Ficar mais velho deveria significar jogar menos. Mas os oito jogadores convocados para a Copa do Mundo 2026 com 40 anos ou mais não receberam esse recado. Nunca na história do torneio — em 22 edições, desde 1930 — tantos veteranos estiveram no mesmo Mundial ao mesmo tempo. O número deste ano sozinho supera a soma de todos os anteriores, que era sete. É o paradoxo que vai se resolver dentro dos gramados do México, dos Estados Unidos e do Canadá nas próximas semanas.

O precedente que ninguém consegue apagar

Era Pasadena, Califórnia, 28 de junho de 1994. O sol castigava o Rose Bowl quando Roger Milla, 42 anos, entrou em campo pela seleção de Camarões contra a Rússia. O placar final foi 6 a 1 para os russos — uma goleada dolorosa — mas Milla marcou o gol de honra camaronês e entrou para sempre nos livros. Até hoje, ele é o único jogador de linha a atuar em uma Copa do Mundo com mais de 40 anos. Todos os outros seis veteranos dessa faixa etária que pisaram em Mundiais anteriores eram goleiros.

Trinta e dois anos depois, o feito de Milla como artilheiro permanece intocado. Mas a Copa do Mundo 2026 traz, pela primeira vez, jogadores de linha com 40 anos que têm condições reais de marcar — e de quebrar ao menos parte desse legado.

Os oito veteranos que chegaram onde poucos chegaram

O mais velho do grupo é o goleiro escocês Craig Gordon, 43 anos. Se entrar em campo, será o segundo mais velho da história em Copas — atrás apenas do egípcio Essam el-Hadary, que tinha 45 anos quando atuou na derrota da seleção egípcia por 2 a 1 contra a Arábia Saudita na Copa da Rússia, em 2018. Gordon, porém, deve ser reserva na Escócia.

  • Craig Gordon (43 anos) — goleiro, Escócia
  • Cristiano Ronaldo (41 anos) — atacante, Portugal
  • Guillermo Ochoa (40 anos) — goleiro, México
  • Manuel Neuer (40 anos) — goleiro, Alemanha
  • Luka Modric (40 anos) — meia, Croácia
  • Edin Dzeko (40 anos) — atacante, Bósnia
  • Vozinha (40 anos) — goleiro, Cabo Verde
  • Fernando Muslera (40 anos em 16 de junho) — goleiro, Uruguai

Cristiano Ronaldo, 41 anos, carrega o peso mais simbólico do grupo. Será seu sexto Mundial — um recorde absoluto, que divide com Lionel Messi (38 anos, que completará 39 durante o torneio) e com o próprio Ochoa. Ronaldo marcou em todos os cinco Mundiais anteriores, outro recorde. Agora, como jogador de linha mais velho a disputar uma Copa na história, tem a chance de entrar no seleto clube que até hoje tem apenas um membro: o velho Milla.

Roberto Martínez, técnico de Portugal, não esconde o que pensa do atacante.

"Ninguém tem o número de jogos decisivos que ele tem na carreira. Ele tem uma experiência em momentos decisivos que ninguém mais na nossa seleção tem."

Luka Modric e Edin Dzeko chegam como os outros jogadores de linha do grupo, e ambos com 40 anos. Para a Bósnia, a presença de Dzeko numa Copa do Mundo é, em si, um feito histórico — o país estreou no torneio apenas em 2014. Manuel Neuer, campeão mundial em 2014 com a Alemanha, retorna se recuperando de uma lesão na panturrilha. Aos 40 anos, o goleiro alemão precisa mostrar que o corpo responde quando a pressão aumenta.

O que mudou desde 1994 para que isso fosse possível

Ciência, dados e obsessão com o próprio corpo

Roger Milla era uma anomalia em 1994. O que explica que, três décadas depois, oito jogadores nessa faixa etária cheguem ao mesmo torneio? A resposta está na transformação completa do futebol de alto rendimento. Monitoramento biométrico em tempo real, cargas de treino individualizadas, nutrição de precisão e recuperação acelerada por crioterapia e análise de sono tornaram o corpo do atleta profissional algo gerenciável de formas que simplesmente não existiam no século passado.

Cristiano Ronaldo é o caso mais estudado. Acordos com clínicas especializadas, controle rigoroso de percentual de gordura corporal — relatado em diversas reportagens internacionais como próximo de 7% — e uma rotina de descanso que ele trata como parte do contrato com seu próprio desempenho. Modric, por sua vez, credita longevidade à inteligência tática: joga menos metros por partida do que aos 25, mas toma decisões mais rápidas. O corpo gasta menos, o cérebro compensa.

Fernando Muslera, goleiro do Uruguai, completa 40 anos no dia 16 de junho — um dia depois da estreia de sua seleção contra a Arábia Saudita. Será literalmente um quarentão de um dia, no momento em que pisar em campo.

O que esses oito nomes significam para a Copa do Mundo

A presença coletiva desses veteranos não é apenas uma curiosidade estatística. Ela muda a dinâmica de pelo menos quatro seleções com chances reais de avançar na competição. Portugal depende da liderança de Ronaldo para organizar um vestiário repleto de jovens. A Croácia de Modric encerra provavelmente aqui a geração mais vitoriosa de sua história — aquela que chegou à final em 2018 e ao terceiro lugar em 2022. A Alemanha de Neuer testa se um goleiro quarentão consegue sustentar a ambição de um time reconstruído. E o México de Ochoa, em seu sexto Mundial, busca finalmente superar as quartas de final, barreira que o tortura desde 1994.

Os oito veteranos que chegaram onde poucos chegaram 8 jogadores com 40 anos ou m
Os oito veteranos que chegaram onde poucos chegaram 8 jogadores com 40 anos ou m

Nenhum deles vai superar Roger Milla na lista dos mais velhos a marcar um gol em Copas. Mas Ronaldo, Modric ou Dzeko podem, ainda neste torneio, dividir com o camaronês o mérito de ter balançado a rede com 40 anos ou mais — um clube que, em 32 anos de espera, ainda tem apenas um sócio. O próximo jogo de Portugal na Copa do Mundo 2026 acontece já na fase de grupos, e Ronaldo tem 41 anos, 8 meses e 10 dias.