52 anos. Esse é o intervalo que separa o primeiro cartão vermelho físico da história das Copas do Mundo, dado ao chileno Carlos Caszely em 14 de junho de 1974, do momento em que o volante sul-africano Sphephelo Sithole viu o árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio erguer o cartão no Estádio Azteca, nesta quinta-feira (11), na estreia da Copa do Mundo de 2026. A partida entre México e África do Sul reservou ao torneio seu primeiro gol — marcado pelo atacante Quiñones, aos 8 minutos do primeiro tempo — e sua primeira expulsão, no início da segunda etapa.

Sithole cometeu falta sobre Brian Gutiérrez sendo o último homem da defesa sul-africana, o que enquadrou a infração na regra de expulsão direta. Sem possibilidade de recurso ao amarelo, Sampaio não hesitou. A África do Sul passou a maior parte do segundo tempo com dez jogadores, o que comprometeu qualquer reação possível contra os anfitriões.

De um semáforo em Londres à linguagem universal do futebol

A cena do Azteca não existiria sem um momento de trânsito em Londres, décadas atrás. O árbitro inglês Ken Aston, responsável pelos juízes na Copa de 1966, estava ao volante quando um semáforo fechou e a ideia surgiu.

"Eu pensei: 'amarelo', pega leve; 'vermelho', pare, você está fora", contou Aston à FIFA.
A inspiração veio depois do caos protagonizado pelas quartas de final entre Argentina e Inglaterra em Wembley, quando o árbitro alemão Rudolf Kreitlein expulsou o capitão argentino Antonio Rattín sem que ninguém no campo entendesse claramente o que havia acontecido. Kreitlein precisou de escolta policial para deixar o gramado.

A proposta de Aston era elegante na sua simplicidade: usar o mesmo código cromático dos semáforos tornaria a comunicação independente de idioma — uma solução de design que funciona como uma partitura musical, lida da mesma forma em qualquer país do mundo. A FIFA adotou o sistema oficialmente na Copa de 1970, no México. Curiosamente, nenhum cartão vermelho foi mostrado naquela edição. O primeiro vermelho físico só viria quatro anos depois.

Caszely e o lance que virou marco histórico em 1974

Em 14 de junho de 1974, durante a partida entre Chile e Alemanha Ocidental pela fase de grupos, o meia-atacante Carlos Caszely cometeu uma falta por volta dos 22 minutos do primeiro tempo. O árbitro turco Doğan Babacan tirou do bolso o cartão vermelho — o primeiro a ser mostrado fisicamente em toda a história das Copas. O resultado do jogo, vitória alemã por 1 a 0, ficou em segundo plano diante do registro histórico. Expulsões já haviam ocorrido antes, como a de Rattín em 1966, mas sempre de forma verbal, sem o gesto visual que passaria a definir a era moderna do futebol.

Decidiu. A partir daquele 14 de junho, o cartão vermelho tornou-se o símbolo mais reconhecível da autoridade arbitral no esporte mais popular do planeta.

Desde Caszely, a lista de expulsões em Copas acumulou episódios que marcaram gerações. O zagueiro argentino Pedro Monzón foi o primeiro expulso em uma final, em 1990. O camaronês Rigobert Song tornou-se o primeiro jogador a receber dois vermelhos em Copas diferentes — em 1994 e 1998 —, feito repetido por Zinédine Zidane, que foi expulso em 1998 e protagonizou a cena mais icônica de 2006, quando deu uma cabeçada no italiano Marco Materazzi na final contra a Itália. Apenas dois goleiros foram expulsos em toda a história do torneio: Pagliuca (Itália, 1994) e Khune (África do Sul, 2010).

2006 segue como o pico das expulsões, com 28 cartões vermelhos

Os dados históricos, registrados pelo SportNavo com base nos arquivos oficiais da FIFA, mostram que a Copa de 2006, na Alemanha, permanece como a edição mais indisciplinada de todos os tempos: 28 cartões vermelhos distribuídos ao longo do torneio. A marca é significativamente superior à segunda colocada, a Copa da França em 1998, que registrou 22 expulsões. O ranking completo das edições com mais cartões vermelhos evidencia uma tendência de queda nas últimas décadas:

  • Alemanha 2006: 28 vermelhos
  • França 1998: 22 vermelhos
  • Coreia/Japão 2002 e África do Sul 2010: 17 vermelhos cada
  • Itália 1990: 16 vermelhos
  • Estados Unidos 1994: 15 vermelhos
  • Brasil 2014: 10 vermelhos

No recorte por seleções, o Brasil lidera o total histórico com 11 expulsões em 21 Copas disputadas. A Argentina aparece em segundo, com 10 vermelhos em 16 participações, e o Uruguai em terceiro, com 9 em 12 edições. O caso mais extremo, porém, pertence a Camarões: a seleção africana acumula mais expulsões do que participações, com 8 vermelhos em 7 Copas — índice que nenhum outro país alcançou.

A Copa de 2026, com 104 jogos no total — distribuídos entre Estados Unidos, México e Canadá —, tem capacidade aritmética para superar qualquer marca anterior. Com a estreia já marcada pela expulsão de Sithole, a África do Sul terá de reorganizar seu sistema defensivo para os próximos compromissos da fase de grupos, enquanto o México segue com a vantagem de jogar em casa, diante de uma torcida que lotou o Azteca no primeiro dia do torneio.