Quantas gerações de torcedores precisam crescer para que um jogador chegue à sua sexta Copa do Mundo? A pergunta parece retórica, mas os números respondem com frieza: Lionel Messi tinha 18 anos quando estreou na Alemanha em 2006, e Cristiano Ronaldo tinha 17 quando pisou no Japão e na Coreia do Sul em 2002. Duas décadas depois — mais do que a vida inteira de muitos atletas profissionais — os dois estão em campo nos Estados Unidos, no México e no Canadá, disputando o mesmo torneio que abriu suas carreiras.
A história não oferece paralelo masculino. Antes deles, apenas quatro jogadores haviam chegado a cinco Copas: o mexicano Carbajal, o alemão Lothar Matthäus, o também mexicano Rafa Márquez e o compatriota Andrés Guardado — este último ainda em atividade, mas sem convocação desde outubro de 2024. Messi e CR7 não só igualaram esse grupo; eles o ultrapassaram. São os primeiros homens a jogar seis edições do Mundial.
Os 27 jogos de Messi e o número que Klose teme
Ao entrar em campo como titular contra a Argélia na abertura da Copa de 2026, Messi atingiu a marca de 27 partidas disputadas em Mundiais, conforme registrado pelo SportNavo no início do torneio. O recorde anterior pertencia a Lothar Matthäus, com 25 jogos. Mais do que uma estatística de almanaque, o número revela uma constância que vai além do talento: é uma obra de engenharia física e mental sustentada por vinte anos sem interrupção relevante.
O argentino carrega ainda outra perseguição em aberto. Com 13 gols marcados em Mundiais, está a apenas quatro de superar Miroslav Klose, o alemão que lidera a lista histórica com 16 tentos — todos marcados entre 2002 e 2014. Messi vai completar 39 anos durante o torneio de 2026 e chega como capitão da Argentina campeã, defendendo o título conquistado no Catar em dezembro de 2022. A pressão é a mesma; a oportunidade, inédita.
"Duas décadas após sua estreia, o camisa 10 da Albiceleste chega a esta nova edição como o jogador com mais partidas disputadas na história das Copas do Mundo", destacou a CONMEBOL ao anunciar a participação do capitão argentino no torneio de 2026.
O percurso de Messi nessas seis edições traça uma curva dramática que qualquer roteirista invejaria. Em 2006, na Alemanha, era o prodígio que entrou como substituto e marcou contra a Sérvia e Montenegro. Em 2014, no Brasil, foi o artilheiro da Argentina e levou a equipe à final, perdida para a Alemanha de Klose na prorrogação. Em 2022, no Catar, fechou o ciclo com o título — e com o troféu de melhor jogador do torneio pela segunda vez na carreira, repetindo o prêmio de 2014.
CR7 e a Copa que ninguém esperava que ele chegasse
Cristiano Ronaldo trilhou caminho semelhante, embora com uma diferença de quatro anos na estreia. Nascido em 1985, o português disputou Coreia/Japão 2002 com apenas 17 anos e chegou a 2026 com cinco Copas no currículo — a última delas no Catar, onde Portugal foi eliminado nas quartas de final pelo Marrocos, em derrota por 1 a 0. A eliminação precoce aumentou a tensão em torno de sua presença em 2026, mas o jogador do Al-Nassr não abriu mão da sexta convocação.
Portugal está no Grupo F das Eliminatórias Europeias, ao lado de Hungria, Irlanda e Armênia — grupo que não ofereceu resistência suficiente para barrar a passagem. A seleção portuguesa classificou-se, e CR7 garantiu seu lugar no plantel. Ao contrário de Guardado, o único outro jogador com cinco Copas ainda em atividade que não foi convocado para 2026, Ronaldo não deixou espaço para dúvidas sobre sua presença.
"Messi e Cristiano Ronaldo podem se tornar os primeiros jogadores a jogar seis Copas do Mundo na história", antecipou a CNN Brasil quando a Argentina garantiu sua classificação após o empate entre Bolívia e Uruguai nas Eliminatórias Sul-Americanas.
O que a sexta Copa significa para a história do futebol masculino
Existe um contexto que os números não alcançam sem ajuda. O recorde absoluto de longevidade em Copas do Mundo — considerando todos os gêneros — pertence à brasileira Formiga, que disputou sete edições entre 1995 e 2019. Marta e a japonesa Homare Sawa também chegaram a seis Mundiais antes de Messi. O argentino, portanto, não reinventou a longevidade no futebol — ele a trouxe para o futebol masculino, onde as exigências físicas e a competitividade tornavam esse horizonte quase inimaginável.
A trajetória de Messi até 2026 foi pavimentada por uma sequência de títulos que transformou a Argentina na equipe dominante da última meia década. A conquista da Copa América de 2021, no Maracanã, encerrou um jejum de 28 anos sem títulos continentais. Vieram depois a Finalíssima de 2022 contra a Itália, o Mundial do Catar e mais um título continental na Copa América de 2024. São quatro troféus em quatro anos, todos com Messi como protagonista.
A sexta Copa não é um apêndice sentimental de uma carreira que já poderia ter encerrado. É uma candidatura real ao recorde de gols de Klose, à segunda estrela consecutiva da Argentina e ao posto de maior jogador da história de um torneio que, desde 1930, nunca viu ninguém fazer o que Messi está fazendo agora.
Messi entra em campo pela Argentina campeã. CR7 entra para provar que ainda pertence ao nível mais alto. Os dois juntos, pela última vez, numa Copa do Mundo.








