Confesso: eu errei sobre a Espanha em 2024. Quando La Roja perdeu para a Colômbia por 1 a 0 em março daquele ano — o que viria a ser, como sabemos agora, sua última derrota no tempo regulamentar —, escrevi que o ciclo de Luis de la Fuente estava em risco e que a equipe havia perdido o eixo técnico que a tornara campeã europeia. Hoje, diante de 30 jogos consecutivos sem derrota no tempo normal, reconheço o equívoco. Mas reconhecer o erro não significa aceitar a narrativa do favoritismo irresistível. A história das grandes séries invictas antes de Copas do Mundo é também uma história de decepções monumentais.

A invencibilidade espanhola num espelho histórico

A Copa do Mundo de 2026 recebe a Espanha com uma marca objetiva: 30 partidas sem derrota no tempo regulamentar desde março de 2024, encerradas com vitória por 3 a 1 sobre o Peru em amistoso disputado no Estádio Cuauhtémoc, no México, com gols de Mikel Oyarzabal e Pedri, além de um gol contra do goleiro Pedro Gallese. A única ressalva técnica à série é a derrota nos pênaltis para Portugal na final da Nations League 2025 — empate por 2 a 2 no tempo normal, seguido de eliminação nas cobranças alternadas. Em termos regulamentares, portanto, a invencibilidade permanece intacta.

COPA DO MUNDO É DIFERENTE, NÉ, NEYMAR? "VAI, BRASIL" NO GLOBOPLAY | #shorts | ge.globo

O maior precedente histórico comparável pertence ao Brasil do ciclo 1993–1996: 35 jogos sem derrota, construídos sob a gestão de Carlos Alberto Parreira, que culminaram com o tetracampeonato nos Estados Unidos em 1994. Aquela seleção chegou à Copa com Romário e Bebeto em estado de graça, uma defesa organizada em torno de Aldair e Marcio Santos, e um sistema de jogo que priorizava eficiência sobre estética — o que gerou, à época, uma polarização sociológica intensa no Brasil entre quem valorizava o resultado e quem lamentava a suposta morte do "futebol-arte". A série invicta foi combustível e pressão ao mesmo tempo.

A Itália que chegou à Copa da Alemanha em 2006 com a série de 31 jogos sem derrota — recentemente igualada pela Espanha antes de atingir os 30 — é outro caso que merece escrutínio. Os Azzurri de Marcello Lippi conquistaram o título em Berlim, derrotando a França nos pênaltis, numa campanha marcada pela solidez defensiva e pela liderança técnica de Fabio Cannavaro, eleito melhor jogador do mundo naquele ano. A série italiana, conforme registrado por SportNavo em análises anteriores do ciclo pré-Copa, foi construída num contexto de reconstrução pós-Euro 2004 — derrota precoce que funcionou como choque institucional para a federação italiana.

O que os 30 jogos espanhóis não revelam sozinhos

A interpretação dominante posiciona a Espanha como favorita natural ao título em 2026. O argumento tem sustentação: campeã europeia, elenco jovem encabeçado por Lamine Yamal — apontado como um dos principais nomes da competição —, e um técnico que demonstrou capacidade de gestão de grupo ao longo de dois anos de resultados consistentes. O grupo H, com Cabo Verde, Arábia Saudita e Uruguai, oferece uma fase inicial administrável, embora o Uruguai de Marcelo Bielsa, mesmo com Ronald Araujo como dúvida para a estreia por distensão muscular, seja adversário de tradição e organização tática reconhecida. A estreia espanhola está marcada para 15 de junho, contra Cabo Verde, em Atlanta.

A contra-leitura, porém, exige atenção. Séries invictas longas são fenômenos que se alimentam, em parte, do calendário e da seleção de adversários. Dos 30 jogos espanhóis, quantos foram disputados contra seleções do nível de Alemanha, França ou Argentina em plena forma competitiva? A pergunta não é retórica — é metodológica. O Brasil de 1994 construiu sua série enfrentando rivais sul-americanos em eliminatórias e amistosos contra equipes de primeiro escalão. A Itália de 2006 incluiu confrontos europeus de alta intensidade no caminho. Avaliar a robustez de uma invencibilidade requer desagregar os resultados por nível de adversário, não apenas contabilizar partidas.

