Prometeu. Em algum momento de 1986, entre a altitude de Tilcara e o calor do México, a lenda diz que o futebol argentino fez um trato que nunca foi honrado. Carlos Bilardo levou 14 jogadores à cidade de Tilcara, no noroeste argentino, para uma preparação de altitude antes da Copa. Conheceu uma igreja, ouviu falar dos poderes da Virgem local e, segundo o folclore que sobreviveu quatro décadas, prometeu retornar com o troféu caso a Argentina fosse campeã. A Argentina foi. Bilardo não voltou. E o que veio depois — dois vice-campeonatos, em 1990 e em 2014, e um jejum de 36 anos que só terminou no Qatar — alimentou uma das superstições mais persistentes do futebol sul-americano.

O que Bilardo disse e o que o folclore preferiu ignorar

O próprio Bilardo negou a versão mais dramática da história durante a Copa de 2014, no Brasil.

"Eles me ligaram de Jujuy e expliquei que isso não aconteceu. Eu ia todas as tardes à igreja. Havia um padre, que era uruguaio. Mas, nem eu, nem os jogadores, fizemos alguma promessa. Eu nunca prometi nada, porque, quando prometo, cumpro", disse o treinador à época.
A negativa, porém, chegou tarde demais para deter o imaginário popular. O folclore funciona como o futebol de Bilardo: pragmático, resistente e difícil de desmontar com argumentos racionais.

Há um paralelo curioso com o que aconteceu na Itália nos anos 1980. Quando o Napoli de Maradona conquistou seus primeiros títulos entre 1987 e 1990, toda uma mitologia se construiu ao redor do clube — ex-votos, promessas em igrejas, altares improvisados nos bairros de Nápoles. O futebol mediterrâneo e latino-americano compartilha essa gramática do sagrado, onde a vitória esportiva precisa de um custo espiritual para ser legítima. Quando o custo não é pago, a conta fica em aberto.

Tentativas de quitar essa dívida simbólica aconteceram ao longo dos anos. Em 2011, o técnico Sergio Batista e seu assistente José Luis Brown visitaram Tilcara.

"Todo mundo fala dessa promessa, mas na realidade não foi como dizem. Tantas coisas foram ditas desde 86 que, com 'Tata' (Brown), decidimos voltar a Tilcara, visitar a Virgem e agradecer, por nossa própria calma", explicou Batista na ocasião.
Em 2018, um grupo de campeões de 86 foi além: levou uma réplica da taça ao local. Mesmo assim, a Argentina chegou a 2022 carregando 36 anos de jejum mundial.

A segunda maldição que ninguém menciona e é ainda mais antiga

A de Bilardo é a mais famosa, mas há outra sequência estatística que pesa sobre a estreia desta terça-feira (16) em Kansas City. Desde que o Brasil foi bicampeão em 1962, no Chile, nenhuma seleção conseguiu defender o título mundial. São 64 anos de fracasso consecutivo para os campeões que tentaram a façanha — Alemanha Ocidental em 1974, Argentina em 1990, Brasil em 1998, França em 2002, Itália em 2006, Espanha em 2014, Alemanha em 2018, França em 2022. A lista é um cemitério de favoritos.

Existe ainda um terceiro dado, mais específico à Argentina como campeã: em 1982, depois do título de 1978, a seleção perdeu para a Bélgica por 1 a 0 na estreia. Em 1990, depois do bicampeonato de 1986, caiu diante de Camarões pelo mesmo placar — com Maradona em campo nas duas ocasiões. No Qatar, em 2022, a Argentina perdeu para a Arábia Saudita por 2 a 1 na abertura do grupo. Três Copas como campeã, três derrotas na estreia. A regularidade dessa sequência é perturbadora o suficiente para que nenhum torcedor argentino durma tranquilo antes de um primeiro jogo.

A Argélia em Lawrence e o plano de Petkovic para explorar o peso histórico

Do outro lado, a Argélia chega a Kansas City com uma narrativa própria que ganhou força nas últimas semanas. A seleção montou base de treinamento em Lawrence, no Kansas, a cerca de 65 quilômetros de Kansas City, e foi adotada pela comunidade local de maneira improvável. O técnico Vladimir Petkovic, bósnio de 61 anos com passagens por Lazio e seleção suíça, descreveu a recepção com surpresa genuína:

"Ver entre 500 e 600 pessoas esperando em frente ao hotel naquela primeira noite me arrepiou. Eles realmente queriam compartilhar esse momento com o nosso time"
, afirmou. Vídeos do apoio em Lawrence viralizaram nas redes sociais, com torcedores às lágrimas e cachecóis da seleção argelina espalhados por uma cidade do Meio-Oeste americano que nunca tinha visto uma Copa de perto.

Petkovic recusou a armadilha de montar um plano específico para parar Lionel Messi, que disputa sua sexta Copa do Mundo. "Nunca elaborei um plano específico para parar apenas um jogador, e amanhã não será diferente", disse o treinador. A estratégia coletiva faz sentido quando se olha para o elenco argelino: Ibrahim Maza, meia de 20 anos do Bayer Leverkusen, foi além da diplomacia técnica de seu treinador. "Vamos vencer o Messi. Se Deus quiser. Precisamos fazer uma boa Copa do Mundo, e o primeiro jogo contra a Argentina é muito importante", declarou o jogador, em frase que circulou na imprensa internacional. Maza disputa sua primeira Copa e chega ao torneio como uma das principais promessas do futebol africano — formado em boa parte pela estrutura de clubes franceses, como tantos jogadores da geração argelina atual.

Buenos Aires, enquanto isso, vive uma apatia que contrasta com a euforia de 2022. Temperaturas abaixo de 10°C e ruas sem decoração para a Copa ajudam a criar um clima de indiferença que não corresponde ao que a torcida argentina costuma projetar para o mundo. A Argentina de Scaloni entra em campo nesta terça-feira sabendo que uma vitória não encerra nenhuma maldição — apenas adia a cobrança para as rodadas seguintes, contra Áustria e Jordânia. Conforme registrado pelo SportNavo ao longo desta Copa, a fase de grupos do torneio já produziu resultados imprevisíveis suficientes para que nenhum favoritismo seja lido como garantia.

Se a Argentina perder para a Argélia e, ainda assim, avançar à fase eliminatória e chegar à final — o único ponto em que a maldição dos bicampeões se consumaria —, você acreditaria que Bilardo deveria, finalmente, fazer a peregrinação a Tilcara antes da decisão?