40 anos. Esse é o intervalo exato entre a tarde em que Hugo Broos cruzou o gramado do Estádio Azteca como zagueiro da Bélgica, em 1986, e esta quinta-feira (11), quando ele voltou ao mesmo endereço — a 2.240 metros de altitude na Cidade do México — para comandar a seleção da África do Sul na partida de abertura da Copa do Mundo de 2026. O número não é apenas curiosidade biográfica: ele sintetiza uma trajetória de 56 anos no futebol, encerra um ciclo que começou em campo e termina no banco, e carrega o peso específico de uma derrota que Broos nunca esqueceu.

A derrota de 1986 que ficou guardada por quatro décadas

Naquele junho de 1986, o México de Hugo Sánchez recebeu a Bélgica na fase de grupos e venceu por 2 a 1. Broos era o zagueiro encarregado de conter o ataque mexicano diante de um Azteca em transe — o mesmo estádio que, naquela Copa, também abrigaria a final entre Argentina e Alemanha Ocidental, com Maradona no auge. A Bélgica acabou chegando às semifinais naquele torneio, mas a memória que ficou para Broos foi a do barulho ensurdecedor das arquibancadas mexicanas e da bola entrando em seu gol.

Reparemos no detalhe que torna esta abertura de Copa diferente de qualquer outra na história recente do torneio: o mesmo homem que perdeu neste estádio como atleta agora retorna como técnico do adversário, aos 74 anos, em sua última Copa antes da aposentadoria anunciada. "Nem em Hollywood escrevem roteiros melhores: disputei uma Copa do Mundo e agora, quatro décadas depois, voltarei a ser um dos treinadores da partida de abertura", disse Broos à AFP nos dias que antecederam a partida.

O Azteca recebe sua terceira Copa do Mundo — foi palco das edições de 1970 e 1986, sempre como sede do jogo inaugural e da final. Em 1970, o México avançou às quartas antes de ceder à Itália, vice-campeã derrotada pelo Brasil de Pelé. Em 1986, o mesmo roteiro: quartas de final, eliminação pela Alemanha Ocidental. Agora, em 2026, a arena de 85 mil lugares recebe novamente o pontapé inicial do torneio.

Como Broos construiu um time sul-africano para ir além da fase de grupos

A África do Sul não avança da fase de grupos desde 2010, quando foi sede da Copa e empatou com o México por 1 a 1 no Soccer City Stadium, em Joanesburgo — curiosamente, o mesmo adversário de agora. Broos assumiu o comando dos Bafana Bafana com a missão de quebrar esse ciclo, e sua preparação para este jogo revela a consciência de quem conhece o ambiente que vai enfrentar.

"Haverá 85 mil mexicanos gritando e cantando. Mas temos que focar no nosso jogo. E se conseguirmos fazer isso, se não nos deixarmos levar pelo barulho de 85 mil mexicanos, então faremos uma boa partida", declarou o técnico em entrevista coletiva antes da abertura.

Broos classificou o México como "a melhor equipe do Grupo A" e reconheceu que o rival chega ao torneio em momento excepcional: oito jogos em 2026 sem derrota, com seis vitórias e dois empates — contra Portugal e Bélgica, justamente — e uma goleada de 5 a 1 sobre a Sérvia no dia 4 de junho. O principal nome do El Tri é Santiago Giménez, 25 anos, que no início de 2025 deixou o Feyenoord pelo Milan por 30 milhões de euros. O México, classificado diretamente como país-sede ao lado de Estados Unidos e Canadá, joga os três jogos da fase de grupos em território próprio.

A estratégia de Broos para neutralizar esse ambiente lembra a de um corredor estreito que força o adversário a se dobrar para avançar — sem espaço para aceleração, sem oxigênio para o espetáculo. Compactar linhas, fechar os espaços centrais e apostar na transição rápida: a receita de quem sabe que não terá a bola a maior parte do tempo e não pretende fingir que terá.

O legado de um treinador de 74 anos que escolheu a Copa para se despedir

Esta Copa marca o encerramento de uma carreira que atravessou cinco décadas e dois continentes. Broos treinou clubes belgas, passou por Camarões — onde venceu a Copa Africana das Nações em 2017 — e chegou à África do Sul em 2021. Aos 74 anos, ele anunciou que se aposentará após o torneio.

"Completei 74 anos e chegou o momento de passar mais tempo com minha esposa, minhas duas filhas, meu filho e meus oito netos", afirmou o técnico.

Broos também se colocou contra a expansão da Copa para 48 seleções, formato adotado justamente nesta edição de 2026. "É um pouco exagerado quando se tem 48 países jogando", disse, citando o calendário pesado que aguarda sua equipe: após a abertura no Azteca, os Bafana Bafana ainda jogarão em Atlanta, nos Estados Unidos, e em Monterrey, no México. A África do Sul integra o Grupo A ao lado do México, e uma eventual passagem às oitavas de final seria o resultado mais expressivo da seleção desde a Copa em casa.

O jogo de abertura começou às 16h (horário de Brasília), após a cerimônia inaugural. Para Broos, a partida não é apenas o primeiro dos 104 jogos do torneio — que termina em 19 de julho, em New Jersey — mas o ponto final de uma história que começou como jogador neste mesmo gramado, quando a Bélgica perdeu por 2 a 1 e ele saiu derrotado. Quarenta anos depois, o roteiro ainda não estava escrito.