O fracasso foi o melhor negócio das carreiras deles. Chelsea, temporada 2013/14: Kevin De Bruyne disputou nove jogos, Salah onze. Números que, em condições normais, encerrariam carreiras promissoras. No caso desses dois, foram o trampolim para a grandeza.

Quando Mourinho não apostou nos dois

A história começa no mesmo vestiário, no mesmo técnico, na mesma frustração. José Mourinho assumiu o Chelsea em junho de 2013 e encontrou dois jovens talentosos que simplesmente não encaixaram no seu modelo. De Bruyne, então com 22 anos, contribuiu com apenas uma assistência em seus nove jogos pela equipe londrina. Salah, com 21, marcou dois gols em onze aparições — números que não justificavam a permanência num elenco altamente competitivo.

Eddie Newton, ex-diretor de scouting e formação do Chelsea, foi direto ao apontar o motivo do impasse:

"Para mim, acho que Salah e De Bruyne não era sobre talento. Foi um confronto de personalidade. Acho que eles eram mais do que bons, mas foi o técnico que não concordou com eles, então não ia funcionar."

O diagnóstico de Newton elimina a hipótese técnica. Nenhum dos dois chegou ao Chelsea com déficit de qualidade. O problema estava no campo das relações, não no campo de futebol.

Oscar testemunhou de perto o desgaste dos dois

Quem viveu aquela temporada de dentro foi o brasileiro Oscar, meia titular do Chelsea e companheiro direto da dupla no meio-campo. Sua análise adiciona um elemento concreto ao diagnóstico de Newton — a questão física, especialmente no caso do belga:

"Eu acho que o De Bruyne foi muito parecido com o Salah, mas teve até mais oportunidades. Quando o Mourinho chegou, começamos eu, ele e o Hazard, no meio. E ele começou muito bem, mas se machucou e perdeu muito espaço. Porque a competição era muito grande, é muito difícil em time grande, quando se machuca, voltar e ser titular."

A lesão foi o golpe decisivo para De Bruyne. Num elenco com Eden Hazard, Oscar e Frank Lampard disputando posições, não havia margem para recuperação. A saída tornou-se inevitável.

Alemanha e Itália como laboratório, Inglaterra como palco

O que aconteceu depois é a parte mais reveladora da história. De Bruyne foi cedido ao Werder Bremen ainda em 2014 e logo transferido ao Wolfsburg, onde explodiu: 20 gols e 27 assistências em 73 jogos pela Bundesliga. O desempenho foi suficiente para o Manchester City desembolhar cerca de £55 milhões em agosto de 2015 — um dos maiores valores pagos por um meia até então. Salah seguiu rota parecida, passando pela Fiorentina e pela Roma na Serie A italiana antes de ser contratado pelo Liverpool em 2017 por £36,9 milhões. Na primeira temporada em Anfield, marcou 44 gols em todas as competições, quebrando o recorde histórico da Premier League.

Os dois clubes que Mourinho dispensou acabaram se tornando pilares de duas das equipes mais dominantes da última década europeia. O City de Guardiola e o Liverpool de Klopp — rivais históricos na Premier League — foram construídos, em parte significativa, sobre as costas de dois jogadores que o Chelsea não soube aproveitar na mesma janela de transferências.

De Bruyne e Salah se reencontram na Copa do Mundo 2026

Doze anos depois da temporada que quase os enterrou, os dois se encontram em Seattle nesta segunda-feira (15) como os principais jogadores de suas seleções na Copa do Mundo de 2026. Bélgica e Egito estreiam no Grupo G às 16h (horário de Brasília). De Bruyne, aos 34 anos, chega à Copa como capitão belga e com mais de 900 jogos profissionais na carreira. Salah, 32 anos, é o maior artilheiro da história do Egito e do Liverpool.

Portugal, outro favorito do torneio, também finaliza sua preparação para a estreia. Conforme registrado pelo SportNavo, a seleção portuguesa instalou base em Palm Beach Gardens, na Flórida, e estreia na quarta-feira contra a República Democrática do Congo. O elenco comandado por Roberto Martínez alterna treinamentos com atividades de integração — João Félix e Rúben Neves venceram uma partida de spikeball contra Pedro Neto e o goleiro José Sá nos últimos dias de concentração, num detalhe que ilustra o clima de coesão no grupo que conta com Cristiano Ronaldo, Rúben Dias e Bernardo Silva.

A trajetória de De Bruyne e Salah serve de referência histórica para qualquer análise sobre talentos desperdiçados no futebol de elite. Ambos precisaram de, no máximo, dois anos fora do Chelsea para se tornarem insubstituíveis em seus novos clubes. O belga terminou a temporada 2023/24 com 13 títulos da Premier League acumulados no City. O egípcio carrega quatro Chuteiras de Ouro da Premier League no currículo. O Chelsea, naquele mesmo período, não conquistou nenhum campeonato inglês. O confronto desta segunda-feira coloca frente a frente dois homens que somam, juntos, mais de 900 gols e assistências combinados na carreira profissional — tudo construído depois que um técnico decidiu que eles não eram suficientemente bons.