O México é invencível em casa e incapaz de sobreviver fora dela. Esse paradoxo define, com precisão cirúrgica, a relação mais estranha do futebol mundial: sete jogos disputados no Estádio Azteca em Copas do Mundo, cinco vitórias e dois empates, zero derrotas — e duas eliminações consecutivas tão logo o time deixou a Cidade do México. Nesta quinta-feira (11), às 16h (de Brasília), o ciclo se reinicia contra a África do Sul, na abertura oficial da Copa do Mundo de 2026.

O número que a história não consegue apagar

Cinco vitórias, dois empates, zero derrotas — e ainda assim, eliminado duas vezes.

Em 1970, o México estreou no Azteca empatando sem gols com a União Soviética, depois goleou El Salvador por 4 a 0 e bateu a Bélgica por 1 a 0. Três jogos, três resultados positivos, a torcida em êxtase. Na quarta partida, a seleção viajou a Toluca para as quartas de final e foi derrotada pela Itália. Fim de campanha.

Dezesseis anos depois, o roteiro ganhou requinte dramático. Em 1986, o México produziu sua melhor campanha histórica em Mundiais: bateu a Bélgica (2 a 1) e o Iraque (1 a 0), empatou com o Paraguai (1 a 1) na fase de grupos, avançou às oitavas eliminando a Bulgária por 2 a 0 — tudo no Azteca. No quinto jogo, em Monterrey, a Alemanha Ocidental venceu nos pênaltis e encerrou o sonho. A estatística que ficou: quatro jogos em casa, quatro resultados positivos; um jogo fora, eliminação. A chamada "maldição do quinto jogo" estava batizada.

Por que o Azteca transforma o México numa seleção diferente

A 2.240 metros de altitude, o estádio não é apenas um endereço — é uma vantagem competitiva mensurável.

O presidente da FIFA, Gianni Infantino, chamou o Azteca de "catedral" do esporte, e a metáfora não é gratuita. A altitude da Cidade do México impõe a visitantes uma adaptação fisiológica que leva entre 10 e 14 dias para se completar — tempo que seleções em fase de grupos raramente têm. O ar rarefeito reduz a capacidade aeróbica em até 10%, penalizando equipes que dependem de pressão alta e transições rápidas. Para o México, que treina no local, o efeito é nulo.

O técnico Javier Aguirre, que viveu a Copa de 1986 como jogador da própria seleção, conhece essa equação de dentro. Na véspera da partida contra a África do Sul, ele foi direto ao ponto:

"Passe o que passe, nossa torcida estará conosco. Vai ser uma festa que vai durar por muitas décadas. Espero que comecemos com o pé direito, que demonstremos nossa maneira de jogar. Sabemos que pode ser um dia histórico. A vida mostra que dificilmente esses jogadores viverão isso de novo."

O goleiro Guillermo Ochoa, que disputa sua sexta Copa do Mundo na carreira — marca raríssima no futebol mundial —, representa a memória viva dessa relação com o estádio. Aos 40 anos, Ochoa já defendeu o México em três continentes diferentes em Mundiais, mas nunca levantou uma taça. O Azteca pode ser sua última chance de ao menos avançar além das quartas de final, barreira que a seleção mexicana nunca superou em nenhuma edição do torneio.

A tabela de 2026 e o momento em que a maldição será testada de novo

A FIFA, sem querer, montou exatamente o mesmo teste que eliminou o México em 1970 e 1986.

A programação da fase de grupos oferece ao México um alívio parcial: além da abertura contra a África do Sul, a seleção anfitriã recebe a República Tcheca no Azteca. Apenas o terceiro jogo, contra a Coreia do Sul, será disputado fora — em Guadalajara. Se o México terminar como líder do grupo, retorna à Cidade do México para enfrentar um dos melhores terceiros colocados nas oitavas de final.

A aritmética, porém, cobra seu preço a partir das quartas. Se avançar, o sexto jogo será disputado nos Estados Unidos, país co-sede do torneio. É exatamente aí que a maldição encontra seu novo endereço: não mais Toluca ou Monterrey, mas algum estádio americano a centenas de quilômetros do Azteca. A estrutura do problema permanece idêntica à de 1970 e 1986 — o México precisará vencer longe de sua fortaleza para fazer história.

A África do Sul, adversária desta quinta-feira, chega ao duelo em situação oposta: é sua estreia absoluta em uma Copa do Mundo realizada fora do continente africano, já que em 2010 foi sede. A seleção sul-africana, treinada pelo belga Hugo Broos — que, por ironia, jogou pela Bélgica no Azteca em 1986 e foi derrotado pelo México —, não tem o peso da altitude a seu favor e precisará superar uma das atmosferas mais intimidadoras do futebol mundial para causar a surpresa inaugural do torneio, conforme registrado pelo SportNavo nas semanas que antecederam o Mundial.

Se o México vencer hoje e repetir o histórico de 1970 e 1986, chegará às oitavas com a invencibilidade no Azteca intacta. A diferença desta edição é que a tabela permite ao time de Aguirre disputar as oitavas ainda na Cidade do México — o que significaria, pela primeira vez desde 1986, uma quinta partida em casa. Caso avance, o duelo das quartas de final está marcado para os Estados Unidos, provavelmente em julho. É o mesmo cenário que a geração de 1986 viveu em Monterrey — só que agora a aposta é chegar lá com um jogo a mais de Azteca nas pernas.