Quando Sabastian Sawe cruzou a linha de chegada da Maratona de Londres no domingo com o tempo de 1h59min30s, a façanha não era apenas atlética. Era também o resultado de um processo industrial que envolveu materiais de kitesurf, compostos de borracha desenvolvidos em parceria com a fabricante de pneus Continental e até uma revisão milimétrica nos cadarços. O queniano se tornou o primeiro corredor da história a completar uma maratona oficial abaixo das duas horas, e o calçado que vestia no pé pesava exatamente 97 gramas.
Um tênis de Fórmula 1 para o asfalto de Londres
O Adizero Adios Pro Evo 3 é o tênis de corrida mais leve já produzido pela Adidas. Para chegar aos 97 gramas, a marca reduziu em 30% o peso em relação ao modelo anterior, o Evo 2, que já era líder de mercado no segmento de elite. A maior economia veio da espuma Lightstrike Pro Evo, cuja versão reformulada é 50% mais leve do que a usada no Evo 2. Patrick Nava, gerente-geral de corrida da Adidas, descreveu a filosofia do projeto em entrevista à Reuters:
"Tudo começa com a mentalidade do atleta, do técnico e da equipe por trás do produto, que é: o que podemos fazer melhor? Qual é o 1% de cada detalhe que podemos melhorar? E assim chegamos a um produto de 97 gramas."
A analogia com a Fórmula 1 não é por acaso. Nava usou explicitamente a comparação ao explicar o posicionamento comercial do Evo 3: um produto concebido para a elite, lançado em edição limitada de algumas centenas de pares na segunda-feira seguinte à corrida — quantidade que esgotou online em dois minutos.
Materiais de outras indústrias dentro do tênis
A inovação mais visualmente curiosa do Evo 3 está no cabedal, a parte superior do tênis que envolve o pé. A Adidas buscou inspiração fora do universo do atletismo e encontrou no kitesurf o material ideal: extremamente leve, mas com durabilidade compatível com os impactos repetitivos de uma maratona. Trata-se de uma abordagem de design cross-industry que tem se consolidado no desenvolvimento de equipamentos de alto desempenho — e que, segundo a análise do SportNavo, reflete uma tendência mais ampla de marcas esportivas dissolverem as fronteiras entre modalidades na busca por ganhos marginais.
No solado, a parceria com a Continental gerou uma peça de borracha descrita por Nava como "extremamente fina", aplicada apenas nas regiões de tração realmente necessárias durante a corrida. Nos cadarços, a intervenção parece pequena, mas é sintomática da lógica do projeto: ao encurtar o comprimento, a Adidas economizou de dois a três gramas. Em um tênis de 97 gramas, isso representa uma redução proporcional significativa.
"Trabalhamos no solado. Deixamos a tração apenas onde você precisa dela. Tiramos a tração onde você não precisa. E trabalhamos em conjunto com a Continental para criar uma peça de borracha extremamente fina", detalhou Nava.
Quantos segundos uma espuma mais leve pode valer
Do ponto de vista biomecânico, o que importa não é apenas o peso do tênis, mas a economia de corrida — métrica que mede o custo de energia necessário para manter determinada velocidade. Segundo a Adidas, o Evo 3 melhora a economia de corrida em 1,6% em relação ao Evo 2. Para o corredor comum, esse número pode parecer insignificante. Para Sawe, que completou 42,195 km em 1h59min30s mantendo uma média de aproximadamente 2min50s por quilômetro, representa a diferença entre se aproximar de uma barreira histórica e atravessá-la.
A matemática do desempenho de elite funciona assim: Eliud Kipchoge havia completado uma maratona abaixo das duas horas em 2019, mas em condições controladas, não reconhecidas como recorde oficial. Sawe fez o feito em competição homologada, com o cronômetro correndo. O recorde anterior oficial da prova era de 2h00min35s, marcado pelo próprio Kipchoge em Berlim, em 2023. Sawe o pulverizou em mais de um minuto.
O efeito cascata planejado pela Adidas
A estratégia comercial da Adidas com o Evo 3 segue um modelo já testado no mercado de tênis de performance: escassez controlada no topo para gerar demanda na base. O lançamento de centenas de pares na semana do recorde cria um ativo de imagem mensurável. Segundo levantamento do SportNavo, lançamentos similares de edições limitadas pós-recorde — como os modelos da Nike após Kipchoge em 2019 — registraram picos de engajamento digital superiores a 300% nas semanas seguintes ao feito, com reflexo direto nas vendas das versões de consumo massivo.
Nava confirmou a lógica: "No segundo semestre do ano, lançaremos uma versão mais comercial do tênis". A tecnologia que ajudou Sawe a redefinir os limites humanos estará, em questão de meses, disponível em versão acessível para o corredor de fim de semana — comprimindo o ciclo que vai do laboratório à prateleira e consolidando o Adizero como linha de referência no segmento running global.