Há ainda a variável psicológica, que a sociologia do esporte trata como fator estrutural, não ornamental. Patrice Evra, ex-lateral do Manchester United e da Juventus — onde acumulou cinco títulos da Premier League e dois da Serie A italiana —, disse recentemente sobre Lamine Yamal:

"Desculpe, Lamine, eu te adoro. Gosto muito de você, te acho um craque no um contra um, mas no meu auge eu te comeria vivo. Pergunte ao Cristiano Ronaldo, pergunte ao Messi, pergunte a outros jogadores quando me enfrentaram. Eu não sou um bom amigo."
A declaração tem o tom provocativo que Evra cultiva publicamente, mas ela captura algo real: a Copa do Mundo produz adversários que não estão nos amistosos de preparação. A intensidade de eliminatória é qualitativamente diferente.

Quando a invencibilidade encontra a Copa — o que a história pesa

A síntese que a evidência histórica permite construir é incômoda para os dois lados do debate. Séries invictas longas antes de Copas do Mundo têm correlação positiva com desempenho no torneio — mas não determinam o resultado. O Brasil de 1994 ganhou. A Itália de 2006 ganhou. A França de Deschamps, que mantém o comando da seleção desde julho de 2012 e chegou a duas finais consecutivas (título em 2018, vice em 2022), não chegou a 30 jogos invictos em nenhum ciclo, mas construiu resultados através de consistência institucional, não de séries espetaculares.

A Espanha atual joga um futebol que lembra, na sua fluidez posicional, uma chuva fina de verão — constante, uniforme, que encharca o adversário antes que ele perceba a profundidade da inundação. Há uma horizontalidade no toque que dissolve linhas defensivas sem explosão aparente. Pedri e Oyarzabal funcionam como meias-sombras que aparecem nos espaços que os marcadores juram que fecharam. Esse estilo tem eficiência comprovada em 30 jogos — e tem, também, o risco de quem depende de espaços que adversários bem organizados se recusam a oferecer.

O Brasil de Ancelotti, que enfrenta Marrocos em 13 de junho em Nova Jersey — um adversário que sofreu apenas quatro gols em oito jogos no ano, com média de 0,5 por partida —, chegou à Copa sem a solidez defensiva que caracterizou as séries invictas históricas. A seleção brasileira foi vazada em todas as apresentações de 2026, sofrendo seis gols em quatro jogos. Internamente, segundo apuração do UOL, Ancelotti trabalha a ideia de que a Copa "começa" nas quartas de final, marcadas para 9 de julho — uma estratégia que pode ser leitura pragmática da competição ou racionalização de limitações reais.

Ronald Araujo, zagueiro do Barcelona e peça central do Uruguai de Bielsa no Grupo H, voltou a Montevidéu nesta terça-feira após tratamento em Madri para uma distensão muscular na panturrilha. Ele foi direto sobre sua situação:

"Não posso dizer se estarei pronto para a primeira partida. Não posso garantir. Mas darei tudo de mim para jogar nesta Copa do Mundo."
A ausência ou presença dele no jogo contra a Espanha, marcado para 26 de junho, pode alterar substancialmente a dinâmica do Grupo H — e testar, pela primeira vez no torneio, a invencibilidade espanhola contra um adversário de alto nível posicionado defensivamente.

Se a Espanha chegar às oitavas de final mantendo a série, enfrentará adversários que terão estudado 30 jogos de padrão tático muito definido. A questão que a história das invencibilidades pré-Copa coloca não é se a série é real — ela é. A questão é se 30 jogos sem derrota no tempo regulamentar, contra o espectro de adversários que a fase de grupos do Grupo H oferece, constituem preparação suficiente para o nível de pressão que uma semifinal ou final de Copa do Mundo impõe. O Brasil de 1994 tinha 35 jogos e Romário. A Itália de 2006 tinha 31 e Cannavaro. A Espanha de 2026 tem 30 e Lamine Yamal — e a série chegará ao seu teste mais severo precisamente quando o torneio decidir que é hora de cobrar a conta.

Se a Espanha vencer os três jogos da fase de grupos sem sofrer gol — algo que o nível atual da equipe torna plausível — e chegar às oitavas com 33 ou 34 partidas invictas no tempo regular, o que você acha que pesará mais no confronto de mata-mata: a força da série ou a identidade do adversário que vier pela frente?