O nome estava bordado na camisa desde antes de ele nascer. Em junho de 1986, enquanto o México recebia a Copa do Mundo e o lateral Josimar marcava golaços que paravam o planeta, um militar cabo-verdiano chamado Zé Pedro assistia tudo aquilo com os olhos arregalados e uma certeza crescendo no peito: se o filho chegasse ao mundo naquele mês, levaria aquele nome. O bebê nasceu em 3 de junho de 1986, na ilha de São Vicente. Josimar José Évora Dias. O mundo conheceria esse homem, quarenta anos depois, como Vozinha — o goleiro que na segunda-feira, 16 de junho de 2026, fez a Espanha morder o gramado e sair sem gols da estreia da Copa do Mundo 2026.
A noite de 1986 que um pai nunca esqueceu
Zé Pedro não era um torcedor casual. Era o tipo de homem que guarda o nome dos jogadores, que lembra o placar, que sente o futebol como extensão da própria vida. E o Josimar da Seleção Brasileira de 86 tinha esse poder: lateral-direito com chute de atacante, autor de dois dos gols mais antológicos daquela Copa — contra a Irlanda do Norte e contra a Polônia, ambos de fora da área, ambos com uma precisão que desafiava a física. Nenhum lateral brasileiro havia chamado tanto a atenção do mundo desde os tempos de Carlos Alberto Torres, campeão em 70. Era esse o homem que Zé Pedro queria homenagear. E foi.

O próprio Josimar, hoje com 62 anos, só soube da história recentemente — e de um jeito que tem cara de roteiro de cinema. Ele estava no Pará, passando 40 dias no meio da floresta com o Instituto Josimar, realizando trabalho social em aldeias indígenas. Quando voltou à civilização, foi surpreendido pela repercussão do empate de Cabo Verde com a Espanha e pela revelação do nome do goleiro.

"Eu me sinto bastante orgulhoso e lisongeado com a homenagem, porque isso é a recompensa do nosso trabalho. Todo o meu esforço e trabalho não foi em vão. É uma grande emoção ser reconhecido e ter um nome gravado em um atleta de alto nível", disse o ex-lateral em entrevista ao Terra.
Josimar foi além. Declarou que Cabo Verde ganhou um torcedor brasileiro de carteirinha.
"Lógico, não resta uma dúvida. É a segunda equipe do meu coração. Eu torço e espero que eles cheguem na final junto com o Brasil", sentenciou.
O que Vozinha fez contra a Espanha que parou a internet
A cena se repetiu ao longo de 90 minutos: a Fúria chegava, Vozinha aparecia. Defesas com os pés, com as mãos, com o corpo — o goleiro cabo-verdiano foi a muralha que a Espanha de Yamal e Morata simplesmente não conseguiu transpor. O placar final de 0 a 0 no Grupo H da Copa do Mundo foi, na prática, uma vitória moral para a seleção de um arquipélago de 600 mil habitantes que estreava em sua primeira Copa do Mundo da história.
O impacto foi imediato e avassalador nas redes sociais. Antes do jogo, Vozinha tinha pouco mais de 50 mil seguidores no Instagram. Em menos de 24 horas após o apito final, esse número explodiu para 10 milhões — uma das escaladas mais rápidas já registradas por um atleta durante uma Copa do Mundo. Para efeito de comparação, jogadores que levaram anos construindo audiência viram Vozinha ultrapassá-los em uma única noite.
Mas a repercussão não ficou só no mundo digital. Rogério Ceni, atual técnico do Bahia e ídolo declarado de Vozinha, gravou um vídeo que o clube tricolor publicou nesta terça-feira, 16 de junho. A mensagem foi direta e carregada de afeto.
"Passando para deixar um grande abraço, parabenizá-lo por essa grande estreia em Copa do Mundo. Não só você, mas toda a seleção de Cabo Verde. Uma estreia histórica. Desejo sucesso para você hoje e sempre, saiba que o povo brasileiro gosta de você. Agradeço o carinho, pela citação como referência com o meu nome antes da estreia na Copa do Mundo. Mais sucesso para você e bora para a classificação!", disse Ceni no vídeo.
O que ainda falta para Vozinha e Cabo Verde escreverem história
Um empate com a Espanha abre portas, mas não garante passagem. Cabo Verde está no Grupo H ao lado da Fúria, do Marrocos e de mais um adversário — e a classificação para as oitavas de final exige ao menos mais um resultado positivo. A seleção comandada pelo técnico Bubista tem em Vozinha seu símbolo mais poderoso, mas o coletivo foi igualmente disciplinado: um bloco baixo, compacto, que sufocou os espanhóis e não deu espaço para a qualidade individual de Pedri ou Yamal se manifestar com liberdade.
Há, nessa história, uma simetria que o futebol raramente oferece tão redonda. Em 1986, Josimar entrou em campo como lateral da Seleção Brasileira e marcou gols que pararam o mundo. Quarenta anos depois, o homem que carrega seu nome entrou em campo como goleiro de Cabo Verde e fez defesas que pararam a Espanha. O pai Zé Pedro, o militar apaixonado por futebol que batizou o filho numa tarde de Copa do Mundo, não poderia ter imaginado que a homenagem um dia se tornaria, ela mesma, motivo de homenagem. Vozinha tem 40 anos — e a Copa do Mundo inteira pela frente.








