— Meu pai jurava que Milla era o mais velho que ia ver numa Copa. Que ninguém chegaria aos 42 com bola no pé.
— E chegou alguém?
— Não. Mas agora tem oito caras com quarenta anos ou mais em campo. Oito.
Esse diálogo, repetido em bares de São Paulo a Porto Alegre nesta semana de abertura do torneio, resume a ruptura estatística que a Copa do Mundo de 2026 representa. Oito jogadores com 40 anos ou mais foram convocados para o Mundial sediado por Canadá, México e Estados Unidos — número que supera, sozinho, o total acumulado nas 22 edições anteriores do torneio, que registraram apenas sete atletas nessa faixa etária combinados. Não é tendência: é anomalia histórica.
O grupo dos oito e o peso de cada convocação
A lista dos quarentões desta edição combina perfis radicalmente distintos. O mais velho de todos é o goleiro escocês Craig Gordon, de 43 anos — caso entre em campo, será o segundo jogador mais velho a disputar uma Copa, atrás somente do egípcio Essam El Hadary, que tinha 45 anos quando defendeu o Egito contra a Arábia Saudita em Volgogrado, em 2018. Gordon, porém, deve começar como reserva do titular Angus Gunn, o que torna sua participação efetiva incerta.
Entre os goleiros veteranos convocados figuram ainda Manuel Neuer — campeão mundial com a Alemanha em 2014, em Maracanã, com a virada épica sobre a Argentina na prorrogação —, o uruguaio Fernando Muslera, que completou 40 anos um dia antes da estreia do Uruguai diante da Arábia Saudita em Miami, e Vozinha, arqueiro de Cabo Verde, seleção estreante em Mundiais. O histórico de goleiros longevos em Copas tem raízes antigas: dos sete atletas acima de 40 anos registrados em todas as edições anteriores, seis eram justamente goleiros, posição que historicamente tolera o envelhecimento muscular melhor do que qualquer outra.
Nos jogadores de linha, o cenário muda de patamar. Cristiano Ronaldo, 41 anos, é o mais velho entre os atletas de campo. Luka Modrić, 40 anos, é o maestro da Croácia. Edin Džeko, também 40, carrega a Bósnia como referência ofensiva. E Guillermo Ochoa, goleiro mexicano de 40 anos, soma sua sexta participação em Mundiais — igualando Ronaldo e Lionel Messi, que completará 39 anos ainda neste mês de junho.
A tese dominante — e a contra-leitura que ela ignora
A narrativa mais difundida sobre esses veteranos é a da experiência insubstituível. Roberto Martínez, técnico de Portugal, foi direto ao sintetizar o valor de Ronaldo no grupo:
"Poucos viveram o que ele viveu pelo número de partidas decisivas que disputou ao longo da carreira. Ele também traz uma experiência em momentos decisivos que ninguém mais no elenco consegue igualar."
O argumento tem respaldo empírico. Modrić, por exemplo, foi o motor da Croácia que chegou à final de 2018, na Rússia, e ao terceiro lugar em 2022, no Catar — campanha em que ele mesmo, já com 37 anos, foi eleito para o time ideal do torneio pela FIFA. Ronaldo, por sua vez, acumula oito gols em Copas do Mundo ao longo de cinco edições, tendo marcado em todas elas de 2006 a 2022.
A contra-leitura, porém, existe e precisa ser pesada. Nas décadas de 1980 e 1990, a presença de veteranos em Copas era muito mais rara e, quando ocorria, quase sempre em funções secundárias. Comparando: na Copa de 1990, na Itália — torneio que reuniu a geração de ouro de Alemanha, Argentina e Brasil —, o jogador de linha mais velho em campo foi o irlandês Mick McCarthy, com 31 anos. Nenhum atleta de campo com mais de 38 anos disputou uma partida sequer naquele Mundial. A longevidade que Ronaldo e Modrić exibem hoje é produto de uma revolução na ciência do esporte que simplesmente não existia há 35 anos: monitoramento de carga por GPS, nutrição personalizada por bioquímica individual e recuperação acelerada por crioterapia e câmaras hiperbáricas.
Isso, contudo, não apaga a contra-evidência física: em clubes, tanto Ronaldo quanto Modrić — este último no Real Madrid, onde encerrou contrato — passaram temporadas 2024/2025 com participações irregulares, dividindo espaço com jogadores mais jovens e mais explosivos. A questão não é se eles têm experiência. É se o corpo sustenta 90 minutos a cada três dias num torneio de mata-mata.

O fantasma de Milla e quem pode assombrá-lo
Há um número que paira sobre todos esses veteranos como um teto de vidro: 42. Foi com essa idade que Roger Milla — atacante camaronês convocado a pedido do próprio presidente Paul Biya — marcou diante da Rússia na fase de grupos da Copa de 1994, nos Estados Unidos, tornando-se o jogador mais velho a balançar as redes em um Mundial. O recorde resistiu por 32 anos. Nenhum dos oito convocados desta edição chegará a 42 anos durante o torneio — Gordon tem 43, mas é goleiro —, de modo que o feito de Milla permanecerá intacto em 2026.
O que está em disputa é uma categoria diferente: quem será o jogador de linha mais velho a marcar nesta edição. Ronaldo, com 41 anos e dois meses no início do torneio, é o candidato mais óbvio — e tem histórico para sustentar a candidatura. Ele marcou em 2022, no Catar, contra Gana, aos 37 anos, tornando-se o primeiro jogador a marcar em cinco edições diferentes de Copa do Mundo. Um gol agora, na sexta, seria estatisticamente sem precedente para um atleta de campo.
Modrić, por sua vez, não é artilheiro por natureza — acumula apenas dois gols em Copas, ambos em 2022 —, mas sua função como organizador de jogo o mantém relevante mesmo que o passe final pertença a outros. Džeko, historicamente o maior artilheiro da história da Bósnia com 65 gols em 122 jogos pela seleção, representa a última dança de um centroavante clássico que nunca disputou um Mundial em sua fase de auge, já que a Bósnia estreou em Copas apenas em 2014.
A síntese que emerge desses dados é menos romântica do que parece: a longevidade desses atletas é real, mensurável e historicamente inédita, mas não equivale automaticamente a protagonismo. Craig Gordon provavelmente não jogará. Muslera e Vozinha são reservas. Neuer entra em campo com uma lesão na panturrilha que atrasou sua preparação. O que sobra de concreto, conforme registrado por SportNavo ao longo do acompanhamento das convocações, são três nomes — Ronaldo, Modrić e Džeko — com capacidade demonstrada de influenciar partidas decisivas, num torneio que, a partir das oitavas de final, não perdoa nenhuma limitação física.
Ronaldo estreia com Portugal no Grupo F — adversários ainda a confirmar na fase inicial —, enquanto Modrić e a Croácia integram o Grupo L, onde enfrentam Inglaterra, entre outros. Džeko e a Bósnia fazem sua segunda Copa da história. Os três têm jogos marcados ainda nesta semana. Se um deles marcar, Roger Milla poderá dormir tranquilo: seu recorde sobrevive mais quatro anos. Se nenhum marcar, a história desses oito veteranos será bela — mas estatisticamente silenciosa.








