Confesso: eu errei sobre isso em 2024. Quando a questão das camisas com símbolos históricos apareceu nos Jogos de Inverno, achei que era um caso isolado, uma burocracia menor que logo seria resolvida com bom senso. Hoje, véspera da estreia do Haiti na Copa do Mundo contra a Escócia, vejo o tamanho do que eu subestimei.
O que a Fifa vetou e por que a decisão vai além do regulamento
A imagem era de uma delicadeza quase poética: um grupo de pessoas segurando uma bandeira vermelha e branca, referência direta à Batalha de Vertières, ocorrida em 18 de novembro de 1803. A data não foi escolhida por acaso. O Haiti se classificou para esta Copa exatamente em 18 de novembro de 2025, ao vencer a Nicarágua por 2 a 0 nas Eliminatórias. Uma coincidência transformada em símbolo, bordada no tecido da camisa. A Federação Internacional de Futebol, no entanto, enxergou outra coisa: uma manifestação política, vedada pelo regulamento da entidade.
A decisão obrigou a federação haitiana a modificar os uniformes antes da estreia. Um representante do país confirmou ao jornal The Athletic, ligado ao The New York Times, que a ilustração era uma referência explícita à batalha que foi decisiva para a derrota francesa no território — e que abriu caminho para a independência do Haiti em 1804, tornando o país a primeira nação negra livre das Américas.
"São demonstrações do silenciamento histórico e político da memória da revolução e dos sujeitos históricos que a construíram. Esse silenciamento se deu no século XIX pelos discursos escravistas, quando as elites temiam uma nova revolução escrava", disse Gabriel Léccas, professor e mestre em história pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
Uma censura que já tinha endereço antes desta Copa
Não é a primeira vez. Em fevereiro deste ano, nos Jogos de Inverno na Itália, o Comitê Olímpico Internacional proibiu uma ilustração de Toussaint Louverture — um dos líderes da revolução haitiana — no uniforme que o país usaria na cerimônia de abertura. O argumento foi o mesmo: elemento político. Dois eventos diferentes, dois organismos distintos, uma única resposta. O padrão incomoda.
Silenciado.
Léccas aponta que esse processo evidencia discursos racistas cuja visão de mundo não reconhece o protagonismo de sujeitos históricos não brancos na luta por seus direitos. Registrado pelo SportNavo, o debate ganhou ainda mais força quando se percebeu que o veto ocorre num momento em que o Haiti chega à sua segunda Copa do Mundo — a primeira foi em 1974 — com um elenco já castigado por lesões: o meio-campista Leverton Pierre, do clube português Vizela, foi cortado por lesão no músculo adutor direito, confirmada pela federação haitiana na quinta-feira (11). No lugar dele, entra o zagueiro Garven Metusala, do Colorado Springs Switchbacks, da segunda divisão americana.
Onde termina a história e começa a política, segundo a Fifa
Esse é o nó que nenhum regulamento consegue desatar com elegância. A Fifa proíbe manifestações políticas, ideológicas, religiosas ou pessoais em uniformes e campos de jogo — uma regra que existe, em tese, para proteger o esporte de instrumentalização. Mas quando a "manifestação" é uma batalha de 1803, quando é a imagem da abolição da escravidão, quando é o tecido da identidade de um povo que chegou ao torneio mais assistido do planeta pela segunda vez na história, a linha entre regulamento e apagamento histórico fica perigosamente tênue.
A questão não é nova no futebol. Copas anteriores já foram palco de debates sobre o que pode e o que não pode aparecer em campos e uniformes. Mas o caso haitiano tem uma especificidade que o torna mais incômodo: não se trata de slogan político contemporâneo, de faixa de protesto ou de declaração de um jogador. Trata-se de uma imagem de arquivo, com mais de dois séculos, que representa a única revolução de escravizados bem-sucedida da história moderna.
"Nunca fomos os favoritos. Eu amo esse jogo de Davi contra Golias", disse Sergej Barbarez, técnico da Bósnia-Herzegovina — equipe que, como o Haiti, chega a esta Copa carregando a história de um povo que precisou lutar para existir. As palavras, ditas sobre futebol, soam como eco de algo maior.
O Haiti entra em campo no sábado (13), às 22h, no Grupo C, contra a Escócia — sem a Batalha de Vertières na camisa, mas com ela na memória de quem sabe o que aquela data significa. A seleção caribenha ainda enfrentará o Brasil na sexta-feira (19), às 21h30, com transmissão pela Globo, SBT, SporTV, Globoplay, CazéTV, GE TV e NSports. Confesso: eu errei sobre isso em 2024. Quando a questão das camisas com símbolos históricos apareceu nos Jogos de Inverno, achei que era um caso isolado — uma burocracia menor que logo seria esquecida.








