"Não me preocupo com o adversário. Me preocupo com o que meu time faz." A frase é de Mohamed Ouahbi, técnico de Marrocos, repetida à exaustão nos últimos meses. Mas neste domingo (7), no Sports Illustrated Stadium, em Harrison, Nova Jersey, foi o adversário quem deu o presente.

O calor úmido de Nova Jersey não perdoava ninguém. Aos 29 minutos do primeiro tempo do amistoso contra a Noruega, Noussair Mazraoui — lateral do Manchester United e peça-chave na defesa marroquina — deixou o gramado com desconforto físico. A substituição foi feita por precaução, segundo a comissão técnica. Mas quando um defensor titular sai antes do intervalo num jogo de preparação para a Copa do Mundo, a palavra "precaução" raramente fica sozinha por muito tempo.

O que Mazraoui representa no sistema de Ouahbi

Entender a perda de Mazraoui exige entender uma peculiaridade do esquema marroquino. O lateral do Manchester United não joga no lado direito — essa posição é do capitão e astro Achraf Hakimi. Mazraoui atua pela esquerda, cobrindo o flanco oposto numa linha defensiva que precisa de equilíbrio para funcionar. Num 4-2-3-1 que se alimenta de transições rápidas, a lateral esquerda é o pulmão do time: precisa atacar quando há espaço e fechar quando a bola se perde.

Nos três amistosos preparatórios para a Copa, Marrocos goleou Burundi por 5 a 0 e Madagascar por 4 a 0 antes de empatar em 1 a 1 com a Noruega. A invencibilidade chegou a 29 jogos — 23 vitórias e seis empates desde agosto de 2025. Mas a consistência defensiva que sustenta esse número tem Mazraoui como componente estrutural, não decorativo.

Segundo a análise da Trivela, o lateral-esquerdo é responsável por dar equilíbrio ao lado oposto de Hakimi, que avança com frequência. Sem Mazraoui, o flanco esquerdo fica exposto a ataques diretos — exatamente o corredor que Raphinha e o sistema de pontas do Brasil de Carlo Ancelotti gostam de explorar.

Ezzalzouli também saiu machucado e o ataque marroquino sangra junto

A lesão de Mazraoui não foi o único problema de Ouahbi neste domingo. Abdessamad Ezzalzouli, ponta do Real Betis, terminou o primeiro tempo com dores no joelho após chocar-se com Alexander Sørloth durante um escanteio norueguês. Ele não voltou para o segundo tempo — Soufiane Rahimi entrou em seu lugar no intervalo.

A ausência de Ezzalzouli dói de forma diferente. Foi dele o passe que originou o único gol marroquino na partida: uma arrancada pela direita, condução até a entrada da área norueguesa e assistência invertida para Brahim Díaz, do Real Madrid, que dominou e finalizou cruzado para abrir o placar aos 7 minutos. Díaz e Ezzalzouli são, juntos, o motor ofensivo do time — um criando em espaços abertos, o outro finalizando com qualidade técnica.

Martín Odegaard, do Arsenal, empatou para a Noruega aos 75 minutos, aproveitando cruzamento de Oscar Bobb, do Fulham. O 1 a 1 final esconde o domínio marroquino no primeiro tempo, mas também revela o que acontece quando o time perde ritmo e referências ofensivas.

E agora, a pergunta que nenhum torcedor brasileiro consegue ignorar: o Brasil tem condições reais de explorar esse flanco esquerdo descoberto antes que Ouahbi encontre uma solução?

A brecha existe, mas Marrocos ainda é um adversário perigoso

Seria ingenuidade reduzir Marrocos a suas baixas. A seleção africana chega à Copa ranqueada em 8º lugar no mundo pela FIFA, com um histórico de qualificação impecável — 8 vitórias em 8 jogos no grupo eliminatório, com saldo de gols de +20 (22 marcados, apenas 2 sofridos). A invencibilidade de 29 jogos não é coincidência; é um projeto tático consistente.

O que muda com a possível ausência de Mazraoui é o grau de exposição do flanco esquerdo. O substituto natural não tem o mesmo nível de leitura defensiva nem a capacidade de cobrir os avanços de Hakimi pelo lado oposto. Para o Brasil, que no 4-3-3 de Ancelotti usa as pontas como arma principal, esse desequilíbrio pode ser a diferença entre uma partida travada e um gol em transição.

A análise da Trivela aponta ainda uma semelhança tática entre os dois times: ambos preferem construir por baixo e acelerar em campo aberto, em vez de dominar a posse de forma estéril. Isso significa que o jogo do dia 13 deve ter poucos momentos de controle absoluto — e muitos de velocidade e decisão individual. Num cenário assim, a ausência de um lateral experiente e de um ponta criativo pesa mais do que em qualquer outro estilo de jogo.

"Marrocos se dá melhor em jogos de transições. A construção por baixo para progredir com campo aberto é uma semelhança notável com o Brasil de Ancelotti", escreveu a equipe de análise da Trivela após o amistoso deste domingo.

O Brasil estreia na Copa do Mundo contra Marrocos no próximo sábado, dia 13 de junho, às 19h (horário de Brasília), no mesmo Sports Illustrated Stadium onde Mazraoui deixou o gramado mancando. Se o lateral do Manchester United não se recuperar a tempo, Ancelotti saberá exatamente onde pressionar. A questão é se o Brasil terá jogadores em condições físicas para aproveitar essa janela — e se Ouahbi já encontrou um plano B que a Seleção ainda não viu.