"O distintivo conjunto brasileiro amarelo e verde se confundiu com a política ao passo que a camisa foi apropriada por apoiadores do ex-presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro." A frase não veio de um panfleto de militância nem de um tuíte anônimo — está grafada na parede do Museu da Fifa, em Zurique, na Suíça, na exposição temporária Designing the Beautiful Game, desenvolvida em colaboração com o Design Museum de Londres.
O que o Museu da Fifa colocou na parede — e por quê isso importa
A mostra, que ficou em cartaz até 25 de fevereiro, exibiu dois uniformes da Seleção Brasileira: uma camisa branca com detalhes azul lançada em 2019, usada na conquista da Copa América daquele ano, e uma peça verde e amarela dos anos 1950. O texto curatorial, aprovado pela própria Fifa, descreve como "novas gerações e contextos trazem novos significados a cores" e situa a camisa canarinho dentro de um processo de cooptação política recente.
A curadoria passou pelo crivo institucional da federação — o que diferencia o caso de uma opinião isolada. Ao endossar essa narrativa, a entidade máxima do futebol mundial entrou, pela primeira vez de forma documentada, no debate sobre o simbolismo político do uniforme brasileiro. A CBF não se pronunciou sobre a exposição até o fechamento desta matéria.
O Movimento Arco-Íris, a camisa 24 e o Comitê de Ética da Fifa
A disputa sobre o número 24 tem uma cronologia precisa. Na Copa América de 2021, a comissão técnica da Seleção masculina optou por não incluir o número 24 na numeração do elenco. O Movimento Arco-Íris de Cidadania LGBT, ao ser questionado sobre a ausência, protocolou uma representação formal no Comitê de Ética da Fifa — um passo além da ação judicial já movida no Brasil contra a CBF.

"O representante vem perante o Comitê de Ética da FIFA apresentar Reclamação de Ética da FIFA relatando Situação Violação De Direitos Humanos e de Discriminação à comunidade LGBTQI+ praticada pela Confederação Brasileira de Futebol ao não utilizar o número 24 no elenco da seleção brasileira masculina de futebol na Copa América 2021", diz trecho do documento obtido pela CNN Brasil.
O fundamento jurídico da representação é o artigo 4° do Estatuto da Fifa, que proíbe qualquer forma de discriminação e classifica distinções como "estritamente proibidas e passíveis de punição". O grupo ainda argumentou que a decisão reflete uma "cultura preconceituosa enraizada no futebol brasileiro" — tese que, combinada à narrativa da exposição em Zurique, coloca a CBF sob pressão institucional em duas frentes simultâneas.
A resposta oficial da CBF sobre a ausência do número 24 foi que "a numeração é responsabilidade da comissão técnica". Diante da representação formal na Fifa, a confederação optou pelo silêncio. Essa omissão, do ponto de vista institucional, não é neutra: o Estatuto da Fifa exige que suas confederações filiadas cooperem com investigações do Comitê de Ética.
Três leituras do mesmo uniforme — e o que os dados dizem sobre cada uma
O uniforme verde e amarelo carrega, ao mesmo tempo, pelo menos três leituras antagônicas que agora coexistem de forma explícita. Para a CBF, a ausência do 24 é uma questão técnica de gestão de elenco, sem conotação política. Para o Movimento Arco-Íris, a omissão é ato discriminatório mensurável — há, afinal, 26 atletas convocados e apenas 25 números utilizados, sendo o 24 o único suprimido de forma sistemática. Para a Fifa, conforme a exposição em Zurique, a camisa verde e amarela já atravessou o limiar do esporte e entrou no território da disputa simbólica política.
Os três argumentos não se excluem, mas os dados favorecem a leitura do Movimento Arco-Íris: a supressão do número 24 não é acidente logístico. Em convocações com 23 atletas, a ausência é invisível. Quando o grupo sobe para 24 ou mais jogadores — como ocorreu na Copa América de 2021, com 26 convocados —, a lacuna se torna estrutural e documentável. A decisão de pular o número, nesse contexto, exige justificativa técnica objetiva que a CBF nunca apresentou.
A exposição da Fifa, por sua vez, não acusa nomes nem partidos — descreve um processo sociológico. A camisa de 2019, exibida ao lado da peça dos anos 1950, foi lançada pela Nike como edição comemorativa do histórico uniforme branco e azul, mas acabou sendo relida como símbolo de uma corrente política específica durante o período eleitoral brasileiro entre 2018 e 2022. Esse processo de ressignificação de símbolos esportivos não é exclusividade do Brasil — a Fifa já documentou casos semelhantes em outros países —, mas a escala e a velocidade com que ocorreu no contexto brasileiro justificaram a menção explícita na mostra curada pela entidade.
Com a Copa do Mundo de 2026 a menos de três semanas de sua abertura, a CBF carrega dois processos abertos — um nacional e um no Comitê de Ética da Fifa — sem ter apresentado uma posição institucional documentada sobre nenhum dos dois. O Comitê de Ética da Fifa tem prazo indefinido para concluir investigações preliminares, mas casos com repercussão pública tendem a receber resposta formal antes de torneios de grande visibilidade. A confederação tem, portanto, uma janela curta para definir sua narrativa — ou o silêncio vai defini-la.








