Não, o futebol feminino não está crescendo. Ele já cresceu. O que os dados da Bilheteria Digital revelaram para os amistosos da Seleção Brasileira Feminina contra os Estados Unidos não é tendência — é realidade consolidada: 75% dos ingressos vendidos em São Paulo foram comprados por mulheres. Em Fortaleza, palco do segundo confronto nesta terça-feira (9), o índice chegou a 68%. Quem ainda discute se o futebol feminino tem público está, literalmente, olhando para os números errados.

Os números que redesenham o perfil dos estádios brasileiros

A Neo Química Arena recebeu, no último sábado (6), um jogo que terminou 2 a 1 para o Brasil — e cujas arquibancadas foram preenchidas majoritariamente por mulheres. Em São Paulo, apenas 25% das compras vieram de homens. A inversão histórica do perfil do torcedor de futebol, que por décadas foi associado quase exclusivamente ao universo masculino, se materializa aqui em forma de dado concreto, não de discurso.

Em Fortaleza, o recorte geográfico é igualmente revelador: 79% dos ingressos foram adquiridos por moradores do Ceará, evidenciando que o interesse não migrou apenas por causa da Seleção, mas nasceu do próprio tecido local. Já na capital paulista, 56% das compras partiram de torcedores do próprio estado, com presença significativa de visitantes de outras regiões — um padrão que lembra o comportamento de grandes finais do futebol masculino, quando a mobilização ultrapassa fronteiras estaduais.

Guilherme Feldman, CEO da Bilheteria Digital, resumiu o momento com precisão:

"Estamos falando de uma modalidade que mobiliza torcedores, impulsiona deslocamentos entre cidades e atrai um público majoritariamente feminino. Nosso papel é garantir uma jornada simples, segura e eficiente para que a experiência do torcedor esteja à altura da importância desses confrontos e do momento que o futebol feminino vive no Brasil."

O que explica o protagonismo feminino nas bilheterias

Para entender por que as mulheres lideram as compras, é necessário olhar além do óbvio da identificação de gênero. A Seleção Brasileira Feminina construiu, ao longo dos últimos 20 anos, uma narrativa de resistência que ressoa de forma particular. A geração de Marta, seis vezes eleita melhor jogadora do mundo pela FIFA, pavimentou um caminho que hoje sustenta nomes como Adriana, Gabi Portilho e Priscila. Não há casualidade: há acúmulo histórico.

A Copa do Mundo Feminina de 2027, que o Brasil sediará, funciona como catalisador desse movimento. Diferente de 2014, quando o Brasil recebeu o torneio masculino com a pressão paralisante do favoritismo, a edição feminina chega num momento de construção — o que, paradoxalmente, libera o torcedor para comparecer com entusiasmo e não com ansiedade. Não há tragédia: há contabilidade. E as planilhas das bilheterias mostram superávit.

Os dados de Fortaleza também revelam algo sobre a capilaridade do futebol feminino fora do eixo Rio-São Paulo. O Nordeste, historicamente associado ao futebol masculino de clubes como Fortaleza e Ceará, responde agora com força própria quando a Seleção Feminina bate à porta. Os 79% de cearenses no público do segundo amistoso não são coincidência — são o resultado de anos de investimento da CBF em levar jogos da Seleção para além das capitais tradicionais.

Os fatores que estruturam esse novo público

  • Identificação geracional: meninas que cresceram assistindo à Marta agora compram ingresso por conta própria.
  • Campanha da Copa 2027: o torneio no Brasil criou urgência e pertencimento — o público quer fazer parte da história.
  • Acessibilidade digital: plataformas como a Bilheteria Digital reduziram barreiras de compra, favorecendo um público que historicamente tinha menos presença nas filas físicas.
  • Resultado esportivo: o Brasil vencer os EUA por 2 a 1 em São Paulo — uma das seleções mais vitoriosas da história, com 4 títulos mundiais — alimenta o ciclo de interesse.

O que esses ingressos representam para a Copa do Mundo Feminina de 2027

A Copa do Mundo Feminina de 2027 será o maior evento esportivo feminino já realizado no Brasil. Os amistosos desta semana funcionam como laboratório — e o experimento deu resultado. A CBF e seus parceiros de bilheteria já têm dados suficientes para calibrar estratégias de comunicação, precificação e distribuição geográfica para o torneio.

Conforme registrado pelo SportNavo ao longo da cobertura desta Data FIFA, a presença massiva de mulheres nas bilheterias não é um fenômeno isolado — ela se encaixa numa tendência global que a FIFA identificou nos últimos dois Mundiais Femininos, em França (2019) e Austrália/Nova Zelândia (2023), ambos com recordes de audiência e público. O Brasil, agora como sede, tem a obrigação — e a oportunidade — de elevar esse padrão.

O segundo amistoso entre Brasil e Estados Unidos acontece nesta terça-feira (9), na Arena Castelão, em Fortaleza, com início previsto para às 20h (horário de Brasília). A Seleção Brasileira Feminina entra em campo já classificada para a Copa do Mundo de 2027 como país-sede, mas com a missão de usar esses jogos para afinar o time que vai disputar o torneio daqui a pouco mais de um ano — diante de um público que, como os números mostram, já reservou seu lugar.