O setor mais ameaçado do elenco argentino tornou-se, em poucos dias, o mais disputado. Gonzalo Montiel chegou aos Estados Unidos carregando um desgarro no quadríceps esquerdo sofrido em partida do River Plate contra o Rosario Central, em meados de maio — menos de quatro semanas antes do início do Mundial. Nahuel Molina, seu concorrente direto, também arrastava uma lesão muscular contraída no Atlético de Madrid no trecho final da temporada europeia 2025/2026. Lionel Scaloni, então, tinha na lateral direita não uma solução, mas dois problemas. Não há tragédia: há contabilidade.

A virada começou a se desenhar no último treino realizado no campo do Sporting Kansas City. Pela primeira vez desde o desembarque da delegação em solo americano, Gonzalo Montiel e Nahuel Molina completaram todos os exercícios previstos na mesma intensidade do grupo — ao lado de Nico Paz, que se recuperava de um traumatismo no plato tibial da rodilla esquerda. Scaloni, antes da sessão, já havia sinalizado o que viria:

"No lateral derecho tenemos abundancia y podemos distribuir minutos"
, declarou o técnico em entrevista coletiva, numa frase que soou quase como um alívio disfarçado de estratégia.

O peso de um pênalti e o que ele representa como currículo

A história de Montiel com a seleção argentina tem uma cena que resiste ao tempo: foi ele quem converteu a cobrança decisiva na disputa de pênaltis contra a França, na final da Copa do Mundo de 2022, no Qatar. Aquele momento não apenas selou o tricampeonato mundial; consolidou o lateral do River Plate como figura de confiança dentro do grupo de Scaloni. Não é um detalhe sentimental — é capital simbólico que pesa em decisões de convocação. Quando o técnico se reuniu pessoalmente com Montiel para comunicar que sua permanência na lista dependia da evolução física, o gesto revelou tanto respeito quanto rigor: a mensagem foi clara, segundo fontes do corpo técnico, de que molestias ou falta de ritmo seriam critério eliminatório, independentemente do histórico.

Molina, por sua vez, construiu um perfil diferente. No Atlético de Madrid de Diego Simeone, o lateral desenvolveu uma leitura tática mais sofisticada do jogo posicional, com maior capacidade de pressão alta e saída de bola pelo lado direito. Nas últimas convocações antes do Mundial, Scaloni o tratou como titular na posição — dado que o próprio técnico confirmou ao descrevê-lo como "o titular no lateral direito se responder às exigências". A lesão, portanto, abriu uma janela para Montiel, mas não reconfigurou a hierarquia estabelecida.

O peso de um pênalti e o que ele representa como currículo Montiel treina com o
O peso de um pênalti e o que ele representa como currículo Montiel treina com o

A Copa de 2022 como espelho e como armadilha

Há um paralelo histórico que merece atenção. Na preparação para o Qatar, a Argentina também chegou à competição com incertezas físicas relevantes — Angel Di María, por exemplo, foi monitorado de perto nas semanas que antecederam o torneio. A gestão de Scaloni naquele ciclo estabeleceu um padrão: preservar o jogador nos amistosos preparatórios, expô-lo gradualmente e decidir pela titularidade apenas quando a resposta muscular fosse inequívoca. O amistoso contra a Islândia, marcado para o dia 17 de junho em Auburn, Alabama, cumpre exatamente essa função no ciclo atual — é o laboratório clínico antes do estreia oficial contra a Argélia, em Kansas City, no dia 16 de junho.

A diferença em relação a 2022 está no contexto de cobertura. Com a saída de Leonardo Balerdi por desgarro no sóleo direito, a Argentina perdeu uma peça que atuava como cobertura na linha defensiva. Scaloni já indicou que conta com Cristian Romero, Nicolás Otamendi, Lisandro Martínez e Facundo Medina para o setor central, mas a baixa de Balerdi acelerou a necessidade de definir o nome que completará o plantel de 26. Entre os candidatos externos ao grupo principal estão Agustín Giay e Nicolás Capaldo, ambos presentes nos amistosos preparatórios justamente como plano de contingência para o caso de Montiel ou Molina não reunirem condições plenas.

O que Scaloni realmente está avaliando

A questão tática subjacente à disputa entre os dois laterais não é trivial. Em matéria do SportNavo, já se discutiu como o esquema de Scaloni oscila entre um 4-4-2 com losango e variações de 4-3-3 dependendo do adversário. Nesse contexto, o perfil do lateral direito altera a geometria ofensiva da equipe: Molina, com maior capacidade de sobreposição e cruzamento, favorece um jogo mais vertical pelo corredor; Montiel, mais conservador na projeção, oferece maior solidez defensiva e libera o meia-direito para ocupar posições internas.

  • Molina — maior produção ofensiva, cruzamentos, pressão alta; histórico recente de titular na seleção
  • Montiel — equilíbrio defensivo, experiência em grandes jogos, referência emocional do grupo desde 2022
  • Giay / Capaldo — opções de emergência com passagens pelo ciclo, convocados para os amistosos preparatórios

O fator ritmo de jogo

Além do perfil tático, Scaloni enfrenta uma variável que nenhum dado estatístico resolve completamente: o ritmo competitivo. Molina encerrou a temporada do Atlético de Madrid em maio, com mais minutos acumulados na temporada 2025/2026 do que Montiel, que teve sua participação no River reduzida justamente pela lesão. Um jogador que chega ao Mundial sem partidas nos últimos 30 dias carrega um risco fisiológico real — não apenas de recidiva muscular, mas de tomada de decisão mais lenta, reação defensiva comprometida nos primeiros metros. Scaloni demonstrou, ao longo do ciclo, que não negocia esse tipo de risco quando tem alternativas disponíveis.

O amistoso contra a Islândia, portanto, não é apenas um teste de condicionamento físico: é o último exame antes de uma decisão que Scaloni já sinalizou que tomará com frieza clínica. Se Montiel responder bem aos minutos que o técnico prometeu distribuir, a Argentina chega ao duelo contra a Argélia com dois laterais direitos aptos — luxo raro em véspera de Copa do Mundo. Se a resposta muscular for insuficiente, Giay ou Capaldo entram na lista final e Molina assume a titularidade sem concorrência interna. A partida está marcada para o dia 17 de junho, em Auburn, e o nome que aparecer no time titular dirá mais sobre o estado físico de Montiel do que qualquer comunicado médico.