Se a Copa do Mundo de 2026 tivesse terminado no seu primeiro dia, o legado seria este: dois placares modestos, uma torcida que esperou três anos e meio, e a memória ainda fresca de Mbappé e Messi disputando palmo a palmo o título de melhor final do futebol moderno. O problema é que a Copa não terminou. Ela começou. E o começo foi duro de engolir.
Na quinta-feira (11), o Grupo A da Copa do Mundo estreou com México 2 x 0 África do Sul, no Estádio Azteca, e Coreia do Sul 2 x 1 Tchéquia, no Estádio Akron, em Guadalajara. Dois jogos, quatro gols, e uma sensação que qualquer habitante do trânsito da Avenida Paulista às 18h conhece bem: a espera foi maior do que a recompensa.
Os que saíram na frente e o que isso custou ao espetáculo
México e Coreia do Sul lideram o Grupo A com três pontos cada. Na teoria, é o melhor resultado possível para as duas seleções. Na prática, o caminho até esses pontos deixou marcas. O México, segundo analistas, apresenta seu pior elenco em quase três décadas — sem a geração de Chicharito, sem o brilho de Guardado, com uma equipe que venceu mais pelo vazio do adversário do que pelo próprio futebol.
A África do Sul, por sua vez, pareceu uma versão enxugada do Mamelodi Sundowns — clube que teve bons momentos no Mundial de Clubes — mas sem os reforços estrangeiros que dão qualidade ao time na liga doméstica. O resultado foi um jogo que, nas palavras de um colunista do UOL Esporte, "não fez justiça à nossa espera de três anos e meio".
"Com 48 seleções e 40 jogos a mais que os Mundiais anteriores — 104 contra 64 —, a quantidade de duelos ruins tende a aumentar. O calor também deve jogar contra o nível técnico", escreveu o colunista, antecipando o que pode ser o tom dominante da fase de grupos.
A virada coreana que salvou a noite em Guadalajara
O segundo jogo teve mais tensão — e ao menos uma jogada que justificou ficar acordado até de madrugada. A Coreia do Sul dominou a posse no primeiro tempo, com Son Heung-min e Lee Kang-in criando as melhores chances, mas esbarrou numa defesa tcheca organizada. O intervalo chegou com o 0 a 0 e a sensação de que o jogo precisava de um estopim.
O estopim veio do lado errado. Aos 14 minutos do segundo tempo, Ladislav Krejčí aproveitou um longo arremesso lateral para cabecear e abrir o placar para a Tchéquia. A vantagem durou oito minutos: Hwang In-beom recebeu dentro da área, driblou a marcação com maestria e finalizou no canto. Empate. Aos 35 minutos, o atacante Oh Hyeon-gyu — recém-entrado em campo — aproveitou uma jogada de pressão para marcar a virada, garantindo o 2 a 1 final.
A Tchéquia ainda chegou a balançar as redes em uma jogada aérea, mas o lance foi anulado por impedimento. A Seleção Brasileira, que estreia no sábado (13) contra o Marrocos às 19h, observou tudo de perto — e o aviso está dado sobre o estilo tcheco de bola parada.
Quem paga a conta do formato com 48 seleções
A expansão de 32 para 48 seleções foi aprovada pela FIFA em 2017 com o argumento de democratizar o futebol mundial. O resultado imediato são 40 jogos a mais — 104 no total contra os 64 de 2022 — e uma fase de grupos que inevitavelmente inclui confrontos entre seleções de nível técnico muito distante. A África do Sul e a Tchéquia, eliminadas ou ameaçadas já na primeira rodada, são os primeiros exemplos concretos desse efeito cascata.
A comparação com 2022 é inevitável e cruel. A final entre Argentina e França em Lusail — com três gols de Mbappé, dois de Messi, pênaltis, viradas e emoção até o último segundo — é hoje referência quando se fala em qualidade de Copa do Mundo. Chegar de lá para México 2 x 0 África do Sul é um contraste que nenhum argumento sobre democratização resolve facilmente.
"No fim das contas, o romantismo e a memória seletiva nos fazem driblar o fato de que a Copa do Mundo é pródiga em jogos ruins", ponderou o mesmo colunista, lembrando de um Bolívia 0 x 0 Coreia do Sul em 1994 tão ruim que o editor de melhores momentos não teve o que fazer nem no intervalo.
O efeito cascata nas próximas rodadas do Grupo A
A Tchéquia e a África do Sul chegam à segunda rodada já sob pressão. Para as duas, uma derrota na sequência praticamente encerra qualquer esperança de classificação — e é exatamente esse tipo de jogo, entre seleções desesperadas e tecnicamente limitadas, que tende a piorar o nível médio do torneio nas próximas semanas.
O Brasil, que acumula 76 vitórias em 114 jogos disputados em Copas — oito a mais que a segunda colocada Alemanha, com 68 triunfos em 112 partidas —, estreia neste sábado com a obrigação de mostrar que a expansão do torneio pode, sim, ter futebol de qualidade. O adversário, Marrocos, é uma das seleções africanas mais organizadas taticamente da competição e já eliminou o Brasil em amistoso em 2023. O jogo acontece às 19h e, para a Copa do Mundo de 2026, é a primeira chance real de apagar o gosto amargo da abertura.








