285 jogos. Esse é o abismo que separa Danilo, com 293 partidas disputadas como lateral direito ao longo da carreira, de Roger Ibañez, que atuou na posição apenas 8 vezes. O número, levantado pelo Transfermarkt, resume com brutalidade a disputa pela vaga na lateral direita da Copa do Mundo de 2026 — e coloca Carlo Ancelotti diante de uma das escolhas mais delicadas de sua curta gestão à frente da Seleção Brasileira.
A lesão de Wesley e o vácuo que ninguém esperava
O cenário mudou radicalmente no dia 6 de junho, durante o amistoso contra o Egito. Wesley, que era o favorito para a vaga, sentiu a coxa direita ainda no primeiro tempo e foi cortado da Copa. A ausência abriu uma disputa que, a três dias da estreia contra Marrocos — marcada para o dia 13, às 19h (de Brasília), no MetLife Stadium, em Nova Jersey —, Ancelotti ainda não resolveu publicamente. O técnico italiano, que completou 67 anos nesta quarta-feira (10) e passou pelo tradicional corredor polonês dos jogadores antes do treino em Nova Jersey, mantém o mistério sobre a escalação.
Ibañez entrou exatamente naquele jogo contra o Egito, no segundo tempo, atuando como lateral direito improvisado. O zagueiro do Al-Ahli, da Arábia Saudita, havia feito o mesmo papel em fevereiro de 2025, quando deu assistência pelo clube saudita contra o Al-Gharafa, do Catar. São, portanto, apenas 8 aparições na função ao longo de toda a carreira — um número que seria cômico se a situação não fosse tão séria.
Danilo e o peso de 293 jogos numa função ingrata
Seria injusto chamar de monopólio o que Danilo construiu na lateral direita da Seleção — mas é uma dominância em escala histórica. O lateral do Flamengo acumula quase três centenas de partidas na posição, passando por Juventus, Manchester City e Porto antes de retornar ao Brasil. Na Seleção, já viveu Copas do Mundo, Copa América e eliminatórias, com a bagagem técnica e psicológica que só o tempo produz.
A comparação com Ibañez não é apenas quantitativa. Lateral direito exige leitura de linha, timing de subida e cobertura no espaço deixado — habilidades que se desenvolvem com repetição. Ibañez é um zagueiro de alto nível, capaz de marcar e jogar com os pés, mas a adaptação à ala carrega riscos reais num torneio sem margem para erro.
A história das Copas do Mundo brasileiras reforça essa lógica. Em 1994, Mazinho foi improvisado em algumas funções, mas o Brasil sempre preservou especialistas nas posições de maior desgaste físico. Em 2002, o esquema de Scolari com Cafu e Roberto Carlos — dois laterais de carreira, não adaptados — foi decisivo para o equilíbrio tático do hexacampeonato. Improvisar numa lateral em fase de grupos pode parecer calculado; improvisar num mata-mata é aposta de alto risco.
Marrocos não facilita para quem chega desconfortável
O adversário da estreia não é um detalhe menor nessa equação. Marrocos chega à Copa invicto há 29 partidas, com três títulos conquistados no período — o Campeonato Africano de Nações, a Copa Árabe e a Copa das Nações Africanas. A seleção africana possui o segundo melhor aproveitamento entre todos os classificados para o Mundial desde 2023, além da melhor diferença de gols do ciclo.
O volante Sofyan Amrabat, um dos líderes do grupo, foi direto ao ponto em declaração divulgada nesta semana, publicada em matéria do SportNavo:
"O Brasil, eu acho, desde que nasci, sempre foi a seleção com grandes estrelas, jogadores incríveis. Eles têm uma seleção fantástica, então, temos muito respeito por eles. Mas estaremos prontos, vamos dar tudo de nós. E sim, vamos tentar, é claro, vencê-los, porque temos que ter muita confiança em nós mesmos e na nossa qualidade."
Amrabat completou com uma frase que resume bem o estado de espírito marroquino:
"Mais uma vez, com muito respeito por eles, mas não temos medo de ninguém. Acho que o Brasil ainda será o favorito, mas nós também somos bons."
O último confronto entre Brasil e Marrocos numa Copa do Mundo foi em 1998, na fase de grupos, com vitória brasileira por 3 a 0. Mas aquele Marrocos e este são criaturas de épocas distintas. Em 2022, no Catar, a seleção africana alcançou a semifinal — feito inédito para um país africano na história dos Mundiais — e eliminou Portugal, Espanha e Bélgica pelo caminho. Amrabat, que estava lá, sabe que a comparação com 1998 não tem mais nenhum valor prático.
O que Ancelotti decide ao escalar a lateral direita
A escolha entre Danilo e Ibañez não é apenas sobre quem joga melhor na posição. Ancelotti, ao optar por Ibañez, estaria apostando em um atleta fisicamente mais imponente, com mais presença aérea e capacidade de cobrir o centro quando necessário — atributos de zagueiro que podem ter valor contra as transições rápidas marroquinas. O risco é a exposição nas costas, especialmente contra pontas velozes.
Com Danilo, o Brasil ganha especialização e experiência de Copa. O lateral do Flamengo já jogou sob pressão em jogos decisivos pela Juventus e pela Seleção, conhece os rituais do torneio e não vai se perder na leitura defensiva. A desvantagem é que Danilo, aos 33 anos, não é mais o mesmo atleta de 2018 — mas 293 jogos na posição falam mais alto do que qualquer reserva de energia de um zagueiro adaptado.
Ancelotti tem até a tarde de sexta-feira (12) para bater o martelo sem que a informação vaze para o lado marroquino. O Brasil estreia no Grupo C no sábado, às 19h, no MetLife Stadium — e a resposta para essa dúvida vai aparecer no aquecimento, quando a escalação for confirmada. Vale gravar o jogo desde o início para ver quem sai do túnel na lateral direita.








