Cinquenta mil assinaturas. Esse é o número que o movimento #ExpulsãoJá apresentou ao Conselho Deliberativo do Corinthians na segunda-feira, 27 de abril, ao protocolar formalmente o requerimento que exige a expulsão e a perda do cargo vitalício do ex-presidente Andrés Sanchez. O documento não é protesto de arquibancada — é uma peça jurídica fundamentada na segunda denúncia do Ministério Público de São Paulo, que aponta ocultação, dissimulação e uso do cartão corporativo do clube para despesas estritamente pessoais, incluindo a compra de móveis residenciais e eletrodomésticos.
O que as investigações do MP-SP revelam
Há quem argumente que movimentos de torcida têm caráter meramente emocional e carecem de substância jurídica. O requerimento do #ExpulsãoJá derruba esse argumento com precisão. O documento está ancorado na segunda denúncia formal do MP-SP e detalha que as condutas de Andrés Sanchez configuram lesão direta ao patrimônio associativo do clube — não uma infração administrativa menor, mas um dano concreto ao acervo de 30 milhões de torcedores corinthianos. A distinção é relevante: enquanto críticas políticas internas são recorrentes em qualquer clube, denúncias criminais endossadas pelo Ministério Público elevam o nível de exigência sobre o Conselho Deliberativo, que passa a ter obrigação estatutária de dar resposta.
O requerimento conta com a chancela de aproximadamente 1.000 associados do Corinthians, o que lhe confere respaldo estatutário direto para forçar votação. O jornalista Juca Kfouri assina o documento, ao lado de Chico Malfitani, um dos fundadores dos Gaviões da Fiel, e de Sócrates Júnior, filho do ídolo que transformou o Timão num símbolo de democracia e transparência na gestão. A presença desses nomes não é cosmética — é uma declaração de que a cobrança transcende grupos político-partidários dentro do clube.
A amplitude de um movimento que saiu das arquibancadas
A capilaridade do #ExpulsãoJá é um dado que poucos movimentos de torcida conseguiram atingir no futebol brasileiro. O grupo possui núcleos articulados em oito estados — São Paulo, Alagoas, Ceará, Maranhão, Paraíba, Paraná, Minas Gerais e Bahia — e mantém mais de 15 coletivos de torcedores ativos em sete países. Daniel Cara, coordenador-honorário da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, e José Arbex Júnior, jornalista e doutor em história social, figuram entre os apoiadores formais, conferindo ao movimento uma dimensão que vai além da disputa interna entre facções corintianas.
"O requerimento detalha que as ações do ex-presidente configuram lesão direta ao patrimônio associativo", afirma o documento entregue ao Conselho Deliberativo, segundo informações apuradas pelo SportNavo.
A criação do movimento pelo Projeto Time do Povo teve como premissa explícita combater a impunidade dentro do Sport Club Corinthians Paulista. O foco em impunidade é estratégico: ao enquadrar o caso como questão institucional — e não como disputa pessoal contra Andrés Sanchez — o grupo amplifica o apelo e torna politicamente mais custoso para os conselheiros arquivarem a demanda sem votação.
O peso político dentro do Conselho Deliberativo
A análise do SportNavo mostra que o Conselho Deliberativo do Corinthians enfrenta um dilema de governança que vai além do mérito das acusações. Com 1.000 associados assinando o requerimento — número suficiente para cumprir os requisitos estatutários —, qualquer tentativa de suprimir a votação transforma o próprio Conselho em objeto de questionamento. O grupo exige que a votação seja aberta, o que significa que cada conselheiro ficará registrado publicamente como favorável ou contrário à expulsão de um dirigente investigado pelo MP-SP.
Quem defende Andrés Sanchez costuma argumentar que ele foi o responsável por montar o elenco campeão paulista de 2009 e pelo acesso a conquistas históricas do clube. O argumento tem peso sentimental, mas não jurídico. A legislação associativa brasileira e o próprio estatuto do Corinthians estabelecem que atos lesivos ao patrimônio do clube constituem causa independente de mérito esportivo — exatamente o que as investigações do MP-SP apontam. Construir pontes entre passado glorioso e presente investigado não apaga débito contábil nem arquivo criminal.
Os próximos passos e o que o Conselho não pode ignorar
Com o requerimento protocolado em 27 de abril, o Conselho Deliberativo do Corinthians tem agora prazo regimental para pautar a votação. O movimento #ExpulsãoJá exige que o processo seja conduzido em sessão aberta, com o registro nominal de cada voto. Fernando Braga, mestre em psicologia social e um dos apoiadores formais, e o geógrafo Elias Jabbour integram a lista de signatários que monitorarão a resposta institucional do clube.
"Apoiado por nomes de peso e com abrangência nacional e internacional", o grupo formalizou a denúncia contra Andrés Sanchez baseada nas investigações do MP-SP e exigiu votação aberta no Conselho, conforme comunicado oficial do movimento.
O Corinthians atravessa um momento em que a credibilidade institucional está em disputa direta com o passado de má gestão financeira — o clube acumula dívidas que ultrapassam 1 bilhão de reais. Nesse contexto, a resposta do Conselho Deliberativo ao requerimento do #ExpulsãoJá será o primeiro teste concreto de 2025 para medir se a governança corintiana é capaz de separar lealdade histórica de responsabilidade legal. A votação, quando pautada, não vai absolver nem condenar Andrés Sanchez no campo jurídico — mas vai revelar publicamente onde cada conselheiro se posiciona diante de investigações do Ministério Público.








