"Tive sorte e sobrevivi, enquanto muitos dos meus colegas ficaram feridos ou já não estão mais entre nós. Quando a guerra acabou, pelo menos me senti mais forte mentalmente. Depois disso, não havia muita coisa que pudesse me intimidar ou assustar." As palavras são de Edin Dzeko — e quem as lê sem conhecer a história poderia imaginar que descrevem uma lesão grave, uma eliminação dolorosa, talvez um rebaixamento. Não. Ele está falando de bombardeios, de uma casa reduzida a escombros, e de uma infância consumida pelo conflito mais letal da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

O que os números da guerra dizem sobre o menino de Sarajevo

Dzeko nasceu em 17 de março de 1986, em Sarajevo, capital da Bósnia-Herzegovina. Tinha exatamente seis anos quando, em abril de 1992, o Exército da República Srpska iniciou o Cerco de Sarajevo — operação que duraria 1.425 dias, tornando-se o sítio militar mais longo a uma capital europeia no século XX. Estima-se que mais de 11 mil civis morreram durante o cerco, outros 50 mil ficaram feridos. A cidade foi transformada em campo de tiro: atiradores posicionados nas colinas disparavam contra pedestres, crianças incluídas.

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A Bósnia declarou independência em 1992, após a dissolução da Iugoslávia no contexto do fim da Guerra Fria. O processo custou mais de 100 mil vidas em pouco mais de três anos de conflito armado. Dzeko não era estatística — era um menino muçulmano numa cidade sitiada, cuja família perdeu a própria casa para os bombardeios. Essa informação, registrada em reportagem publicada pelo SportNavo, não é detalhe biográfico: é o eixo em torno do qual toda a carreira do atacante precisa ser lida.

Quando faz um gol decisivo em estádios lotados da Europa, ele carrega consigo a memória de ruas esvaziadas pelo medo. Quando enfrenta uma eliminação precoce ou uma lesão que ameaça sua participação num torneio, o termômetro interno que calibra o sofrimento já foi calibrado por algo que nenhum vestiário do mundo consegue reproduzir.

O que a carreira de Dzeko revela sobre resiliência no futebol europeu

A trajetória profissional de Dzeko é, por si só, um argumento estatístico contra qualquer narrativa de predestinação fácil. Ele não emergiu de uma academia de elite nem foi revelado por um clube de grande estrutura. Sua ascensão passou pelo FK Željezničar de Sarajevo antes de chegar ao Wolfsburg, onde entre 2007 e 2011 acumulou 66 gols em 143 jogos pelo clube alemão, incluindo a temporada em que o Wolfsburg conquistou a Bundesliga em 2009 — único título da história do clube.

Do Wolfsburg foi para o Manchester City, onde disputou quatro temporadas e conquistou a Premier League em 2011/2012, campanha em que os Citizens venceram o título no último minuto da última rodada, com o gol de Agüero contra o Queens Park Rangers. Dzeko marcou 72 gols em 189 partidas pelo City. Depois, construiu uma segunda fase de carreira na Roma, onde entre 2015 e 2021 tornou-se o terceiro maior artilheiro da história do clube, com 119 gols em 260 jogos. Pela Inter de Milão, conquistou a Serie A em 2021/2022. Atualmente, aos 40 anos, defende o Schalke 04, clube que retornará à Bundesliga na próxima temporada.

Quando faz as contas da carreira europeia, o número que emerge é superior a 350 gols em clubes — cifra que poucos centroavantes de qualquer geração alcançam. Para a seleção da Bósnia, ultrapassou a marca de 73 gols internacionais, tornando-se o maior artilheiro da história de um país que só existe como nação independente desde 1992.

O que a Bósnia representa numa Copa do Mundo e o peso de Dzeko nisso

A Bósnia-Herzegovina é um país de aproximadamente 3,5 milhões de habitantes, etnicamente dividido entre bósnios muçulmanos (cerca de 50% da população), sérvios ortodoxos e croatas católicos. A divisão não é apenas demográfica — está inscrita na própria constituição do país, resultado dos Acordos de Dayton de 1995, que encerraram a guerra mas cristalizaram a fragmentação institucional. Dzeko, muçulmano, tornou-se símbolo de uma identidade nacional que transcende as divisões: o futebol como único denominador comum capaz de unir o país.

A primeira participação da Bósnia numa Copa do Mundo ocorreu em 2014, no Brasil. A seleção liderou seu grupo nas Eliminatórias com apenas uma derrota e chegou ao Mundial com expectativa real. No torneio, perdeu para Argentina e Nigéria, mas encerrou com vitória sobre o Irã. Dzeko marcou contra a Argentina numa partida que terminou 2 a 1 para os sul-americanos — gol que não salvou o resultado, mas ficou como documento da qualidade técnica do atacante mesmo no maior palco do futebol.

Para a Copa do Mundo de 2026, a classificação veio por caminhos tortuosos. A Bósnia ficou a dois pontos de uma vaga direta nas Eliminatórias Europeias e precisou disputar os playoffs. O sorteio colocou os bósnios diante da Itália — a mesma seleção que ficou de fora das Copas de 2018 e 2022. Os italianos abriram o placar com gol de Kean, mas a expulsão de Bastoni desequilibrou a partida. Tabakovic empatou para a Bósnia, e a classificação foi conquistada num jogo que a Itália havia celebrado antes de começar. Dzeko, com 40 anos, estará no torneio. Sua segunda Copa. Provavelmente a última.

"A lembrança não desaparece. Não dá para imaginar o que é passar por algo assim, a menos que você realmente tenha vivido isso", disse Dzeko ao refletir sobre os anos de guerra em Sarajevo.

Há uma lógica histórica no percurso desse homem que merece ser dita com clareza: a Bósnia só existe como país desde 1992, e Dzeko nasceu em 1986. Ele é, portanto, seis anos mais velho do que a própria nação que representa. Cresceu numa cidade sitiada, viu sua casa ser destruída, e se tornou o maior goleador da história de um país que aprendeu a existir enquanto ele aprendia a jogar bola. Nenhum outro jogador desta Copa carrega uma história assim.

A estreia da Bósnia na Copa do Mundo de 2026 está confirmada para a fase de grupos. Dzeko, com 40 anos e mais de três décadas de distância dos bombardeios de Sarajevo, entra em campo como o homem mais experiente da seleção e o mais antigo da história do torneio nesta edição. O país que sobreviveu à guerra vai à Copa. Ele também.