de ingressos, hospedagem e deslocamento entre as três nações-sede. Pagar por água dentro do estádio, a preços que a própria federação admite serem "consistentes com outros eventos realizados nos mesmos locais" — ou seja, preços de arena norte-americana —, adiciona uma camada de custo que afeta desproporcionalmente torcedores de países emergentes.
O que a Fifa oferece em troca da garrafa proibida
Diante das críticas, a federação apresentou um conjunto de medidas compensatórias. Nos arredores dos estádios, serão instaladas estações de nebulização, ventiladores, estações de hidratação e tendas de resfriamento. Dentro das arenas, garrafas de água estarão disponíveis para compra a preços alinhados com os praticados nos mesmos locais em outros eventos.

A eficácia dessas medidas, no entanto, depende de variáveis que a Fifa não controla totalmente: a capacidade logística de cada estádio para instalar e operar as estações de resfriamento, o tempo de fila nas bilheterias internas de alimentação — que em grandes eventos esportivos norte-americanos frequentemente ultrapassa 20 minutos — e a distribuição geográfica dos pontos de hidratação dentro de arenas com capacidade para 70 mil ou 80 mil pessoas.
A comparação com edições anteriores da Copa revela uma regressão. Em torneios realizados em climas igualmente desafiadores, como o Qatar 2022 — onde o calor motivou a histórica mudança de calendário para novembro e dezembro —, a questão da hidratação foi tratada como prioridade logística desde o início do planejamento, não como ajuste de última hora. A proibição anunciada hoje, a menos de dez dias da abertura do torneio, deixa pouco espaço para adaptação tanto dos organizadores quanto dos torcedores.
A Copa do Mundo de 2026 começa em 12 de junho, com o jogo de abertura nos Estados Unidos. Até lá, grupos de torcedores e entidades de saúde pública têm prazo curto para pressionar por revisões ou, ao menos, por garantias mais concretas sobre a infraestrutura de hidratação nos 16 estádios. A resposta da Fifa a essas demandas — e os primeiros relatos de torcedores sobre as condições reais dentro das arenas — chegará ao mundo em 12 de junho de 2026.








