Seiscentas mil pessoas tomaram as ruas de Buenos Aires num único domingo para ver Franco Colapinto acelerar um carro de Fórmula 1. O número não é de uma corrida oficial — é de uma demonstração. Para efeito de comparação, o GP do Mônaco, uma das etapas mais badaladas do circuito mundial, atrai em torno de 200 mil espectadores ao longo de todo o final de semana. A Argentina, ausente do calendário da F1 há quase três décadas, entregou em poucas horas o que muitos promotores de GP levam anos tentando construir: uma audiência genuína e apaixonada.
O menino que parou Buenos Aires
Franco Colapinto completou 22 anos em 2024, o mesmo ano em que fez sua estreia na Fórmula 1 com a Williams, substituindo Logan Sargeant a partir do GP da Itália em Monza. Em dez largadas, marcou pontos em quatro oportunidades e acumulou mais de 5 milhões de seguidores nas redes sociais em questão de semanas — crescimento que rivalizou com o de pilotos estabelecidos como Lando Norris no início de suas carreiras. Em 2025, migrou para a Alpine, reforçando sua presença no grid e consolidando o status de fenômeno cultural que vai muito além do automobilismo. Nas palavras do próprio piloto durante o evento em Buenos Aires,
"Nunca imaginei ver algo assim. Isso é maior do que qualquer coisa que já vivi dentro de um cockpit."
A demonstração percorreu avenidas do centro portenho com Colapinto ao volante de um carro da Alpine com especificação próxima à de corrida. A transmissão ao vivo nas plataformas digitais atingiu picos de audiência superiores a 1,2 milhão de espectadores simultâneos, segundo dados divulgados pelos organizadores, transformando o domingo em um happening nacional.
Quase 30 anos de silêncio no Autódromo Oscar Gálvez
A última vez que a Fórmula 1 disputou um Grande Prêmio na Argentina foi em 1998, no Autódromo Oscar Alfredo Gálvez, em Buenos Aires. Damon Hill venceu aquela corrida, que era a décima sexta edição do GP argentino na história da categoria. Nos anos seguintes, a combinação de instabilidade econômica do país — que culminou na crise de 2001 — e o aumento progressivo das taxas de hospedagem cobradas pela FOM (Formula One Management) para aceitar um evento no calendário inviabilizaram qualquer negociação consistente.
O custo para sediar um GP da F1 atualmente gira em torno de 50 a 70 milhões de dólares por ano em direitos de realização, valor que pode chegar a 100 milhões em contratos de longa duração para circuitos novos, como foi o caso do GP de Las Vegas. A Argentina, com infraestrutura desatualizada no Gálvez e sem um patrocinador governamental ou privado de peso para bancar o projeto, ficou décadas observando de longe. Segundo apuração do SportNavo junto a fontes do paddock europeu, negociações informais ocorreram ao menos três vezes entre 2010 e 2020, mas nenhuma chegou à fase de proposta formal à FOM.
O que precisa acontecer para a F1 voltar
A demanda existe — 600 mil pessoas numa tarde provam isso melhor do que qualquer pesquisa de mercado. O que falta é estrutura e contrato. O Autódromo Oscar Gálvez, homologado pela FIA na Grau 2, precisaria de reforma para atingir o Grau 1, obrigatório para corridas da Fórmula 1. Obras de expansão dos boxes, atualização dos sistemas de segurança de barreira e ampliação das instalações de mídia são os principais pontos levantados por inspetores técnicos em visitas realizadas nos últimos dois anos. A estimativa preliminar para modernizar o circuito é de 80 a 120 milhões de dólares em investimento de capital.
Do lado político, o governo argentino tem sinalizado interesse desde que Colapinto emergiu como protagonista. O presidente Javier Milei chegou a recebê-lo em reunião oficial em outubro de 2024, numa demonstração pública de apoio que não acontecia com um piloto de automobilismo argentino desde os dias de Juan Manuel Fangio.
"Colapinto representa o que a Argentina pode ser quando aposta nos seus talentos", declarou o chefe de estado no encontro, frase que circulou amplamente na imprensa esportiva latino-americana.
A análise do SportNavo aponta que a janela mais realista para um retorno ao calendário seria entre 2027 e 2028, considerando que a FOM já tem compromissos fechados até 2026 com 24 etapas por temporada. Um GP argentino substituiria ou rotacionaria com outra corrida da região — o GP do Brasil, em Interlagos, seria o candidato natural a ceder um slot em anos alternados, modelo já adotado com sucesso entre Bahrain e Arábia Saudita no Oriente Médio.
Colapinto como ativo comercial e a pressão sobre a FOM
A Fórmula 1 aprendeu com o efeito Lewis Hamilton no Reino Unido, com o fenômeno Max Verstappen na Holanda — que transformou Zandvoort numa das etapas mais lucrativas do calendário — e com o impacto da série Drive to Survive nos Estados Unidos. Pilotos locais vendem ingressos. Colapinto, com base de fãs estimada em 8 milhões de seguidores combinados nas redes sociais até meados de 2025, é exatamente o tipo de ativo que a Liberty Media, controladora da F1, sabe monetizar.
A pressão comercial sobre Stefano Domenicali, CEO da Fórmula 1, para incluir Buenos Aires no roteiro cresce a cada demonstração pública de Colapinto. A próxima etapa concreta é a apresentação formal de uma candidatura pelo governo argentino, com projeto de reforma do Gálvez e modelo de financiamento, prevista para o segundo semestre de 2025 segundo fontes ligadas ao automobilismo sul-americano. Se o dossiê for entregue dentro do prazo, a FOM deverá avaliar a proposta até o final do ano, definindo se a Argentina entra na fila de candidatos para o calendário de 2027.








