— Cara, o Paquetá jogou mal ontem.
— Mal? Quase fez um golaço de voleio no fim do primeiro tempo.
— Quase não conta. E tirou ele na hora que tava melhor...
Essa troca de mensagens entre torcedores do Flamengo resume bem o que ficou no ar depois do empate de 0 a 0 entre Brasil e Marrocos, no sábado (13). Mas agora, quem trouxe uma avaliação fundamentada sobre o desempenho dos rubro-negros na estreia da Copa do Mundo foi José Boto, diretor de futebol do clube. Em entrevista ao diário espanhol As, publicada nesta terça-feira (16), o português não fugiu do debate.
O que Boto disse sobre Paquetá no empate com o Marrocos
A avaliação de Boto foi direta. Para o dirigente, Lucas Paquetá não foi o único a render abaixo do esperado — toda a seleção carregou esse peso no primeiro jogo da competição.
"Acho que o Paquetá, assim como quase toda a seleção brasileira, teve uma atuação um pouco abaixo do esperado. Danilo entrou bem na partida, pois conseguiu conter o lado esquerdo do Marrocos, que era muito perigoso, e impediu o ataque por aquele lado. Essas são duas atuações que, embora não tenham sido excepcionais, acabaram sendo positivas", disse Boto ao As.
A leitura de Boto não é exatamente uma defesa apaixonada, mas também não é condenação. Ao situar Paquetá dentro de um contexto coletivo de rendimento abaixo, o diretor distribui a responsabilidade — e ao mesmo tempo reconhece que o camisa 20 não entregou o que se esperava de um dos líderes técnicos da seleção.
A contra-leitura — Paquetá cresceu quando Ancelotti o reposicionou
Aqui entra a tensão real da análise. A leitura dominante sobre Paquetá na partida contra o Marrocos é de um jogador nervoso, impreciso no passe e fora do posicionamento ideal. Mas há uma camada que essa narrativa simplifica demais.
O meia começou a partida caindo pelo lado direito do campo ofensivo, posição em que historicamente produz menos tanto no clube quanto na seleção. Nos dados de movimentação do próprio Flamengo ao longo da temporada europeia de 2025/2026, Paquetá acumula participações em gol preferencialmente pela meia-esquerda ou pela posição central. Quando Carlo Ancelotti o aproximou do corredor esquerdo ainda no primeiro tempo, o padrão mudou — o meia ganhou confiança, acelerou as trocas de passe e chegou a tentar um voleio de fora da área que por muito pouco não abriu o placar.
Como uma frente fria que se organiza no mar antes de chegar à costa, o crescimento de Paquetá precisava de tempo e espaço para se configurar — e foi exatamente quando esse padrão começou a emergir que o técnico optou pela substituição, aos 15 minutos do segundo tempo. A decisão técnica pode ter sido acertada para o jogo (o Brasil buscava pressionar), mas deixou sem resposta a pergunta sobre o que o meia entregaria se mantido em campo por mais 30 minutos no posicionamento correto.
O jornalista Pedro Paulo Catonho, do portal especializado em Flamengo, contextualizou com precisão esse movimento:
"Paquetá sentiu o peso da estreia. No início da partida, o meia estava caindo muito pelo lado direito, onde não se sente confortável, nem mesmo no Flamengo. Quando o técnico Carlo Ancelotti puxou o jogador mais para o meio e caindo pela esquerda, Paquetá cresceu no jogo. Infelizmente, quando o rubro-negro vivia o melhor momento na partida, acabou sacado."
Essa leitura confronta diretamente a simplificação de "atuação abaixo". Paquetá foi irregular — mas a irregularidade teve um gatilho identificável e uma resposta positiva dentro do próprio jogo.
O que o Flamengo espera de Paquetá e Danilo no restante da Copa
Do ponto de vista do clube, as avaliações de Boto carregam um peso duplo. O Flamengo cedeu dois jogadores ao torneio e monitora o desempenho de ambos não apenas pelo orgulho institucional, mas porque o nível de exposição em uma Copa do Mundo afeta diretamente o valor de mercado e o estado físico dos atletas no segundo semestre do Brasileirão 2026.
No caso de Danilo, a análise de Boto foi mais elogiosa. O lateral-direito entrou na etapa final, após um primeiro tempo difícil de toda a linha defensiva brasileira, e resolveu o problema pelo lado que o Marrocos havia escolhido para atacar com mais frequência. A contenção do corredor esquerdo marroquino — responsável por boa parte das combinações perigosas da equipe africana — foi creditada diretamente à entrada do defensor.
Para Paquetá, a Copa ainda oferece ao menos dois jogos na fase de grupos para que o meia reverta a impressão deixada pela estreia. O Brasil volta a campo nesta sexta-feira (19), às 21h30 (horário de Brasília), contra o Haiti, no Estádio Lincoln Financial Field, na Filadélfia. A partida, publicada nesta matéria do SportNavo, tem tudo para ser o palco em que o camisa 20 precise se impor de forma mais consistente — o adversário é tecnicamente inferior ao Marrocos, o que retira a desculpa do peso da estreia e exige desempenho.
A síntese honesta é esta: Boto não errou ao dizer que Paquetá ficou abaixo, mas a avaliação precisa ser calibrada. A atuação foi irregular, não apagada. O meia mostrou sinais concretos de crescimento quando bem posicionado, e o próximo jogo — contra o Haiti, sem a tensão da estreia e com um adversário mais acessível — vai revelar se o problema foi conjuntural ou se há algo mais profundo a resolver no encaixe de Paquetá no esquema de Ancelotti.
Se Ancelotti mantiver Paquetá pelo lado esquerdo desde o primeiro minuto contra o Haiti, você acha que o meia entrega os 90 minutos que a torcida espera — ou o posicionamento ainda não é suficiente para resolver a falta de ritmo de Copa?








