O silêncio das bilheterias conta uma história que a Fifa prefere não escutar. A menos de dois meses da Copa do Mundo de 2026, a estreia dos Estados Unidos contra o Paraguai transformou-se num retumbante fracasso comercial, com apenas 40 mil ingressos vendidos para um estádio que comporta 70 mil pessoas. No SoFi Stadium, em Los Angeles, os assentos vazios já ecoam antes mesmo do primeiro apito.
Quando o preço mata a festa
A estratégia financeira da Fifa criou um monstro que devora a própria audiência. Com ingressos da Categoria 1 custando US$ 2.730 — equivalente a R$ 14 mil na cotação atual —, a partida inaugural dos americanos tornou-se a terceira mais cara de todo o Mundial, ficando atrás apenas da final e de uma semifinal. Os assentos de Categoria 2, por sua vez, saem por US$ 1.940, cerca de R$ 10 mil.
O contraste com a realidade é brutal. Enquanto a maioria das partidas da Copa teve aumento de preço nos últimos meses devido à alta demanda, a estreia dos EUA permanece com valores estagnados. Segundo o portal The Athletic, as vendas caminham a passos de tartaruga: apenas algumas dezenas de tíquetes por dia encontram compradores dispostos a desembolsar uma fortuna.
Irã supera os anfitriões em popularidade
A ironia atinge proporções shakespearianas quando descobrimos que o confronto entre Irã e Nova Zelândia, marcado para o mesmo palco angeleno, vendeu 50 mil ingressos — 10 mil a mais que a estreia americana. Duas seleções sem tradição mundialista conseguiram despertar mais interesse que os donos da casa, numa inversão de valores que expõe as fraturas da política de preços adotada.
A federação americana (U.S. Soccer) já demonstra sinais de desespero. Nas últimas semanas, e-mails promocionais invadiram as caixas de entrada de sócios e grupos de torcedores, oferecendo "oportunidades adicionais" de acesso aos ingressos. Contudo, os valores permanecem proibitivos para o torcedor médio americano.
México ensina a lição que os vizinhos não aprenderam
Do outro lado da fronteira, o México oferece uma masterclass em como gerenciar a demanda. Para a abertura dos mexicanos contra a África do Sul, a procura foi tão intensa que os preços saltaram de US$ 1.825 para quase US$ 3.000 em menos de seis meses. A diferença cultural e esportiva entre os dois países anfitriões nunca pareceu tão evidente.
Conforme levantamento do SportNavo, esta discrepância reflete não apenas questões econômicas, mas a própria relação de cada nação com o futebol. Enquanto o México respira o esporte desde criança, os Estados Unidos ainda lutam para posicionar o soccer no panteão de seus esportes principais, competindo com NFL, NBA e MLB.
"O interesse pelo torneio é robusto", insiste a Fifa publicamente, negando qualquer crise nas vendas.
Porém, o inventário da entidade expõe milhares de lugares disponíveis no SoFi Stadium a apenas 50 dias da abertura. A realidade dos números contradiz frontalmente o discurso oficial, criando uma situação embaraçosa para uma Copa que deveria celebrar o crescimento do futebol em solo americano.
O risco do vexame televisivo
A preocupação com o possível vexame visual é legítima e palpável. Arquibancadas semi-vazias na estreia de um país anfitrião representariam um pesadelo de relações públicas para a Fifa, especialmente considerando que a Copa de 2026 marca o retorno do torneio aos Estados Unidos após 32 anos — desde aquela edição histórica de 1994 que quebrou recordes de público.
Se a política de preços não sofrer ajustes drásticos nas próximas semanas, a seleção americana pode protagonizar um dos maiores fiascos comerciais da história das Copas. O país que inventou o conceito de entretenimento esportivo de massa corre o risco de ver sua própria estreia mundial com público menor que seleções periféricas.
A partida entre Estados Unidos e Paraguai está marcada para 13 de junho, no SoFi Stadium, às 21h (horário de Brasília). Resta pouco tempo para que a Fifa reavalie sua estratégia e evite que o sonho americano se transforme no pesadelo das bilheterias vazias.








